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Cravo de abril, banana e legos simbolizam a Europa para os candidatos luxemburgueses
Luxemburgo 6 min. 08.05.2019 Do nosso arquivo online

Cravo de abril, banana e legos simbolizam a Europa para os candidatos luxemburgueses

Cravo de abril, banana e legos simbolizam a Europa para os candidatos luxemburgueses

Foto: Arquivo (Pixabay)
Luxemburgo 6 min. 08.05.2019 Do nosso arquivo online

Cravo de abril, banana e legos simbolizam a Europa para os candidatos luxemburgueses

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
O desafio foi lançado pela ASTI, a Associação de Apoio aos Trabalhadores Imigrantes, num debate com candidatos de todos os partidos luxemburgueses às eleições europeias: escolher um objeto que represente a UE. Algumas escolhas surpreenderam.

Não era um cravo vermelho, mas sim rosa pálido, e foi a escolha de Isabel Wiseler-Lima, a cabeça de lista dos cristãos-sociais (CSV) às europeias, em resposta ao desafio da ASTI. "Podia ser vermelho, era mais reconhecível", disse a lusodescendente, mostrando a flor a uma sala cheia, durante o debate organizado esta terça-feira pela associação.

Para a também vereadora da capital, a flor que deu o nome à revolução portuguesa "é um símbolo de liberdade, democracia e Estado de Direito", valores que correspondem às suas "convicções políticas". "Para mim a Europa é o melhor garante destes valores", afirmou a cabeça de lista do CSV, casada com Claude Wiseler, ex-ministro nos dois últimos Governos de Juncker e candidato a primeiro-ministro nas últimas legislativas.

O desafio abriu o debate desta terça-feira. Cada candidato tinha dois minutos para mostrar um objeto e explicar de que forma representa a Europa. Antoni Montserrat, candidato do Déi Lénk - cujo spot em língua francesa foi recusado pela RTL, numa polémica que marcou o arranque da campanha - levou um dicionário. E explicou que serve para "fazer a ponte entre as línguas", ajudando a "ultrapassar diferenças".


Opinião. A língua desautorizada
O partido que lidera a coligação governamental tinha anunciado "o futuro em luxemburguês". O futuro já aí está, com a RTL a recusar transmitir tempos de antena em francês.

Uma mala em miniatura serviu a Alain Hermann, candidato pelos comunistas (KPL), para criticar as barreiras ao acolhimento de refugiados, "que não vêm para passear, mas por desespero".

Daniel Silva, candidato do movimento pan-europeu Volt, levou o cartaz do partido, pintado em contraplacado, dando como exemplo as várias nacionalidades envolvidas na simples compra do painel. "Eu sou luso-luxemburguês, o senhor que nos vendeu a madeira era francês e a pessoa na caixa era portuguesa", contou, afirmando que o Luxemburgo "é muito pró-europeu", mas defendendo que é preciso estar atento às consequências da crise no país e reforçar os direitos dos "expatriados".

Christian Kmiotek, dos Verdes (Déi Gréng), mostrou um euro. O luxemburguês, natural de Esch-sur-Alzette, localidade que confina com França, recordou que antes da introdução da moeda única atravessava diariamente a fronteira para comprar "pão e queijo" e tinha de pagar em francos. "Isto também é a Europa", disse, defendendo que o euro "simplificou a vida dos cidadãos". 

Já Starksy Flor, co-presidente do partido Pirata, a surpresa nas últimas eleições legislativas, levou legos de várias cores. A ideia do descendente de imigrantes cabo-verdianos é reconstruir a Europa de forma "mais social", usando os seus elementos.

Algumas escolhas fizeram rir o público, como a banana com o símbolo do comércio equitativo trazida pelo socialista Marc Angel. Tudo para defender que a UE não deve perder tempo a "discutir o tamanho" dos frutos e legumes, mas concentrar-se nos "direitos dos consumidores e trabalhadores" e nas políticas ambientais.

Nem todos os representantes dos dez partidos que concorrem às europeias no Luxemburgo, agendadas para 26 de maio, levaram objetos. E também houve quem escolhesse símbolos surpreendentes - caso da candidata do ADR, o partido nacionalista, Sylvie Mischel, que levou a bandeira da UE.

O objetivo da ASTI era questionar os candidatos sobre as políticas para os estrangeiros, que representam quase 48% da população do Luxemburgo. Mas só houve tempo para ouvir a resposta a dois temas: a política de asilo e a atribuição do direito de voto aos estrangeiros em eleições nacionais.

A ASTI quis saber se os candidatos concordariam com a atribuição do direito de voto nas legislativas aos residentes nos países da UE, nas mesmas condições que os nacionais. Um alemão a viver no Luxemburgo poderia assim votar nas eleições para a Câmara dos Deputados luxemburguesa, enquanto um residente luxemburguês na Alemanha poderia eleger o 'Bundestag'.

Sem surpresa, ADR e Konservativ, os partidos nacionalistas, responderam com um rotundo "não". As legislativas devem ser "reservadas aos nacionais", mesmo em condições de reciprocidade noutros países, sustentou Sylvie Mischel. A candidata do ADR considerou mesmo a pergunta "espantosa" e inconveniente, depois de o "povo luxemburguês ter decidido a questão por referendo", com 80% de votos contra. Para o ADR, "a questão está fechada". "Ainda para mais depois de as condições de acesso à nacionalidade terem  sido facilitadas: agora, depois de 20 anos a viver no Luxemburgo, mesmo sem falar luxemburguês, oferecemos-vos a nacionalidade", disse a candidata do ADR, partido que votou contra a lei que simplificou o acesso à nacionalidade, apresentada pelo ministro da Justiça, Féliz Braz, após o chumbo do referendo. 

A representante dos Konservativ, fundado por Joe Thein depois de ter sido expulso do ADR, alinhou-se com aquele partido, mas acrescentou um argumento que provocou mal-estar na sala. "A cultura luxemburguesa é a cultura luxemburguesa, e é diferente da cultura muçulmana ou jugoslava", afirmou Pierrette Heinz. "São precisas várias gerações para estar [integrado] na nossa cultura". Entre o público, houve quem perguntasse baixinho "quantas gerações" eram precisas antes de poder votar. "Cinco?", propôs uma pessoa, em tom de sátira. 

O espectro do referendo passado

Quase quatro anos após o polémico referendo que dividiu o país, o direito de voto dos estrangeiros e as questões identitárias voltaram a ser temas fortes no debate. A consulta até "pode ser tabu", após o chumbo esmagador em 2015, mas continua a ser injusto "ter uma democracia que ignora metade da população", defendeu Starsky Flor, co-presidente do partido Pirata. "As leis devem ser feitas ou aprovadas por aqueles a quem se aplicam."

Sem surpresa, os partidos que apoiaram o referendo (a coligação de Governo, formada por DP, LSAP e Verdes, além do Déi Lénk), também são a favor da consagração desse direito a nível europeu, em condições de reciprocidade. Mas os partidos do Executivo, derrotado na consulta, consideram que "é demasiado cedo" para ressuscitar a questão no país, após o resultado esmagador do "não", como defendeu Anne Daems, do partido de Xavier Bettel (DP). 

Os comunistas mantêm a objeção ao voto de estrangeiros nas legislativas, defendendo em vez disso a "simplificação da lei da dupla nacionalidade", para permitir o acesso a "todos os residentes há mais de três anos" no país (atualmente a lei, aprovada em 2017, exige cinco).

Já Isabel Wiseler-Lima, do CSV - partido que fez campanha pelo "não" em 2015 - não fechou portas a essa possibilidade a nível europeu, se "acompanhado de condições de exercício" determinadas pelo Luxemburgo.

As perguntas foram enviadas antes do debate a todos os candidatos, que enviaram também as respostas por escrito. A ASTI publicou hoje o questionário e as respostas de todos os candidatos no seu site, em língua francesa. Uma forma de "ajudar os eleitores a decidir em quem votar ou em quem não votar" nestas europeias, defendeu Sérgio Ferreira, porta-voz da ASTI.  


Portugal-Espanha, 15.06.2018, Glacis, Luxemburgo. Foto: Chris Karaba
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7.808 portugueses inscritos para eleger os seis representantes do Luxemburgo no Parlamento Europeu nas próximas eleições, que se realizam a 26 de maio. Para poderem votar no Grão-Ducado, tinham de se recensear até 28 de fevereiro. Os portugueses no país também podem optar por eleger os eurodeputados portugueses. Neste caso, o recenseamento passou a ser automático, tendo o número de portugueses inscritos nos cadernos eleitorais passado de 2.163 para 55.990, segundo o Consulado de Portugal no Luxemburgo.


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