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Crónica de uma renúncia anunciada
O primeiro candidato com passaporte português a vencer eleições no Luxemburgo abdicou do cargo de burgomestre.

Crónica de uma renúncia anunciada

Cartoon: Florin Balaban/Contacto
O primeiro candidato com passaporte português a vencer eleições no Luxemburgo abdicou do cargo de burgomestre.
Luxemburgo 5 min. 18.10.2017

Crónica de uma renúncia anunciada

Em Bettendorf, a alegria com a eleição de José Vaz do Rio deu lugar à desilusão. Há quem perceba as razões do português, mas também há quem esteja arrependido de ter votado nele. E há até quem desconfie que foi pressionado para ceder o lugar – uma teoria da conspiração que o português refuta com veemência. O Contacto esteve em Bettendorf e conta-lhe como foi.

José Vaz do Rio estava a fazer de fiscal de linha no jogo entre o FC Jeunesse de Gisldorf e o AS Hosingen, quando o telefone desatou a tocar. "Telefonaram-me a dizer que eu tinha sido o primeiro [nas eleições] e começaram a vir as mensagens: 'Félicitations, félicitations, félicitations...'". O imigrante largou a bandeira e foi a correr ao bar do campo de futebol para confirmar os resultados. O clube de que o português é presidente acabaria por vencer o jogo por 4-2, mas essa não seria a maior vitória do dia. "José, tu ganhaste, foste o primeiro!", disseram-lhe os amigos luxemburgueses. Incrédulo, o português respondeu: "Não ganhei nada!".

"Ficou branco como o papel", conta a mulher, Maria Adelaide. "Ele nunca quis ser burgomestre". Nessa noite, José Vaz do Rio não dormiu.

A cronologia dos acontecimentos

Em Bettendorf, uma autarquia com menos de três mil habitantes, o resultado das eleições municipais de 8 de outubro soube-se pouco depois das 17h. José Vaz do Rio teve 588 votos, mais vinte que o segundo classificado. Em terceiro lugar ficou o anterior burgomestre, Albert Back, com 553 votos. Mas apesar de ter sido o mais votado, José Vaz do Rio não quer assumir o cargo.

18h. O português liga a Paul Troes, o segundo mais votado em Bettendorf e "um amigo de longa data". "Tu queres ser burgomestre?", pergunta-lhe o luxemburguês. "Eu disse: 'Não, porque um burgomestre não pode ter certas limitações'", conta José Vaz do Rio ao Contacto. As limitações invocadas pelo imigrante são duas: "não falar bem luxemburguês" e só ter feito a quarta classe. "Tu queres trabalhar com quem?", pergunta-lhe então Paul Troes. Vaz do Rio propõe que seja a advogada Pascale Hansen a assumir o cargo de burgomestre. "Ela sabe de leis e foi primeira vereadora". Os dois decidem então telefonar à edil e marcam encontro para essa mesma noite.

20h. À hora em que as televisões em Portugal começam a passar em rodapé o feito histórico do imigrante português, José Vaz do Rio prepara-se para propor a passagem de testemunho à quarta candidata mais votada. Quando entra no restaurante que fica ao lado do edifício da autarquia – o local combinado para a reunião do triunvirato –, é recebido como um herói. "Estava cheio de gente luxemburguesa e deram-me todos os parabéns, 'bravo, bravo, bravo'".

O encontro é a três: José Vaz do Rio, Paul Troes e Pascale Hansen. "Nós conversámos e ela perguntou-me: 'José, queres ser tu o burgomestre? Foste o melhor, o que é que tu achas?'". "Não, tu tens as melhores qualidades para ser burgomestre", responde-lhe o português. Pascale Hansen aceita. "Mas ela também me disse: 'Tu então ficas como primeiro 'échevin' [vereador], e o Paul, que foi segundo [mais votado], fica segundo vereador. Está bom assim?". "Por mim, cem por cento de acordo", respondeu-lhe o português.

Segunda-feira, 9 de outubro, 20h. Um dia depois, nova reunião, desta vez para aprovar as nomeações do novo colégio de vereadores. O encontro acontece no escritório de advogados de Pascale Hansen, em Diekirch. Dos nove eleitos que deveriam participar na reunião, só seis estão presentes. O anterior burgomestre nem sequer foi convidado. "Queríamos uma mudança", explica Vaz do Rio. Mas não é necessário estarem todos?, pergunta o Contacto a José Vaz do Rio. "Não, em todas as comunas basta a maioria. Há seis anos também não me convidaram. Como era novo [eleito pela primeira vez], já fiquei contente por ser eleito para o conselho comunal, e já só me apresentaram os resultados do que tinham decidido".

A reunião arranca então com apenas seis dos nove eleitos. "Comecei eu a falar, como tive a maioria. E falámos se estava tudo de acordo para continuarmos assim, a Pascale como burgomestre, eu primeiro vereador e o Paul segundo. Toda a gente disse que sim: 'de acordo, cem por cento'".

É durante esta reunião que Marcelo Rebelo de Sousa liga ao português para o felicitar. "Eu estava com o telemóvel em vibrador", recorda o português. Do outro lado, o Presidente da República encoraja-o a aceitar o cargo, mas é demasiado tarde. No dia seguinte, o novo colégio de vereadores de Bettendorf envia um comunicado a anunciar a decisão. O homem que ganhou as eleições não é o burgomestre, mas sim primeiro vereador no novo Executivo camarário.

"Desilusão"

Sacha Back tinha nove cruzes para usar no boletim de voto – o número de membros a eleger para o Conselho Comunal da localidade –, mas só usou uma. "Só votei no José, o resto não conhecia ninguém", conta o luxemburguês, em português perfeito. Sacha está sentado na esplanada do café onde quase todos os dias José Vaz do Rio toma uma bica, na pequena localidade de Gilsdorf, a três quilómetros de Bettendorf. O luxemburguês aprendeu a falar português "com os amigos" e ninguém diria que não é português. Sacha trabalha na fábrica de pneus da Goodyear – de onde José Vaz do Rio se reformou há quatro anos – e diz que entende as razões do imigrante para não aceitar o cargo. "É a barreira linguística, como em todo o lado", comenta António, outro cliente do café português. "De certeza que se ele dominasse a língua luxemburguesa ficaria ele". António não está inscrito para votar, e é difícil encontrar portugueses nos cadernos eleitorais. Em Bettendorf vivem 900 portugueses, mas só cerca de 150 estão recenseados.

José Barros tem 30 anos, já nasceu no Luxemburgo e mesmo assim não vota. Apesar disso, tem opinião sobre o caso. "Acho mal. Ganhou as eleições, por que é que não ficou burgomestre?".

António Machado, reformado de 60 anos, também não se registou para votar, mas os três filhos votaram todos em Vaz do Rio. Depois, veio a desilusão. "A mais velha disse-me: 'Ó pai, palavra de honra, se eu sabia não votava nele'". "E como ela há muitos", conta o reformado, sentado à mesa de um café português em Bettendorf.

Na pequena localidade não se fala de outra coisa. Todos conhecem o "burgomestre português", como há quem continue a chamar-lhe. "Ele é mesmo popular, é um espetáculo", diz José Barros. Apesar de ter renunciado ao cargo de burgomestre – ou 'pour cause' –, Vaz do Rio não pára de dar entrevistas. Quando a RTL lá esteve, Adam Redzie, um funcionário da autarquia, atirou-lhe: “José, vais ficar mais famoso que o Cristiano Ronaldo!". Pelo menos para a história, já entrou.

Paula Telo Alves