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Covid acelerou a desigualdade social no Grão-Ducado
Luxemburgo 4 min. 16.10.2020

Covid acelerou a desigualdade social no Grão-Ducado

Covid acelerou a desigualdade social no Grão-Ducado

Pixabay
Luxemburgo 4 min. 16.10.2020

Covid acelerou a desigualdade social no Grão-Ducado

Um quarto das famílias tem dificuldades em terminar o mês em terreno positivo. Apesar da taxa de pobreza estar a disparar no país, os mais ricos chegam a ter um rendimento quase 21 vezes superior ao dos mais desfavorecidos. Famílias monoparentais, jovens e emigrantes ocupam a linha da frente das maiores dificuldades.

A crise sanitária descambou mesmo numa crise económica e social, com as desigualdades a ganharem cada vez mais terreno no Grão-Ducado. Com o mercado de trabalho a cair “drasticamente” no segundo trimestre do ano, o desemprego subiu de 5,4% em 2019 para 6,5% nestes primeiros dez meses do ano. Sem fim à vista, os impactos económicos da pandemia estão a refletir-se dentro de casa. Entre outras, esta é a conclusão de destaque da edição de 2020 do relatório “Coesão Social e Trabalho” do Statec que prevê uma degradação do nível de vida no Luxemburgo para as classes mais baixas. 

O de cima sobe e o debaixo desce 

Tal como na crise de 2008, os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres, também no Grão-Ducado. Em termos de rendimento, por exemplo, as desigualdades têm vindo a crescer constantemente desde 2017: os 10% mais ricos têm um rendimento nove vezes superior ao dos 10% mais pobres. Assim, os 5% mais ricos têm um rendimento quase 21 vezes superior ao dos 5% mais pobres do Luxemburgo.

"Existe uma correlação a longo prazo entre desigualdades crescentes e uma clara tendência ascendente na taxa de pobreza", alerta Jérôme Hury, conselheiro de estatísticas sociais da Statec. 

Embora a taxa de risco de pobreza seja relativamente estável em 2019 a 17,5%, o instituto de estatística luxemburguês observa que as famílias com mais do que um filho e as famílias monoparentais estão particularmente expostas às dificuldades financeiras, tal como os jovens que vivem sozinhos, os estrangeiros, as pessoas com um nível de educação considerado baixo e os desempregados.

Fim do mês 

Estima-se que um quarto dos agregados familiares têm cada vez mais dificuldades financeiras. O Statec mostra que 24,3% dos agregados familiares tiveram dificuldades em "fazer face às despesas" no ano passado. Mais especificamente, fazer face às despesas é "bastante difícil" para 14,4% dos agregados familiares, "difícil" para 6% e “muito difícil” para 3,9%. 

Desde 2011-2012 que a situação não era tão grave. Sob a incerteza da pandemia, a tendência está a agravar-se. E é precisamente nesse sentido do agravamento das condições de vidas, que o governo baseia a sua proposta de orçamento do Estado para o próximo ano. 

Sem dados finais sobre este ano, o Statec estima que em 2019 o número de pessoas no limiar da pobreza tenha sido de 17,5%, ganhando cerca de 1804 euros por mês. 

(Des)igualdade face à doença

Muito além da conta bancária, as desigualdades continuam a manifestar-se no acesso à saúde, com a população menos abastada a ter de escolher, por exemplo, entre a alimentação e a consulta médica que, apesar de ser reembolsada, continua a ter de ser paga no momento. 

Especificamente em relação à pandemia, o Statec conclui que a densidade da população de cada região “desempenha o papel principal no caso da contaminação por covid-19”, dando expressão ao facto do maior número de casos de infeção pelo novo coronavírus continuar a ser identificado no centro e no sul do país, com destaque para Esch-sur-Alzette. 

Durante o confinamento - que só foi levantado a 21 de junho e 2020 - “uma elevada proporção de idosos, solteiros, e homens” pode ter ajudado a propagar a doença. “Após este período, a densidade populacional continuou a ser o fator explicativo”, vinca que o Statec que, do ponto de vista da pandemia, exclui o nível de rendimentos ou de educação no que respeita à exposição à doença. 

“Essenciais” são sobretudo mulheres

Apesar do confinamento ter atirado mais de metade dos trabalhadores - 52% - para o regime de teletrabalho, dois terços dos assalariados não teve sequer essa opção, nomeadamente os profissionais de saúde, os trabalhadores do retalho e o setor das limpezas. 

Particularmente expostos à covid-19, a grande maioria dos trabalhadores considerados “essenciais” no auge da primeira vaga da pandemia são mulheres. O perfil trabalhadores considerados imprescindíveis inclui uma maioria de contratos a temporários e ou a tempo parcial, um nível de educação baixo. 

Na chamada linha da frente da pandemia, 90% destes trabalhadores aufere uma remuneração média de apenas 23,90 euros/hora, contra os 26,5 euros/hora pagos aos restantes profissionais. 

Drama da Habitação 

Sem surpresa, o custo da habitação continua a ser o elemento que mais pesa nas contas das famílias com mais de três quartos da população a acreditar que o peso da renda ou da prestação ao banco é bastante elevado. 

Em percentagem, 32% dos agregados familiares residentes no Luxemburgo consideram que o encargo financeiro da sua habitação é “significativo”, 45,9% que é “médio”, e 22,1% “normal”. A percepção piora quando há crianças. 

Face à escalada do preço do metro quadrado, mesmo durante a pandemia, os arrendatários estão debaixo de uma pressão ainda maior. O peso da habitação está “logicamente correlacionado com a capacidade financeira do agregado familiar. Assim, 69,3% das famílias diz-se longe da saúde financeira, contra 20,2% que “vivem sem dificuldades”. 

No  ano passado, 2,6% dos agregados familiares relatam ter tido pelo menos uma vez, durante dos últimos doze meses, atrasos nos pagamentos de renda ou no pagamento do empréstimo mensal. Numa percentagem praticamente residual, 2,3% assume atrasos no pagamento das contas correntes com água, eletricidade, gás ou aquecimento. 

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