Escolha as suas informações

Covid-19. "Quanto mais cedo as crianças começarem a ser vacinadas melhor"
Luxemburgo 7 min. 15.05.2021

Covid-19. "Quanto mais cedo as crianças começarem a ser vacinadas melhor"

Covid-19. "Quanto mais cedo as crianças começarem a ser vacinadas melhor"

Luxemburgo 7 min. 15.05.2021

Covid-19. "Quanto mais cedo as crianças começarem a ser vacinadas melhor"

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Ainda se conhece mal como o SARS-CoV-2 afeta as crianças. O estudo nacional Predi-Covid vai ser ampliado à população mais nova do Luxemburgo. O investigador Guy Fagherazzi explica ao Contacto os objetivos da investigação e defende a vacinação pediátrica.

Com a vacinação a decorrer nos adultos e o país e a Europa a começar a respirar após um ano de combate apertado à pandemia chegou a altura de concentrar as atenções nas crianças e adolescentes, a população que tem sido menos afetada com gravidade pela covid-19.

Ao mesmo tempo que se discute a administração da vacina pediátrica anti-covid intensificam-se agora os estudos sobre a doença nos mais novos, as idades mais negligenciadas nas pesquisas por serem as mais poupadas pelo vírus.

Guy Fagherazzi é o investigador principal do estudo nacional Predi-Covid.
Guy Fagherazzi é o investigador principal do estudo nacional Predi-Covid.

 Mesmo assim, existem casos graves em menores, são raros, mas existem. Sobretudo, as inflamações que surgem passada a fase da infeção do vírus e que podem afetar vários órgãos conduzindo mesmo à sua falência.

No Luxemburgo, registaram-se até à data cerca de uma dezena destes casos graves em menores, alguns obrigando ao internamento nos cuidados intensivos, todos tratados com sucesso.

Principais fatores de risco

Para prevenir estas situações, cientistas do país estão a iniciar um estudo nacional para descobrir os principais fatores de risco associados aos casos da covid crítica nos menores. A investigação está a realizada no âmbito da investigação Predi-Covid que há um ano estuda estes fatores na população adulta do Grão-Ducado. Coordenada pelo Institute Luxembourg of Health (LIH) e realizada sob a égide da Task force Covid-19 esta investigação centra-se em adultos que testaram positivo para o SARS-Cov-2 com o objetivo de conhecer os tais fatores implicados no prognóstico grave da doença.

Até à data a pesquisa da doença da pandemia tem-se centrado sobretudo no conhecimento da sua evolução clínica em adultos e na elaboração de tratamentos médicos para estas populações já que têm sido elas as principais vítimas do vírus, como frisam os investigadores.

Agora, os cientistas estão a ampliar este estudo às crianças residentes no país, entre os zero e 18 anos, declarou ao Contacto Guy Fagherazzi, investigador principal do Predi-Covid e diretor do Departamento da Saúde da População do LIH. A amostra dos menores no estudo começou a ser composta em fevereiro e decorre até junho. No total serão uma centena de crianças e adolescentes que irão integrar o Predi-Covid.

 “Uma vez que as características e sintomas clínicos da covid-19 em crianças podem ser consideravelmente diferentes dos observados em adultos, há necessidade de conhecermos os principais fatores de risco associados aos casos de doença crítica em crianças, sob todos os aspetos, quer estejam relacionados com imunidade ou causas ambientais”, começa por explicar Guy Fagherazzi. Assim sendo, o objetivo da extensão pediátrica do Predi-Covid é, portanto, “identificar esses fatores e definir as características clínicas, biológicas e microbiológicas da covid-19 dos pacientes mais jovens”.


Luxemburgo. Doença pós-covid está a surgir em crianças e pode ser grave
No Grão-Ducado e em Portugal há casos de crianças hospitalizadas devido a inflamações que apareceram semanas após a infeção. Duas pediatras dos dois países explicam esta estranha síndrome.

Assintomáticos incluídos

Esta investigação nos mais novos vai abranger todas as formas da infeção “desde crianças assintomáticas que se encontram em casa até aos casos graves que são tratados nos hospitais”, estudando aqui os fatores implicados nestas situações críticas.

E como vão os cientistas encontrar as crianças assintomáticas, a forma mais frequente da infeção, para participarem no estudo? “Este recrutamento vai ser feito graças à sua identificação através do rastreamento de contactos” de pessoas infetadas. Para a equipa será importante “identificar as características específicas da infeção assintomática destas crianças em comparação com as das crianças que desenvolvem sintomas”, frisou este cientista.

Apesar de existirem já “um vasto conjunto de dados recolhidos sobre a covid pediátrica ainda se “sabe pouco sobre a apresentação da doença nas crianças e adolescentes e os mecanismos subjacentes à infeção”, alerta Guy Fagherazzi adiantando que estes dados irão ser agora também trabalhados no estudo.

A estranha doença grave

O aparecimento mais recente de uma síndrome pós-covid em crianças e adolescentes e que pode obrigar ao internamento nos cuidados intensivos vai também ser estudada pela equipa do Luxemburgo.

Para os especialistas estes são os casos infantis que maior preocupação suscitam, pois apresentam os maiores riscos de doença severa. Denominada como Síndrome Multissistémica Inflamatória Pediátrica (MIS-C) esta doença rara pós-covid, tem vindo a ser relatada nos últimos meses em crianças e adolescentes surgindo, em média, três a quatro semanas após a infeção pelo SARS-CoV-2. 

A MIS-C pode causar várias inflamações em vários locais ou órgãos ao mesmo tempo, como o aparelho gastrointestinal, coração, pulmões, rins, olhos ou a pele, podendo causar a sua falência. "Trata-se uma complicação pós-infeção, onde já não é o vírus em si que causa danos no organismo, mas sim uma reação inadequada do sistema imunitário" de quem já esteve como explicou ao Contacto Isabel De La Fuente, em março. 

"Além de ser uma doença rara, no Luxemburgo o MIS-C afetou menos de um menor em cada 1000 crianças infetadas com covid", especificou esta pediatra da Kannerklinic. Alguns dos casos graves da MIS-C que passaram por esta clínica pediátrica irão fazer parte do estudo infantil do Predi-Covid.


Vacinas covid-19 para as crianças poderão chegar no final do ano
Convicção é do Diretor da Saúde. Ensaios clínicos nos mais novos estão em curso há vários meses.

Consequências a longo prazo

As sequelas e as consequências a longo prazo da infeção pela covid-19 nos mais novos são outra das áreas desta investigação, realça Guy Fagherazzi.

“Nesta fase da pandemia, ainda não conhecemos muito bem as consequências a longo prazo para a saúde, especialmente para as crianças. É provável que observemos algumas sequelas mesmo em crianças assintomáticas, entre as participantes do Predi-Covid”, estima este investigador realçando que a pesquisa vai estudar estes efeitos a longo prazo tanto nos mais novos como nos adultos. Nos mais velhos o estudo decorre já há um ano e vai continuar. Nas crianças o estudo decorrerá até junho de 2022.

No total, os cientistas vão contar com a participação de uma centena de crianças. E como vai decorrer o estudo? “Após obterem o consentimento dos pais, as enfermeiras vão às suas casas (ou no hospital, se hospitalizadas) e recolhem amostras biológicas das crianças, dados clínicos, epidemiológicos e demográficos”, explica o investigador. 

Os menores participantes irão também preencher regularmente questionários para atualização sobre a evolução dos seus sintomas sobre a doença durante um ano, desde o início da participação no estudo, continua Guy Fagherazzi.  A complementar estes dados, existe ainda uma aplicação dirigida aos participantes para gravação regular de voz cujo objetivo é “identificar biomarcadores vocais digitais para monitorizar à distância os sintomas relacionados com a Covid-19”.


Covid-19. Crianças podem começar a ser vacinadas este ano
Moderna e Pfizer estão a realizar ensaios clínicos e os EUA esperam começar a vacinar os mais novos ainda este verão. É importante vacinar as crianças? Especialistas dão a resposta ao Contacto.

Vacinação pediátrica contra a covid

Com o programa da vacinação a cumprir a ordem descendente dos grupos prioritários e as farmacêuticas a realizarem ensaios clínicos com as suas vacinas a crianças e adolescentes a vacinação anti-covid de menores é já um dos temas do momento.

O Canadá tornou-se no primeiro país a aprovar a vacina da Pfizer para adolescentes dos 12 aos 15 anos, no passado dia 4 e anunciou que iria começar a vacinação esta semana. E, nos EUA, a Food and Drug Administration (FDA), a entidade norte-americana do medicamento,  anunciou a autorização da vacina da Pfizer para os 12-15 anos, nesta segunda-feira, dia 10 de maio. A FDA declarou que os adolescentes poderiam já começar a receber as doses da vacina anti-covid. Segundo a farmacêutica Pfizer, os primeiros resultados dos ensaios clínicos nestas idades revelaram 100% de eficácia após a segunda dose.


Vacina da Pfizer/BioNTech aprovada nos EUA para adolescentes entre os 12 e os 15 anos
Joe Biden considerou o anúncio "um desenvolvimento promissor na luta contra o vírus".

Alemanha quer avançar

Na Europa, também a Inglaterra declarou já a intenção de começar a vacinar crianças com mais de 12 anos antes do início do próximo ano letivo e a semana passada o ministro da Saúde da Alemanha anunciou estar só à espera da luz verde da Agência Europeia do Medicamento para avançar também com a vacinação entre os mais novos.

Para Guy Fagherazzi estes “primeiros resultados são encorajadores e provavelmente veremos a luz verde da FDA e da EMA nos próximos meses”. Este investigador não tem dúvidas: “Se as vacinas forem declaradas seguras, quanto mais cedo as crianças começarem a ser vacinadas melhor”.

Também Jean-Claude Schmit, Diretor da Saúde do Luxemburgo já se manifestou publicamente  favorável à vacinação das crianças e adolescentes contra o novo coronavírus e  considera que se tudo correr bem é “razoável” estimar que no final deste ano as crianças poderão começar a ser vacinadas. 

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas