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Covid-19. Portugueses correm mais riscos porque trabalham mais fora de casa
Luxemburgo 4 min. 03.09.2020

Covid-19. Portugueses correm mais riscos porque trabalham mais fora de casa

Covid-19. Portugueses correm mais riscos porque trabalham mais fora de casa

Foto: Lex Kleren
Luxemburgo 4 min. 03.09.2020

Covid-19. Portugueses correm mais riscos porque trabalham mais fora de casa

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
A comunidade lusa foi também, entre todos os residentes, a que apresentou maiores riscos de transmitir a covid-19, revela um estudo. Um dos autores explica as razões ao Contacto.

 Entre todas as nacionalidades residentes no Luxemburgo, incluindo os luxemburgueses, os portugueses foram aqueles que mais tiveram de sair de casa durante o confinamento para ir trabalhar.

A revelação é feita no estudo a “Evolução dos padrões dos contactos sociais durante a crise da covid-19 no Luxemburgo”, realizado entre 25 de março e 25 de junho, e que foi divulgado na semana passada.

Nesta sondagem, 27% dos inquiridos portugueses afirmaram que durante o confinamento continuaram a deslocar-se para o seu local de trabalho. Esta foi a maior percentagem entre todas as nacionalidades de trabalho fora de casa.

“Isto acontece porque os portugueses provavelmente têm trabalhos que não podem ser feitos a partir de casa, através de teletrabalho e por isso tiveram de sair para ir trabalhar”, explica ao Contacto Ardashel Latsuzbaia, investigador do Laboratório Nacional de Saúde (LNS) do Luxemburgo e um dos autores do estudo. A investigação foi realizada pelo LNS em colaboração com o Fundo Nacional para a Investigação (FNR). A construção civil, por exemplo, é um dos setores onde trabalham muitos portugueses e foi o primeiro a reiniciar atividade ainda durante o confinamento, a 20 de abril.

Esta é também a razão pela qual a comunidade portuguesa do Luxemburgo é aquela que maior número de contactos sociais teve durante o confinamento, declara este investigador, salientando que ultrapassou mesmo os luxemburgueses.

Durante o confinamento, um total de 5.644 participantes no inquérito, com uma idade média de 44,2 anos, reportaram 18.118 contactos, ou seja, cada residente no Luxemburgo manteve em média, 3,2 contacto por dia, indica o estudo. Já os portugueses realizaram uma média de 4,3 contactos sociais por dia. Os luxemburgueses ficaram-se pela média de 3,5 contactos sociais/dia.

“O maior número de contactos sociais diários dos portugueses pode estar relacionado com os contactos dos portugueses no local de trabalho”, esclarece Ardashel Latsuzbaia (na foto em cima).

Maior risco de contágio

Nesta investigação, os portugueses estão ainda em destaque ao nível dos riscos de transmissão da covid-19: “Os residentes portugueses representam a maior comunidade estrangeira no país, chegando a 15% do total da população e parece que possuem um risco acrescido de transmissão da doença”.

Para o investigador a razão é clara e não tem a ver com a identidade portuguesa: “Quem tem mais contactos sociais tem mais riscos de transmitir a doença. Durante o confinamento os portugueses foram quem trabalhou mais fora de casa, por isso tiveram mais contactos sociais e por isso tiveram mais riscos de transmitir a doença”.

No pós-confinamento e desde então, a média de contactos sociais ficou “equiparada entre todas as nacionalidades residentes no Luxemburgo por isso, os portugueses deixaram de ter um risco acrescido”, vinca Ardashel Latsuzbaia.

Este cientista sublinha que durante o confinamento os contactos sociais no Luxemburgo foram reduzidos em 80% quando comparados com os que eram tidos diariamente antes da epidemia chegar.

“Neste período de isolamento em casa as pessoas cumpriram as regras e fizeram o mínimo possível de contactos sociais, por isso a meio do mês de maio o número de novas infeções desceu quase para zero”, recorda. Já no pós-confinamento, os contactos sociais foram aumentando e a média de 3,2 por dia subiu para 7,1 por dia, mais do dobro, mas mesmo assim “inferior aos que cada pessoa tinha antes da epidemia”, salienta Latsuzbaia para quem estes resultados mostram que “as pessoas continuaram a manter as regras de prevenção”.

No desconfinamento, os residentes estavam muito cansados do isolamento e começaram a conviver mais, depois as restrições foram levantadas puderam voltar aos bares e restaurantes, depois veio o bom tempo, os dias de sol a convidar ao convívio, resultado as novas infeções foram aumentando cada vez mais”, diz este investigador, recordando que “em meados de julho deu-se a segunda vaga da epidemia”. O Governo não teve outra alternativa senão voltar a colocar restrições “e o número de infeções voltou a baixar”, lembrou.

Alerta aos jovens

Outra das conclusões da investigação é que “as pessoas mais velhas cumprem mais as medidas de prevenção do que os jovens”. A realização de festas ilegais, cujos participantes são na grande maioria jovens motivou já uma campanha de sensibilização do Governo no verão “Stop de Party”.

“Os jovens têm de perceber que agora não é tempo para fazer a festa. Têm de se proteger e proteger os outros. Quanto a epidemia acabar vamos todos fazer a festa, mas agora não podem”, insiste Ardashel Latsuzbaia.

A equipa de investigadores já realizou um novo inquérito em agosto e segundo Latsuzbaia os resultados mostram que “os contactos sociais desceram ligeiramente, cerca de 5%” o que mostra que “as pessoas continuam a ter receio e a cumprir as medidas de prevenção”.

Na última semana, os novos casos aumentaram devido sobretudo ao regresso das férias no estrangeiro, mas “continuam a ser inferiores aos da primeira fase da doença”. Este investigador alerta para a necessidade de “todos quantos voltam de férias realizarem o teste de despistagem mal cheguem ao Luxemburgo para se protegerem a si e à sociedade”, evitando assim a transmissão do novo coronavírus. 

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