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Covid-19. Paula e outros heróis improváveis da quarentena
Luxemburgo 7 min. 17.03.2020 Do nosso arquivo online

Covid-19. Paula e outros heróis improváveis da quarentena

Covid-19. Paula e outros heróis improváveis da quarentena

Foto: RJR
Luxemburgo 7 min. 17.03.2020 Do nosso arquivo online

Covid-19. Paula e outros heróis improváveis da quarentena

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
Habitualmente ignorados e mal pagos, os funcionários dos supermercados colocam-se na primeira linha do risco de contágio para que o resto dos cidadãos possa comer. Viagem ao Primavera, o decano dos mercados portugueses no Luxemburgo, para ouvir Paula, São, Xana, Nélia e Irene, heroínas do nosso tempo.

O balcão da padaria é por estes dias o bunker de Paula Gaspar, funcionária do supermercado Primavera de Gasperich há um ano e dez meses. "Permanecer aqui atrás dá-me a garantia de estar a dois metros dos clientes e evitar, na medida do possível, o contágio por Coronavírus." 

Desde que o governo anunciou o encerramento de escolas e restrições no comércio que ela redobra os cuidados. "Ando sempre de luvas, desinfeto as mãos, mantenho as distâncias. Mas estou muito assustada. E não é pelo que me possa acontecer a mim. É que, se eu e as minhas colegas adoecermos e tivermos de fechar o supermercado, como é que as pessoas vão conseguir por comida em casa?"

Paula diz-se num grupo de risco, tem um tumor benigno na hipófise que a obriga a tomar medicação e lhe enfraquece o sistema imunitário. E no entanto não lhe passa pela cabeça ir para casa nestes dias. 

"Tal como os médicos e enfermeiros têm agora uma missão a cumprir, também nós temos de pensar primeiro no bem comum e só depois em nós próprios." Faz uma analogia com os tempos de guerra, em que os cidadãos são chamados a pegar em armas. Só que o inimigo é agora invisível. E ataca sempre por emboscada.

"Os funcionários dos supermercados são pessoas a quem nunca ligámos, para quem nos habituámos até a olhar enquanto sociedade com alguma sobranceria", diz David Angel, secretário-central do setor de comércio da OGBL, a maior central sindical luxemburguesa. 

Nunca falamos dos funcionários dos supermercados. Mas, como os médicos e enfermeiros, eles também revelam enorme coragem e abnegação nestes dias de medo. São heróis e heroínas invisíveis.

David Angel, secretário-central do setor de Comércio da OGBL

"Nunca falamos deles nem lhes prestamos louvor como aos médicos e enfermeiros, mas a verdade é que eles também revelam enorme coragem e abnegação nestes dias de medo. São heróis e heroínas invisíveis."

Angel calcula existirem no Luxemburgo 15 a 20 mil trabalhadores em supermercados e mercearias, que agora são chamados a desempenhar um papel vital para a sobrevivência dos milhares que se isolam em casa.

"São sobretudo mulheres e uma boa parte delas mães solteiras", diz. "Metade vive fora do Luxemburgo e desloca-se todos os dias ao Grão-Ducado para trabalhar, agravando o risco de contágio na frequência dos transportes públicos." 

São mal pagas, em regra ganham o salário mínimo não qualificado. "E são na maior parte dos casos estrangeiras - francesas, belgas, alemãs e muitas, muitas portuguesas. A sociedade nunca as viu como essenciais. Mas agora precisamos delas para sobreviver."

"Tenham calma que não faltará comida"

Irene Silva nunca tinha visto tamanha correria. E diz que ela não é necessária: "Não faltará comida."
Irene Silva nunca tinha visto tamanha correria. E diz que ela não é necessária: "Não faltará comida."
Foto: RJR

Foi o pai de Irene Silva quem fundou o que viria a ser o Primavera em 1974 - ela e o marido, Manuel Rui Fernandes, deram-lhe o nome e fizeram-no crescer. Em 1979 abriram o primeiro espaço com 12 funcionários, hoje dão emprego a quatro dezenas de pessoas distribuídas por quatro lojas. Deste pequeno mundo pode contar-se uma história que afeta milhares de funcionários no país.

"Em 46 anos, nunca viu uma correria assim aos produtos", diz agora a proprietária. "E não há necessidade de entrar neste pânico. Estou sempre a dizer que não faltará comida nas prateleiras. Neste momento sinto que também temos um papel importante, que é ajudar a manter a calma e fazer os clientes ver que o mundo não vai acabar."

Foi na sexta feira que as coisas se tornaram mais agudas. "Venha cá ver isto", e Manuel Rui Fernandes mostra um cenário que se está a tornar habitual em toda a Europa: o corredor do papel higiénico, dos rolos de cozinha e dos guardanapos está absolutamente vazio, álcool e água oxigenada já não há, também o arroz e as massas levaram um desfalque como não há memória.

"Vamos permanecer abertos, com cuidados", assegura o patrão do Primavera. "Provavelmente terei de controlar as entradas para não ter aqui demasiada gente ao mesmo tempo e manter uma certa segurança. Mas o abastecimento de produtos não está nem vai estar em causa. Mesmo que as fronteiras fechem, nunca fecharão para os camiões de distribuição alimentar."

Manuel Rui Fernandes, proprietário do Primavera, junto ao balcão vazio do papel higiénico. "O açambarcamento não é bom para ninguém."
Manuel Rui Fernandes, proprietário do Primavera, junto ao balcão vazio do papel higiénico. "O açambarcamento não é bom para ninguém."
Foto: RJR

O açambarcamento traz lucros imediatos, mas Manuel Rui Fernandes explica que também cria problemas a quem gere os supermercados. "Torna-se muito difícil gerir os stocks e fazer encomendas equilibradas que permitam não haver desperdício alimentar. O ideal é sempre haver um consumo consciente. E é isso que temos de pedir às pessoas." Mais tarde Irene há de dizer a mesma coisa, ainda que por outras palavras: "Não nos cabe dizer às pessoas para não levarem demasiado, bem sei. Mas quando vemos esse egoísmo, caramba, as coisas mexem aqui dentro."

A gestão da humanidade

Mesmo que redobre os cuidados, São admite estar em pânico. E é por isso que pede civismo aos clientes.
Mesmo que redobre os cuidados, São admite estar em pânico. E é por isso que pede civismo aos clientes.
Foto: RJR

Conceição Serrano assume de caras: "Estou em pânico." De 15 em 15 minutos corre a lavar as mãos, as luvas nunca as tira, se alguém se aproxima demasiado para pedir informações no balcão da fruta e das hortaliças é capaz de dar um passo atrás e pedir que não se aproximem.

"Tenho 55 anos, as minhas filhas são maiores de idade mas estão preocupadas que venha para aqui todos os dias. Não é só estar aqui a conviver com tanta gente, é também apanhar o comboio e o autocarro, porque vivo em Esch."

Apesar de tudo, São, como todos aqui a conhecem, percebe a importância de cumprir o seu papel. "O que me deixa enfurecida é a falta de cuidado que vejo em certos clientes, isso é uma falta de respeito pela sociedade em geral e também por nós, que temos de estar aqui."

Nélia diz que o ofício lhe dá vista de primeira fila para o tecido social do país. A vulnerabilidade dos idosos nunca a preocupou tanto.
Nélia diz que o ofício lhe dá vista de primeira fila para o tecido social do país. A vulnerabilidade dos idosos nunca a preocupou tanto.
Foto: RJR

Aponta com o queixo para uma mãe que se passeia nos corredores com a filha, a miúda não terá mais de 6 anos. "Não se admite que as escolas fechem para as crianças ficarem em casa e depois as tragam às compras onde estão tão expostas." Não aborda diretamente as pessoas para as responsabilizar, mas às vezes comenta isso em voz alta com uma colega, de modo a ser ouvida pelos clientes.

No balcão da charcutaria, Nélia Gomes alinha pela mesma batuta. "Mexe muito comigo ver clientes idosos, que não têm ninguém, chegarem aqui e já não conseguirem comprar as coisinhas deles porque esgotaram. Então têm de ir para o mais caro, quando muitas vezes trazem o dinheiro contado." Tem 21 anos de casa e vista de primeira fila para o tecido social do país. "Sou uma otimista e acho que isto vai passar, que vamos ficar todos bem. Mas é nesta altura que o ser humano tem de decidir se mostra o seu melhor ou o seu pior. O respeito pelos outros é agora a atitude mais importante a ter." Desinfeta as mãos e volta para trás do balcão, que as chouriças não se arrumam sozinhas.

Sorrisos contra o pânico

Se perguntassem a Alexandra Dionísia Rodrigues que passados três meses de começar o trabalho ia lidar com este cenário destes ela nunca teria adivinhado. Entrou para o Primavera no passado dia 10 de dezembro e asumiu logo posto na caixa. "É onde estamos mais expostas."

Perante os dias de pânico, resta-lhe sorrir. Acalma os clientes, diz Alexandra Dionísia Rodrigues. E acalma-a a ela própria.
Perante os dias de pânico, resta-lhe sorrir. Acalma os clientes, diz Alexandra Dionísia Rodrigues. E acalma-a a ela própria.
Foto: RJR

A rapariga preocupa-se. Em casa tem a mãe, idosa, a irmã, que inspira cuidados médicos, e quatro crianças - "um bebé de quatro meses, outro de dois anos e meio, uma criança de quatro e outra de sete." Anda por isso quase obcecada com a limpeza. 

"Desinfetámos a casa de alto a baixo com vinagre, isolámos na medida do possível a minha mãe, instalámos um desinfetante à porta para ninguém entrar sem as mãos lavadas." 

Na caixa do Primavera aplica o mesmo aprumo. Usa quase sempre as luvas, desinfeta mãos e caixa à passagem de cada cliente. David Angel, da OGBL, diz que são precisamente essas as recomendações que a OGBL dá aos patrões dos supermercados. Mas Xana (ou Dionísia, como prefere ser chamada), sabe que os cuidados não são garantia absoluta nesta guerra.

"O ideal era que toda a gente pagasse com cartão e eu não tivesse de mexer em dinheiro, que é a coisa mais suja que existe", suspira. E no entanto está conformada, sabe bem que o país precisa de si, pelo menos é isso que agora sente.

Às vezes não consegue controlar-se e diz a um cliente que não precisa de levar 11 quilos de arroz, haveria de deixar algum para os outros, mas já sabe que recebe de troco resposta torta. Dá dicas aos mais velhotes onde ainda podem encontrar produtos baratos. E sorri, sorri para toda a gente. Alexandra aprendeu que os sorrisos acalmam as pessoas. E, na verdade, até a tranquilizam a ela.

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