Escolha as suas informações

Covid-19. Os emigrantes que regressam às aldeias e os velhos que os querem abraçar

  • A romaria inesperada
  • A infeção dos campos
  • Aquele abraço
  • O problema dos outros
  • A romaria inesperada 1/4
  • A infeção dos campos 2/4
  • Aquele abraço 3/4
  • O problema dos outros 4/4

Covid-19. Os emigrantes que regressam às aldeias e os velhos que os querem abraçar

Covid-19. Os emigrantes que regressam às aldeias e os velhos que os querem abraçar

Covid-19. Os emigrantes que regressam às aldeias e os velhos que os querem abraçar


por Ricardo J. RODRIGUES/ 24.03.2020

Para os pastores de Montalegre, a chegada dos emigrantes é motivo de alegria. Não hesitam em cumprimentá-los.Fotografia de Rui Oliveira

Na última semana, milhares de emigrantes regressaram às aldeias do interior de Portugal para tentarem isolar-se da pandemia. Alguns transportam o vírus para lugares de população idosa e em risco. As autoridades locais temem um desastre.

1

A romaria inesperada
Copiar o link


Emigrantes são visita comum de agosto, alguns da Páscoa, mas a romaria que o coronavírus está a provocar provoca preocupações.
Emigrantes são visita comum de agosto, alguns da Páscoa, mas a romaria que o coronavírus está a provocar provoca preocupações.
Foto: Rui Oliveira

Francisco Carvalho, 59 anos, chegou na noite de segunda-feira a Cabril, aldeia de 600 habitantes no concelho de Montalegre. Apanhou o voo das cinco da tarde do Luxemburgo para o Porto e ainda o relógio não marcava as sete quando passou os portões do Sá Carneiro para a rua. “Ninguém me mandou parar, ninguém me mediu a temperatura, não me deram indicações nenhumas”, diz.

Ficou um bocado chateado quando viu que os autocarros para Braga tinham sido cancelados por causa do coronavírus. “Eu tenho lá um carro estacionado na garagem de uns primos. Desta vez tive de meter-me num táxi, depois apanhei as chaves e, olhe, fiz-me ao caminho.” Pouco passava das nove quando chegou à aldeia.

De há uns anos para cá as viagens entre a aldeia transmontana e o leste do Luxemburgo são frequentes. “Tenho um café em Echternach mas também tenho aqui os porcos. Por isso eu e a minha mulher vamo-nos revezando a tomar conta das coisas.”

Quando na semana passada o governo do Grão Ducado encerrou os estabelecimentos comerciais para tentar travar o contágio por coronavírus, percebeu que tinha de fazer-se rapidamente ao caminho. “Eu até queria trazer a minha mulher, mas o meu filho mais novo quis ficar porque não tem aqui amigos e ela, que é mãe galinha, ia lá deixá-lo.” Então veio ele.

Paredes do Rio, uma das 135 aldeias de Montalegre, onde mais de metade da populaçõ tem mais de 65 anos.
Foto: Rui Oliveira

Na última semana, mesmo com o estado de emergência decretado e a vigilância das fronteiras reforçada, milhares de emigrantes portugueses no centro da Europa viajaram para as aldeias do interior de Portugal. “As pessoas vêm tentar fugir à pandemia sem se aperceberem que estão a criar um barril de pólvora”, diz de caras o presidente da câmara municipal de Bragança, Hernâni Dias. O autarca asseguira que, só no seu concelho, há várias centenas de regressos registados na última semana. “São milhares em todo o interior do país, que é simultaneamente a zona com a população mais envelhecida e com menos acesso a cuidados hospitalares.”


Covid-19. Emigrantes e luso-descendentes devem "evitar viagens a Portugal"
Associação lança apelo para quem mora no estrangeiro se puder adiar viagem ao país natal como prevenção de contaminação do novo coronavírus.

Os números não são rigorosos por não estar a ser feito controlo de entradas no país. Mas, diz Hernâni Dias, se há algo a apontar-lhes, é que pecam por escassos. “Temos a GNR a ir às aldeias avisar estes emigrantes que têm de permanecer em quarentena 14 dias, como manda a lei, mas muitos mentem descaradamente e respondem que chegaram há um mês ou dois.”

Os contactos sociais mantêm-se na maior parte dos casos, com festas em casa, abraços na rua, passeios constantes e indiferentes aos tempos. Gustavo Martins Coelho, médico de saúde pública da região do Alto Tâmega e Barroso, tem opinião bem formada sobre o assunto: “Isto não é só inaceitável, isto é criminoso.”

2

A infeção dos campos
Copiar o link


Uma pastora na aldeia da Borralha, em Montalegre.
Uma pastora na aldeia da Borralha, em Montalegre.
Foto: Rui Oliveira

Dos três casos confirmados de coronavírus em Chaves, dois são de emigrantes que regressaram esta semana do Reino Unido. “Desde o início tivemos 39 suspeitos e este regresso dos que vivem fora às aldeias deixam-nos preocupados com a evolução nas próximas semanas”, diz o médico Martins Coelho. “Não contabilizamos o local de origem dos pacientes, mas a lei é bem clara: quem chega de fora tem de passar duas semanas em isolamento total e a partir daí sujeita-se à obrigação de recolhimento a que estão agora sujeitos todos os cidadãos portugueses. Mas pensar em vir de outro país, ou até da cidade, para as aldeias é simplesmente colocar os outros em risco.”

“Há uns dias um emigrante deu positivo numa aldeia de Macedo de Cavaleiros e agora estamos a ver como basta uma pessoa para tudo isto galgar”, diz Hernâni Dias. O homem de 66 anos veio de França para Lagoa, onde contactou com mais de 20 pessoas que foram agora isoladas. No sábado foi confirmado o segundo caso, e este é um homem de 83 anos que está em estado crítico nos cuidados intensivos. Neste momento debate-se fazer à pequena povoação de Lagoa o mesmo que a Ovar – um cerco.

  Não venham. Por favor não venham. Podem provocar uma matança aqui. 

Hernâni Dias, presidente da câmara municipal de Bragança.

Os cuidados hospitalares no interior são, para além do mais, vulneráveis. Ainda em fevereiro deste ano, o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, alertava em entrevista à agência Lusa para a carência de médicos fora dos grandes centros urbanos e alertava que “por exemplo em Bragança, nos próximos três anos, 40% dos médicos de família entrarão na reforma.”

Em janeiro do ano passado, o diretor do hospital do Nordeste, Carlos Vaz, dizia o mesmo ao Diário de Notícias: “Quando se leem as estatísticas sobre o número de equipamentos e recursos médicos disponíveis no território nacional, nunca são tomadas em conta as especificidades regionais. Se imaginarmos que a região norte tem 200 ventiladores, provavelmente 185 estão no litoral e apenas 15 no interior. Estamos numa situação muito dramática.”

É mais fácil morrer quando se é velho, e também é mais fácil morrer onde há menos gente e menos recursos. “Não me percebam mal”, diz o presidente da câmara de Bragança. “Gostamos dos nossos emigrantes e temos um enorme orgulho neles. Mas não venham. Por favor não venham. Fiquem em vossas casas. Não atravessem França e Espanha e países onde as coisas estão piores porque o risco de elas criarem uma matança aqui são muito reais.”

3

Aquele abraço
Copiar o link

 

Um voluntário cumprimenta um idoso num lar de terceira idade. O toque da humanidade é agora um risco.
Um voluntário cumprimenta um idoso num lar de terceira idade. O toque da humanidade é agora um risco.
Foto: Rui Oliveira

 Quando o assunto é o coronavírus, a saudade é um problema. “Estão tão isolados os nossos velhotes que quando chegam os emigrantes correm a ir cumprimentá-los”, diz David Teixeira, vice-presidente da câmara municipal de Montalegre. No concelho transmontano há 10 mil habitantes e 135 aldeias, e nestas quase dois terços da população conta mais de 65 anos. “Quando chega alguém de França, da Suíça, do Luxemburgo, corre-se a ir oferecer-lhe umas chouriças, umas batatas, é assim a tradição. E como é que se explica a esta gente que não pode ser?”


Covid-19. Paula e outros heróis improváveis da quarentena
Habitualmente ignorados e mal pagos, os funcionários dos supermercados colocam-se na primeira linha do risco de contágio para que o resto dos cidadãos possa comer. Viagem ao Primavera, o decano dos mercados portugueses no Luxemburgo, para ouvir Paula, São, Xana, Nélia e Irene, heroínas do nosso tempo.

Márcio Azevedo, presidente da junta de freguesia de Cabril, está por estes dias desesperado. “Eu bem ando a tentar convencer os velhotes a meterem-se em casa, mas a primeira coisa que eles querem fazer quando os abordo é apertarem-me a mão.” Recusa sempre, e às vezes os seus interlocutores ficam ofendidos.

“As pessoas sentem que o perigo vem de fora, só os desconhecidos lhes podem trazer problemas”, diz Márcio. Nesse rosário não entram os emigrantes. São filhos da terra. São deles. Como é que seriam capazes de não lhes dar um abraço se, nas mais das vezes, não os viam desde agosto passado?

Os cuidados de saúde são mais frágeis no interior do país. Tal como os seus habitantes.
Foto: Rui Oliveira

Se Francisco Carvalho, o homem de Ettelbruck que viajou na segunda à noite, decidiu isolar-se em casa e cumprir à risca a quarentena, António Carneiro, 55, pensa um poucodiferente. Chegou no dia 17 a Lisboa, vindo de avião do Luxemburgo com a mulher. Dormiu uma noite na capital e fez-se à estrada a 18, atravessando um país em silêncio.


Covid-19. Os domingos tranquilos que o padre Sérgio nunca tinha tido
Quando um fiel lhe ligou esta semana a pedir que o ouvisse urgentemente em confissão, o sacerdote da Missão Católica Portuguesa no Luxemburgo não teve outro remédio senão responder: "Tenha paciência."

Porque é que vieram? “Moramos numa aldeia de Wiltz, lá também é sossegado, mas em Cabril tínhamos melhor tempo e mais com que nos distrair.” Diz que não quer falar com ninguém. “Estou de quarentena, estou. Só saio para ir ver os terrenos e ir buscar pão de manhã.” Carneiro ainda tentou ir visitar a ascendência ao lar, mas não o deixaram entrar. “Acenei ao meu pai ao longe. A minha mãe nem a vi, está numa cadeira de rodas e não pôde vir cá fora. Talvez não tenha medido bem as coisas. É uma chatice.”

4

O problema dos outros
Copiar o link


O regresso dos emigrantes é a alegria dos que se sentem esquecidos nas aldeias do interior de Portugal.
O regresso dos emigrantes é a alegria dos que se sentem esquecidos nas aldeias do interior de Portugal.
Foto: Rui Oliveira

No sábado passado, 60 velhotes apareceram no terreiro da feira de Trancoso. O mercado centenário, que costuma convocar semanalmente quatro a cinco mil almas, tinha sido anulado por tempo indeterminado, mas isso não impediu uma percentagem da terceira idade de cumprir o ritual de décadas. “Ficaram ali a manhã toda em amena cavaqueira, como era habitual. As pessoas estão longe de perceber que este é um problema sério”, diz Pedro Fidalgo, técnico florestal da autarquia.

Fidalgo é um tipo importante para esta história porque o seu trabalho é percorrer as aldeias do concelho a falar com os velhotes sobre os seus castanheiros. Só que, na conversa dos soutos, também se fala dos medos. “O que mais me surpreende é que eles não sentem nenhum. Nada.”

Tentou explicar várias vezes que vinha aí um vírus, que haviam todos de se resguardar, mas a maioria continua nas ruas como sempre fez. “Eles sabem o que se passa pelo que veem na televisão. Mas como as reportagens são sempre em Lisboa ou no Porto não há modo de convencê-los que o problema também é deles. Sentem que é uma coisa das cidades.” Se o resto do mundo se esqueceu deles, pensam, o vírus também o há de fazer.

O poder local tenta dar a volta ao texto. Em Montalegre há em cada freguesia redes de informação e apoio a quem está em isolamento. Em Bragança, a câmara fez circular um carro com altifalantes pelas aldeias a apelar aos velhotes para que fiquem em casa e aos emigrantes para que cumpram a quarentena. Mas, ao cair da tarde, continuam os velhos a tornar com a rés a casa. E agora está o carro do vizinho que emigrou estacionado na aldeia. E agora toca de ir dar-lhe um abraço.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba a nossa newsletter das 17h30.


Notícias relacionadas