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Covid-19. Os domingos tranquilos que o padre Sérgio nunca tinha tido
Luxemburgo 4 min. 22.03.2020

Covid-19. Os domingos tranquilos que o padre Sérgio nunca tinha tido

Covid-19. Os domingos tranquilos que o padre Sérgio nunca tinha tido

Foto: DR
Luxemburgo 4 min. 22.03.2020

Covid-19. Os domingos tranquilos que o padre Sérgio nunca tinha tido

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
Quando um fiel lhe ligou esta semana a pedir que o ouvisse urgentemente em confissão, o sacerdote da Missão Católica Portuguesa no Luxemburgo não teve outro remédio senão responder: "Tenha paciência."

"É estranho", admite Sérgio Mendes, padre da Missão Católica Portuguesa no Luxemburgo. "Aos domingos começava o dia às 5h30 e até às oito da noite não parava. Eram missas atrás de missas, dava a comunhão a mais de 1200 fiéis." Agora, e pela primeira vez em 45 anos de vida, estes são dias tranquilos, em que tem de inventar o que fazer.

O isolamento a que obriga o coronavírus está a colocar um bom par de desafios à Igreja. E fá-lo na precisa altura em que os cristãos se preparam para a sua festa maior, a Páscoa. "Estamos na quaresma que é em si um período de recolhimento. É um bocado chato ter de ficar em casa, mas também é uma boa desculpa para passar tempo de qualidade com a família", diz o sacerdote.

Por agora, as missas estão suspensas até 3 de abril. "Mas é muito provável que tenhamos de repensar celebrações muito importantes no mundo católico, como o Domingo de Ramos ou o Sábado de Aleluia. Vai ser difícil  fazer isto com a presença dos fiéis nas igrejas." E mesmo que se desse uma reviravolta no estado de contágio, o sacerdote tem consciência que rituais como o lava-pés e o beijar da cruz estão agora fora de questão.

É um bocado caricato fazer um sermão e não ter ninguém a ouvir.

Sérgio Mendes, padre

Há no entanto possibilidade de ouvir a Eucaristia. "Continuamos a transmitir a missa em português aos domingos às oito da manhã pela Rádio Latina", conta o padre Sérgio. Mas, em vez de ser em direto, a eucaristia é agora gravada. "Fazemos ao sábado à noite em Bonnevoie, para não haver riscos de vir aqui alguém querer assistir. Estou eu e o grupo coral, mais ninguém. Mas também lhe digo: é um bocado caricato fazer um sermão e não ter ninguém a ouvir."

Tem pegado no Evangelho e preparado mensagens que se adequem a estes dias. A semana passada as escrituras falavam do momento em que Jesus pediu a uma samaritana que lhe desse de beber e o padre usou a metáfora para o civismo que agora se requer - e como açambarcar produtos nos supermercados sem pensar nos demais é tudo menos uma boa ideia. E rematou assim: "Este é o tempo de dividir, pá."

"Só saio para funerais e extremas-unções"  

Há dias, um fiel ligou-lhe. "Disse-me que estava mesmo aflito, que precisava de se confessar urgentemente. E eu respondi que teria de ter paciência, não ia ouvir uma confissão por telefone e também não o posso fazer agora presencialmente." Que rezasse, avisou.

Casamentos também não celebra, "mas a verdade é que eu aqui por norma só trato dos processos, a maioria dos casais vai a Portugal casar-se." Por sorte não havia este ano noivados de primavera, os que há são para o verão e o sacerdote acredita que por essa altura já as coisas estejam resolvidas.

Batismos e comunhões é outra conversa. "Ia ter o batizado de dois adultos na missa de Páscoa e vamos lá ver agora se sempre podem acontecer." Na sexta feira, a diocese do Luxemburgo anunciou o cancelamento de todas as primeiras comunhões no país - a das crianças que falavam português estava marcada para 10 de maio. E ele fica menos preocupados com as crianças e mais com os seus avós.

"Tenho consciência que há alguns avós que saíram de Portugal nas últimas semanas para aqui. Vieram passar a quaresma e a Páscoa em família e provavelmente iam ficar até às comunhões dos mais pequenos", continua o padre. Teme por isso agora que o isolamento desses reformados se torne difícil. "E sabemos todos que são os mais velhos que correm os maiores riscos, seria mesmo importante que o fizessem."

A extrema-unção é um ritual que envolve o toque e, numa hora dessas, não me passaria pela cabeça cometer a desumanidade de evitá-lo.

Sérgio Mendes, padre

Ele próprio está por estes dias confinado às paredes de casa. Só em situações muito excecionais é que o padre Sérgio admite sair: para fazer funerais e dar extremas-unções. "Ainda não houve felizmente enterros, mas quando acontecerem terão de ser coisas muito restritas, apenas com os familiares próximos e sem toques nem apertos de mão." 

No casos dos últimos sacramentos não tem alternativa senão expor-se: "É um ritual que envolve o toque e, numa hora dessas, não me passaria pela cabeça cometer a desumanidade de evitá-lo." Tentará proteger-se na medida do possível, mas não recusará a missão.

O padre Sérgio Mendes ri-se quando se lhe diz que vieram as evidências científicas por em causa os rituais dos crentes. "É verdade, é", responde bem disposto. "Mas sabe que o mais sábio é termos o melhor dos dois mundos. Acreditar na ciência quando ela nos diz que temos de nos proteger de um inimigo invisível e na Igreja quando ela nos dá esperança de que tudo acabará por passar. Quem vê com os olhos da ciência e da fé vê mais longe."



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