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Covid-19. Isolamento leva a aumento da violência doméstica e associações procuram respostas para o combater
Luxemburgo 5 min. 24.03.2020 Do nosso arquivo online

Covid-19. Isolamento leva a aumento da violência doméstica e associações procuram respostas para o combater

Covid-19. Isolamento leva a aumento da violência doméstica e associações procuram respostas para o combater

Foto: Shutterstock
Luxemburgo 5 min. 24.03.2020 Do nosso arquivo online

Covid-19. Isolamento leva a aumento da violência doméstica e associações procuram respostas para o combater

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
Confinamento provocado pelo isolamento imposto pelos estados está a deixar em estado de alerta as organizações que trabalham casos de violência doméstica, um pouco por todo o mundo. O Luxemburgo não é exceção e já há registo de aumento destas situações.

No domingo, os idosos de um lar, em Vila Nova de Famalicão, Portugal, foram transferidos para o Hospital Militar no Porto, depois de 18 funcionários terem sido testados positivos ao novo coronavírus ou ficado em quarentena. Uma medida de precaução para proteger essa população frágil. Poucas horas depois, a mesma localidade acordou com o homicídio de uma mulher de 36 anos, asfixiada até à morte pelo marido. 

As vítimas de violência doméstica - efetivas e potenciais - também estão sinalizadas como vulneráveis nestes tempos de combate à Covid-19, em que as quarentenas e a imposição de isolamento das famílias em casa faz disparar os riscos de um aumento de casos e dos crimes associados. Só que ao contrário da doença, nesta matéria não há testes suficientes que sinalizem agressores e agredidos. Em todo o mundo, diferentes organismos alertam para que a situação não seja esquecida e não se converta numa pandemia dentro da pandemia. O Luxemburgo não é exceção e as associações já começaram a abordar esta questão de forma direta. 

A CID Femmes et GENRE contactou a organização Femmes en Détresse e o Ministério da Igualdade "para saber se há medidas específicas planeadas para prevenir o crescimento da violência doméstica", nesta fase, adiantou ao Contacto, Isabelle Schmoetten, uma das responsáveis da organização. 

Na segunda-feira, a Femme en Détresse publicou no seu site oficial uma mensagem garantindo que os seus serviços e linhas de apoio permanecem operacionais na ajuda às vítimas de violência doméstica, neste período de crise e que foi disponibilizado um endereço de email (organisation@fed.lu) para que as pessoas expostas a este tipo de violência possam enviar uma mensagem em caso de perigo, o que, numa situação de isolamento em casa, é mais fácil de realizar do que um telefonema. 

Reconhecendo que "a contenção implementada pelo governo para combater a propagação do vírus Covid-19 pode levar a um aumento real do número de mulheres expostas à violência doméstica", a Femmes en Détresse assinala que entre a angústia da proximidade perigosa, o medo de denunciar e as dúvidas sobre a capacidade de intervenção rápida das forças policiais, "as vítimas preocupam-se que a casa da família não seja um lugar seguro para todos". Mas a organização lembra que a ordem de confinamento nacional "não proíbe as pessoas de fugirem da casa diante da violência continuada ou de perigo de vida" e garante que os seus abrigos permanecem abertos. 

Questionado pelo Contacto sobre que ações concretas poderia adotar para prevenir estas situações, o Ministério da Igualdade respondeu que "foram discutidas medidas específicas e abrangentes com associações e organizações para manter a prevenção da violência doméstica", dando como exemplo as recomendações do Riicht Eraus, o serviço da Cruz Vermelha dirigido aos agressores, e que fornece apoio remoto através de uma linha telefónica de emergência (2755 5800). 

"Neste período de confinamento, é importante estar particularmente atento aos sinais de tensões crescentes e conflitos intra-familiares", refere o site do Riicht Eraus, que "solicita àqueles que sentem uma pressão acrescida no seio do casal ou da família a entrarem em contacto antes que ajam e se tornem violentos". Laurence Bouquet, psicólogo e chefe do organismo adiantou à RTL, entretanto, que ao fim de uma semana do confinamento decretado, "a polícia interveio cerca de dez vezes para expulsar pessoas violentas" de casa. "[É] mais do que normal e é provável que aumente", disse. 

Na conferência de imprensa desta terça-feira, a ministra Taina Bofferding reconheceu que é provável que neste período os casos de violência doméstica aumentem e afirmou que "ninguém está sozinho", recomendando que recorram ao número 45 45 45, ao site violance.lu ou à polícia. "Estamos em contacto com as autoridades competentes para analisar a evolução dos casos de violência doméstica", afirmou em resposta à questão colocada pelo Contacto, sem avançar números, para já. 

Para Isabelle Schmoetten é, contudo, preciso ir mais longe. "Deve haver um esforço nacional e coordenado para prevenir um aumento dramático da violência". Entre as medidas que defende que deviam ser implementadas está a criação de uma linha (online e telefónica) de apoio, a funcionar 24 horas, "para aconselhamento, ajuda em emergências psicológicas e apoio". 

"É também crucial informar o público sobre todas as medidas disponíveis - incluindo as relativas a abrigos e serviços de ajuda como a UMEDO", afirma, acrescentado que o site do Ministério da Igualdade, violence.lu, poderia centralizar essa informação e juntar esses contactos aos já existentes. "Encontram-se todos os números dos diferentes serviços, mas não há informação sobre como estão a funcionar durante este período do coronavírus, qual o horário a que se pode contactar e se a chamada é gratuita ou não", ilustra. 

A CID exorta ainda os governantes a disponibilizarem essa informação noutras línguas além do francês, como o alemão, o inglês, "e o português", fazer campanhas nos órgãos de informação e redes sociais e a referirem o assunto em todas as conferências de imprensa. 

Ao mesmo tempo, Isabelle Schmoetten pede que a polícia seja instruída sobre como agir face ao aumento desse risco neste período particular. "São muito preocupantes as consequências desta crise, sobretudo no que respeita às pessoas frágeis e marginalizadas", diz, sublinhando que conjunturas deste tipo "mostram novamente onde a sociedade é mais vulnerável e onde não existem proteção e solidariedade suficientes". 

Contactos úteis

- Femmes en détresse a.s.b.l.: organisation@fed.lu;   

- Hotline 45 45 45

- violence.lu 

 - VISAVI: 49 08 77 1

- SAVVD / PSYea:  26 48 18 62 (SAVVD) e 26 48 20 50 (PSYea)

- CFFM:  49 00 51 1

- Fraenhaus: 44 81 81

- Meederchershaus: 29 65 65

Para agressores:

- Riicht Eraus 27 55 58 00; riichteraus@croix-rouge.lu

  Veja mais aqui: https://fraestreik.lu/violences/  

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Taina Bofferding, ministra da Igualdade entre Mulheres e Homens.