Covid-19. Estarão os jornalistas a conseguir retratar aquilo que as pessoas precisam de saber?
Covid-19. Estarão os jornalistas a conseguir retratar aquilo que as pessoas precisam de saber?
“Deixámos de ter entrevistas, passámos a ter declarações”, diz Caroline Mart, editora-chefe adjunta do canal de televisão RTL e um dos nomes mais respeitados do jornalismo luxemburguês. Tal como muitos repórteres que continuam a trabalhar no terreno, diz-se frustrada com a maneira como a informação está a ser gerida. “Não há verdadeiramente perguntas e respostas, há declarações de porta-vozes que os jornalistas limitam-se a reproduzir. Estamos limitados ao papel de recetores e divulgadores do que nos é dito. Percebo que o Governo tenha querido chamar a si a informação que presta para evitar erros e notícias falsas, mas temo que esta tendência, que já vinha de trás e era muito notória nas redes sociais, se prolongue além do estado de emergência.”
Não é a única a pensar assim. Desde que o governo luxemburguês declarou o estado de emergência, a 18 de março, que muitos jornalistas se confrontam com uma pergunta: consegue a imprensa informar os leitores daquilo que eles precisam de saber? A chegada do coronavírus parece estar a trazer um dilema às democracias modernas, e o Luxemburgo não é exceção. De um lado está o governo, que chamou a si a responsabilidade de oferecer informação rigorosa para evitar o pânico. E depois há os repórteres, que cada vez mais se queixam dos perigos que os filtros das instituições podem constituir.
As últimas semanas tornaram a divergência óbvia, com a publicação de várias colunas de opinião que apelam a uma maior autonomia da imprensa. Na RTL, o repórter Pierre Jans escreveu uma crónica com o título “Loosst se schwätzen!” (“Deixem-nos falar!”), onde conta que, tal como muitos outros colegas, não consegue agora fazer o seu trabalho. O jornalista dá o exemplo de uma reportagem que tentou fazer em Ettelbruck, numa das recém-inauguradas casas de cuidados de saúde avançados – e de como falar com os funcionários e saber das suas condições se revelou uma tarefa impossível.
Na rádio 100komma7, o editor-chefe Jean-Claude Franck também levantou questões com a crónica “D'Disponibilitéit vun offiziellen Zuelen” (“A disponibilidade dos números oficiais”) na semana passada, lamentando que os dados que o governo fornecia eram escassos, sobretudo porque não mostravam o número de doentes hospitalizados. A sua mensagem há de ter chegado ao Governo, que entretanto reforçou as estatísticas que oferece aos jornalistas.
Marcas do passado
Que esta pandemia pode colocar a própria liberdade de expressão em risco, Roland Arens não tem dúvidas. O redator-chefe do Luxemburger Wort dá imediatamente o exemplo da Hungria, onde “ameaçar os media com penas pesadas sob o pretexto de travar a disseminação de notícias falsas é um ‘no-go’ absoluto.” Diz que, no Luxemburgo, os direitos fundamentais não estão em causa. Mas também diz que “a observação pessoal pelo repórter e o discurso face a face são instrumentos importantes do nosso trabalho. A canalização da informação pelas instâncias governamentais pode ser compreensível no início de uma crise, mas tem de ser reavaliada constantemente.”
Jean-Lou Siweck, editor -chefe do Tageblatt, diz que o seu jornal não sente propriamente restrições à liberdade de informação, antes restrições em lá chegar. “Estamos num permanente conflito entre o que o público quer saber e a informação que temos disponível.” Não é só o Governo a impor restrições, diz, há um efeito de contágio que se propaga a todas as fontes. “Neste momento as pessoas estão a lidar com situações de urgência e responder aos jornalistas é tudo menos uma prioridade. As pessoas estão mais nervosas para falar com a imprensa.
Douwe Miedema, editor-chefe do anglófono Luxembourg Times, acredita que essa é uma condição antiga que se agudizou com a crise do coronavírus. “Como o nosso jornal está mais vocacionado para a área financeira não sentimos os problemas que outros enfrentam agora, como aceder aos hospitais ou a fontes variadas de informação. Mas é preciso dizer que a realidade mostrou-nos diversas vezes que o Luxemburgo não é um país onde a transparência seja prática normal. As respostas são habitualmente lentas, às vezes nunca chegam. Agora as coisas estão piores.”
Arens, do Luxemburger Wort, alinha pelo mesmo discurso: o acesso à informação já era assunto antes desta crise. “As administrações públicas vêm tentando há algum tempo centralizar a comunicação dos seus departamentos para manterem a consistência. Uma das principais desvantagens para a imprensa é que a investigação jornalística se tornou mais difícil, quando a urgência é precisamente ter um acesso mais fácil aos decisores e especialistas nos departamentos do governo.” O coronavírus parece ter vindo agravar ainda mais o que já era difícil.
Sem jornalismo não há democracia
“Este é precisamente o momento em que o jornalismo é mais necessário aos cidadãos”, diz Luc Caregari, jornalista do semanário Woxx, vice-presidente da associação luxemburguesa de jornalistas profissionais e único membro do país do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação, que destapou casos como os Panama Papers ou o LuandaLeaks. “No entanto, aquilo que estamos a verificar é uma dificuldade cada vez maior no acesso livre à informação. Institucionalizou-me um sistema em que os decisores não sentem a obrigação de responder aos jornalistas e é urgente que se desenvolvam políticas que os obriguem. Sem jornalismo não há democracia.”
Laurent Schmit, jornalista do Reporter.lu, um site de investigação independente e financiado por subscrições e crowdfunding, diz que “o que está agora em causa é o próprio debate democrático.” Dá este exemplo: quando há um investigador que veicula com autorização governamental uma informação, os jornalistas dificilmente têm permissão para falar com alguém que lhes dê uma segunda opinião.
“Estamos num momento em que temos mesmo de conseguir trabalhar”, diz Schmit. “Eu faço mais a área da economia e sei que se está a gastar muito dinheiro dos contribuintes nesta crise. Como jornalistas temos de ter a oportunidade de conseguir perceber que interesses e atores estão aqui em jogo, sem filtros desses mesmos atores. Percebo que o Governo tenha medo de uma saída descontrolada da informação, mas temos um código deontológico que nos obriga a fazer o nosso trabalho de forma responsável. Neste momento, somos mais necessários do que nunca.”
Conselho de imprensa preocupado
Inès Kurschat admite que está preocupada e que os tempos de pandemia podem ser perigosos para a liberdade de informação. A jornalista do d'letzebuerger Land é também presidente do Conselho de Imprensa, o organismo que regula o acesso à profissão e que é interlocutor do Governo nas questões relacionadas com os media. “Esta crise é muito desafiante, até porque ninguém estava à espera dela. Nem sequer o Governo, que tenta controlar de alguma forma a informação enquanto percebe quais os passos que tem de tomar. Acho que é compreensível. Mas aos jornalistas também cabe a missão de escrutinar essa informação controlada, de cumprir o seu papel de cão de guarda da democracia. E, para isso, é preciso garantir acesso e autonomia aos repórteres.”
Na semana passada, o Conselho de Imprensa reuniu aliás com o Governo para debater quatro pontos que Kurschat vê agora como fundamentais. Primeiro exigiu maior rigor nas estatísticas, algo de que jornalistas como Jean-Claude Franck se queixavam. “As coisas melhoraram, mas ainda falta termos números diários das pessoas que estão curadas, por exemplo.”
Houve outros três assuntos em cima da mesa: a centralização da informação (e a necessidade de os media poderem falar com porta-vozes regionais sem passar pelo Governo), maiores possibilidade de captação de imagens e o acesso a infraestruturas como hospitais, para que se possa reportar o que acontece na linha da frente do combate ao coronavírus. “Temos sempre de respeitar medidas de proteção, não podemos atrapalhar quem está a trabalhar e devemos respeitar a privacidade dos pacientes, mas também temos de dar voz aos que queiram falar.”
O problema do acesso aos hospitais e infraestruturas de saúde não é um exclusivo luxemburguês. Na semana passada o diário norte-americano Washington Post publicava o artigo “Americans want to see what is happening in hospitals now. But it’s hard for journalists to get inside” (“Os americanos querem ver o que está a acontecer agora nos hospitais. Mas é difícil aos jornalistas entrar.”), onde se apontava que muita gente não acredita no real impacto do coronavírus porque simplesmente não vê o campo onde ele está a ser combatido.
Luc Caregari não percebe por que no Luxemburgo é tão difícil entrar nas instituições de saúde. “É claro que temos de respeitar as medidas de proteção e a privacidade dos pacientes, mas vemos que em Itália, Espanha, França ou Portugal os jornalistas estão a conseguir reportar o que se passa na linha da frente e isso é algo que sempre foi assegurado, mesmo nas guerras mundiais.” Roland Arens, do Wort, diz que “os jornalistas poderem observar por si mesmos e pedirem explicações aos responsáveis são elementos cruciais nos meios de comunicação internacionais que todos consultamos. No Luxemburgo isso acontece muito menos e é lamentável. Entre as conferências de imprensa à distância e as visitas organizadas, precisamos do olhar original, independente e pessoal dos repórteres, dos fotógrafos e dos videógrafos.”
O que diz o Governo
“O Governo tem a responsabilidade de proteger a população”, responde a tudo isto Liz Thielen, assessora de imprensa do primeiro-ministro Xavier Bettel. Explica que os hospitais e as infraestruturas que recebem doentes são lugares de grande vulnerabilidade, onde mesmo as visitas de familiares foram restritas. “Mas há exceções e nenhum documento legal impede a entrada de jornalistas, desde que autorizados pelos diretores dos hospitais.” Como a maioria dos estabelecimentos de saúde são privados, o Governo desvia a responsabilidade. “Não é decisão do governo permitir a entrada da imprensa. Nas nossas estruturas organizámos e continuamos a organizar visitas quando e onde for possível.”
Em relação ao livre acesso a fontes, nomeadamente médicos, enfermeiros e investigadores, o discurso é o mesmo: como a maioria das instituições onde estas pessoas trabalham são privadas e têm regras internas que as impedem de falar, não é papel do Governo dizer-lhes se podem ou devem fazê-lo. “No setor público há pontos de contacto para a imprensa em todos os ministérios. Estão ali para facilitar o contacto entre os jornalistas e os especialistas.”
Liz Thielen diz que o Governo acredita que os jornalistas devem ter o maior acesso possível à informação e que está em contacto com o Conselho de Imprensa para discutir as preocupações que se levantem. O Executivo diz estar a facilitar contactos, os repórteres lamentam só conseguir falar com as pessoas que lhes são indicadas pelo Executivo. E isso é um problema, como dizia há dias o jornalista da RTL François Aulner. E depois atirou esta pergunta: “Se não conseguimos fazer o nosso trabalho como é que podemos ter a certeza que não nos estão a mentir?”
Correção: Onde se lia "Não é nosso papel pressionar ou mediar", frase atribuída a Liz Theilen, deve ler-se "Não é decisão do governo permitir a entrada da imprensa", a frase que proferiu.
Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.
