Covid-19. Artistas luxemburgueses tentam sobreviver com a internet e apoios públicos
Covid-19. Artistas luxemburgueses tentam sobreviver com a internet e apoios públicos
A quase totalidade dos espetáculos artísticos do último mês e dos seguintes ficaram sem efeito e à espera de um futuro incerto, e locais que marcavam o calendário, como a Rockhal, passaram a ser o palco de testes de despistagem.
A reação antecipada da cultura produziu efeitos na contenção do contágio do novo coronavírus, mas o reverso da medalha acabou por ser também a chegada mais cedo de uma quarentena sem fim à vista, num setor já tradicionalmente precário, que vive de públicos, bilheteira e alguns subsídios.
Sem sustento ou apoios, muitos tentam sobreviver tentando os palcos virtuais, para que a covid-19 não os vote à fome e ao esquecimento.
Na Patreon, plataforma na internet criada nos Estados Unidos da América, mas de alcance global, vários artistas luxemburgueses tentam encontrar uma maneira de ultrapassar estes tempos de isolamento sem abdicar da sua arte, apresentando o seu trabalho e conteúdos exclusivos a troco de uma mensalidade.
A plataforma “fornece ferramentas empresariais para os criadores gerirem um serviço de conteúdos por assinatura e permite aos criadores e artistas ganharem uma renda mensal, fornecendo recompensas e benefícios exclusivos aos seus subscritores, ou “patronos”, explica ao Contacto Elvis Duarte, manager e co-fundador da Foqus. Criada em 2019, a agência atua nas áreas da cultura, entretenimento e moda e oferece serviços que vão da produção de vídeo e música à fotografia, passando pelo desenvolvimento de conceitos e plano de marketing.
Trabalha com mais de uma dezena de artistas, entre músicos e DJs, nove de forma “regular e continua”, e onde se incluem nomes como Alfalfa, CHAiLD, Iceleak, EDSUN, Maz, Them Lights e Twin XXA.
Oito dos artistas agenciados pela Foqus já têm conta na Patreon, onde o público os pode apoiar diretamente. Além de se acompanhar trabalhos que o artista vai fazendo, por valores simbólicos que vão dos três até aos 12 euros, por mês, e com produtos diferenciados, “os artistas podem “premiar” os fãs com conteúdos-extra, como imagens de bastidores ou sessões exclusivas de audição de músicas inéditas”, ilustra Elvis Duarte.
Durante esta pandemia de covid-19, acredita que a plataforma pode ser uma oportunidade de “compensar a falta de espectáculos ao vivo, com rendimentos regulares por mês”, numa altura em que 2020 está praticamente dado como perdido para atuações ao vivo reais. “O verão é normalmente a época alta para os nossos artistas e provavelmente desaparecerá este ano. A música pode ser feita em qualquer lugar, mas para garantir uma certa qualidade, um certo padrão, tem custos, para um estúdio de música, mistura, gravação, masterização, produções de vídeo, marketing, etc. Estes custos são normalmente cobertos em grande parte por concertos.”
Antes da crise sanitária os artistas da Foqus tinham agendados vários concertos ou workshops, apresentações em festivais por toda a Europa, espectáculos em diferentes cidades e, claro, no Luxemburgo. “Alguns foram adiados, mas muitas coisas ainda são muito pouco claras e incertas”, diz o manager.
O Ministério da Cultura tem um programa de apoios para artistas profissionais independentes e trabalhadores intermitentes das áreas do espectáculo e já começou a receber pedidos de apoio de diferentes setores culturais. “Ainda decorre o processo de avaliação, por isso não é possível indicar um número concreto”, refere o ministério, em resposta ao Contacto. Mas o número de candidaturas poderá chegar perto do meio milhar. “Considerando que normalmente apoiamos mais de 90 associações sem fins lucrativos, 20 instituições, mais de 100 artistas independentes e mais de 200 trabalhadores intermitentes (do espetáculo), estimamos um aumento constante dos pedidos, se a crise se prolongar”, diz a tutela, que garante que a Commission des Subsides está preparada para responder a todos os pedidos recebidos, tendo passado a reunir uma vez por semana, quando anteriormente o fazia uma vez por mês.
Porém, estes subsídios não chegam a todos os trabalhadores e agentes culturais que precisam, lembra Elvis Duarte. “Nem todos os artistas ganham dinheiro suficiente para obterem o seu estatuto de profissional intermitente de espectáculo ou de artista profissional independente. As condições estritas para os vários programas também criam dificuldades”.
Assim, restam iniciativas que voltam a colocar os artistas nas mãos do público, ainda que através de um suporte virtual, como a Patreon. A plataforma permite que os artistas sejam pagos pelo que apresentam, à semelhança do que acontece em circunstâncias normais. E embora os valores possam ser substancialmente inferiores, não se trata de donativos, mas de um rendimento. “É como uma assintaura...Vejo-o como um serviço e não como um subsídio”.
Mas se para além dos artistas e performers a plataforma pode ser também uma pequena tábua de salvação para os que desempenham tarefas mais criativas, o mesmo não acontece, reconhece Elvis Duarte, com as valências mais técnicas e operacionais do ramo, que dificilmente encontrarão lugar aí.
“Para os produtores de música e vídeo faz sentido, para os técnicos e managers freelancer é ainda mais difícil. Na Patreon, os criativos têm uma vantagem, já o trabalho do manager e dos técnicos exigiria ter um conteúdo para entrega, algo que normalmente não produzem.”
Questionado, pelo Contacto, se poderá haver uma reavaliação dos valores e dos critérios de atribuição dos apoios, caso as medidas de emergência e o confinamento se prolonguem, o Ministério da Cultura não rejeita a possibilidade. Sem avançar detalhes, o organismo adianta que “está determinado em manter viva a cena cultural e, por conseguinte, adaptará o montante geral das ajudas e os critérios, caso a crise actual o exija.”
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