Escolha as suas informações

Covid-19. "A nossa situação é mais séria. Há o risco do país ficar sem profissionais de saúde" durante a epidemia
Luxemburgo 5 min. 21.03.2020

Covid-19. "A nossa situação é mais séria. Há o risco do país ficar sem profissionais de saúde" durante a epidemia

Covid-19. "A nossa situação é mais séria. Há o risco do país ficar sem profissionais de saúde" durante a epidemia

AFP
Luxemburgo 5 min. 21.03.2020

Covid-19. "A nossa situação é mais séria. Há o risco do país ficar sem profissionais de saúde" durante a epidemia

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
O agravamento dos casos em França pode mesmo levar à "requisição dos médicos e enfermeiros transfronteiriços", alerta Marie-Lise Lair. Alemanha e Bélgica também o podem fazer. O país está "muito vulnerável", frisa, explicando o que o governo pode e está a fazer.

Nesta guerra contra a epidemia, o primeiro-ministro luxemburguês tenta segurar os profissionais de saúde transfronteiriços que representam, segundo ele, “70% do total dos trabalhadores”, cerca de 15 mil, em 2019, deste setor no país. 

Sem eles, o sistema de saúde colapsa. "Se não tivermos mais trabalhadores fronteiriços, todo o sector hospitalar no Luxemburgo deixará de poder funcionar”, declarou o chefe do governo. Nas últimas 24 horas, registaram-se mais 186 doentes infetados e mais três mortes no Grão-Ducado, totalizando oito vítimas mortais e 670 casos confirmados de infeção. 


França. Mais de 12 mil casos e 450 mortes causadas pelo vírus
As autoridades francesas esperam o pico da doença dentro de cinco a 10 dias e admitem que a quarentena pode ser prolongada.

Do total destes profissionais que residem nos países vizinhos e atravessam diariamente a fronteira para trabalhar no Luxemburgo, 30,72% vêm de França, 15,54% a Bélgica e 9,11% da Alemanha, indica o relatório sobre o estado da saúde no país, de Marie-Lise Lair.

Grand Est pode 'roubar' médicos e enfermeiros

Neste momento, a grande preocupação são os residentes em França, na região fronteira do Grand Est, que é a mais afetada pela epidemia em França. Os hospitais pedem já reforço de pessoal, a braços com 1,169 pessoas internadas, das quais 300 em reanimação. E os doentes continuam a chegar diariamente e em maior número pois o pico da doença é esperado para daqui a 10 dias.

Foto: MSAN

Consciente da situação o primeiro-ministro já tranquilizou o país assegurando ter garantidas do presidente francês, Emmanuel Macron, de que este não iria requisitar os transfronteiriços do setor da saúde luxemburguês.

"Se não tivermos mais trabalhadores fronteiriços, todo o sector hospitalar no Luxemburgo deixará de poder funcionar, ele [Emmanuel Macron] sabe e é uma responsabilidade que tem enquanto vizinho", frisou Xavier Bettel na quarta-feira, em conferência de imprensa. "A França não vai deixar morrer o seu vizinho Luxemburgo", confia este governante.

 Marie-Lise Lair, especialista em políticas da saúde e conselheira do governo (na foto em cima ao lado do ex-ministro da saúde) não tem assim tanta certeza: “A situação em França, especialmente no Grand Est é crítica, e perante a evolução esperada da epidemia irá piorar. Espero que o governo francês respeite o pedido, mas infelizmente, não estou muito convencida. Se a situação lá ficar catastrófica, a França poderá requisitar os nossos profissionais transfronteiriços”.

De acordo com o seu estudo "Etat des lieux des professions de santé au Luxembourg", encomendado pelo Ministério da Saúde e apresentado em 2019, residem em França 8% dos médicos e 29,9% dos enfermeiros, a maioria dos transfronteiriços, que trabalham no Grão-Ducado.

Além da França, também a Alemanha e a Bélgica podem requisitar estes profissionais transfronteiriços, se precisarem.

“Temos de estar preparados. O nosso sistema de saúde é muito vulnerável e dependente dos profissionais de saúde transfronteiriços”, alerta esta especialista. E sublinha: “Não nos enganemos. Neste momento, a situação é crítica em todo o lado, mas entre nós é pior, mais severa, porque há risco de outros países fazerem requisição dos nossos profissionais”.


Covid-19. China oferece 10 milhões de máscaras e ventiladores ao Luxemburgo
Na próxima segunda-feira começa a chegar ao Grão-Ducado o material de proteção para profissionais de saúde enviado pelos chineses. Coreia do Sul oferece medicamentos.

País dependente dos vizinhos

No seu estudo entregue ao governo, em 2019 esta especialista já avisa: “Com 62% dos profissionais de saúde vindos do estrangeiro, o país já se encontra no limiar crítico, tornando-o extremamente vulnerável e dependente das e dependente das decisões políticas e económicas dos países fronteiriços” em relação a estes profissionais.

O país “tem de estar preparado e ainda tem tempo para o fazer”, avança esta especialista.

De facto, o governo já acautela todas as possibilidades para evitar a falta de pessoal nos hospitais. 

Recorrer aos médicos sem competências linguísticas

A Ministra da Saúde, Paulette Lenert, declarou que se fosse preciso poderia recorrer aos profissionais de saúde com certificado, mas que, atualmente, não podem exercer no Luxemburgo, por falta de competências linguísticas. Uma hipótese avançada no Jim Kent Show na rádio 100,7, quinta-feira à noite.

Neste momento, lembra Marie-Lise Lair os hospitais já foram reorganizados para enfrentar o número de pacientes esperados.

Enfermeiros a trabalhar "12 horas por dia"

Há hospitais que fecharam e transferiram urgências para uma só unidade hospitalar, foram canceladas todas as cirurgias e consultas programadas e não urgentes “o que libertou os médicos, enfermeiros e outros profissionais para reforçarem as equipas que irão ser mais precisas e serviços que terão um maior afluxo de doentes durante o pico da epidemia”, diz esta especialista.


Covid - 19 . Hospital temporário vai ser instalado em Strassen
O hospital terá capacidade para 200 camas.

 Além de que ainda se poderá recorrer “aos médicos e enfermeiros já reformados” ou aqueles que trabalham a tempo parcial. Ou os que estejam em casa a cuidar dos filhos.

“Neste momento já há profissionais de saúde ausentes, muitos deles a cuidar dos filhos, porque as escolas fecharam”, e esses poderão também engrossar as fileiras, encontrando-se condições para os menores.

Numa crise como esta poderá acontecer também, “os enfermeiros, médicos e outros profissionais de saúde, poderão ter de trabalhar mais horas, em turnos de 10 ou 12 horas” devido à falta de recursos humanos. vivem-se tempos muito difíceis, de uma crise sanitária, como nunca se viu na história do mundo moderno.   

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba a nossa newsletter das 17h30.


Notícias relacionadas

Receios dos transfronteiriços em tempo de pandemia
Há novas rotinas para quem mora nos países vizinhos e tem de continuar a vir trabalhar para o Luxemburgo. E fazem-se acordos especiais para não alterar o regime fiscal face às novas medidas para travar o coronavírus.
A German police officer, wearing a face mask, questions a driver at the border crossing between Austria and Germany, near the German village of Oberaudorf, as Germany imposes border controls with five countries in a virus fightback, on March 16, 2020. - Germany introduced border controls with Austria, Denmark, France, Luxembourg and Switzerland in a bid to stem the coronavirus outbreak. Only those with a valid reason for travel, like cross-border commuters and delivery drivers, are allowed through, officials said. (Photo by Christof STACHE / AFP)
Luxemburgo tem falta de enfermeiros
De acordo com Sylvain Vitali, da federação dos hospitais luxemburgueses, "com o aumento e envelhecimento da população, a necessidade de enfermeiros é maior do que há 20 anos", alertou este responsável, citado pelo l'essentiel.