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Cortar o mal pela raiz

Cortar o mal pela raiz

Foto cedida ao contacto pelo Corpo Grão-Ducal de Incêndio e Segurança (CGDIS)
Editorial Luxemburgo 2 min. 30.08.2018

Cortar o mal pela raiz

Henrique DE BURGO
Henrique DE BURGO
A sociedade atribui-nos direitos. A segurança talvez seja o mais básico desses direitos. No entanto, ela poderá não estar acessível a todos os visitantes do lago de Remerschen. Sendo a Justiça um dos barómetros da grandeza de um país, incluindo o Luxemburgo, resta saber como será tratado este caso após as audições de todas as testemunhas.

No meio da selva, se alguém se deparar com um leão esfomeado, por mais que diga “não me comas porque eu tenho direito à vida”, a natureza não poderá salvar a sua vida, porque ela não dá direitos ao ser humano. A natureza dá-nos apenas a vida e o mundo para viver. Mas ao contrário da selva, a sociedade atribui-nos direitos, sendo a segurança, talvez, o mais básico desses direitos.

É esse direito à segurança que, entretanto, é posto em causa por quem vai a um lago tomar banho. “O meu filho foi para tomar banho e não para morrer”, foi um dos desabafos que ouvi da mãe de Puto G.

Tal como todas as pessoas que não moram na autarquia de Schengen, o rapper cabo-verdiano e ’putuguê(s)’ pagou quatro euros para entrar no lago de Remershen, recinto explorado comercialmente pela comuna de Schengen. Após a morte do músico impunha-se saber que responsabilidades tem a autarquia de Schengen em casos de falta de segurança e mortes como esta. A autarquia declinou qualquer responsabilidade: “foi um acidente”, “há avisos de que os banhos são por conta e risco dos visitantes”.

Depois desta morte, do cidadão búlgaro (29 de julho) e de um jovem de 16 anos originário do Malawi (em 2015), a autarquia teima em não querer mudar a situação. Quantas mortes mais vão ser precisas neste lago e noutros (em Haute-Sûre foram encontrados praticamente o dobro de corpos) para que as autoridades ponham mãos à obra? Ou estão à espera de levar as mãos à cabeça?

Em Rermeschen, não basta cortar as algas a metro e meio da superfície: o mal tem de ser cortado pela raiz e o Luxemburgo tem meios, pelo menos financeiros, para eliminar essa praga exógena.

De nada vale ter um nadador-salvador (em vez dos vigilantes que só estão habilitados a salvar crianças no pequeno lago com menos de um metro de profundidade e visitantes com colete na área de jogos aquáticos) se as algas não forem eliminadas. Que nadador-salvador vai mergulhar para salvar uma pessoa afogada e enredada nas algas, a três metros de profundidade? Dificilmente vai querer pôr em risco a sua própria vida, ficando igualmente preso nas algas.

Também não são os paramédicos da equipa de emergência de Schengen que vão mergulhar à procura do corpo. Só os mergulhadores da Proteção Civil, que estão no norte do país, em Lultzhausen/Haute-Sûre (a 1h10 de carro) o podem fazer. Mesmo que cheguem de helicóptero poderá ser tarde para salvar uma vida.

Porque é que não há uma equipa de mergulhadores nessa região do rio Mosela, perto do lago de Rermerschen?

A Justiça é um dos barómetros da grandeza de um país, incluindo o Luxemburgo. Cabe a ela garantir os direitos dos cidadãos. Quanto à sociedade luxemburguesa, além de meramente velar pela forma de administrar justamente os nossos direitos, pode ainda evitar mais mortes, com mudanças também nos lagos.