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Contern ia receber mil refugiados ucranianos e agora tem um centro com camas vazias

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Contern ia receber mil refugiados ucranianos e agora tem um centro com camas vazias

Contern ia receber mil refugiados ucranianos e agora tem um centro com camas vazias
Reportagem

Contern ia receber mil refugiados ucranianos e agora tem um centro com camas vazias


por Tiago RODRIGUES/ 06.04.2022

Foto: Chris Karaba

A comuna de Contern estava a preparar-se para acolher mil refugiados ucranianos num armazém na zona industrial. Depois de um mês a transformar o espaço num abrigo, com camas, casas de banho e cozinha, o Governo decidiu adiar a abertura por alegados problemas de segurança. A burgomestre critica a decisão e diz que nem sequer foi consultada.

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Um desafio adiado
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Foto: Chris Karaba

Durante o último mês, a comuna de Contern esteve a preparar-se para receber mil refugiados ucranianos num novo centro de acolhimento construído dentro de um antigo armazém numa zona industrial. Era um enorme desafio para uma vila com apenas 1700 habitantes. Um desafio que fica por enquanto adiado, uma vez que o Governo anunciou, na segunda-feira, que o espaço afinal não irá abrir nos próximos meses devido a problemas de segurança.

A burgomestre Marion Zovilé-Braquet, que soube da decisão através das notícias, afirma estar "muito chateada". "Não recebi qualquer contacto por parte do Governo. Falam em problemas de segurança, mas tive todo o cuidado para preparar as saídas de emergência naquele espaço. Agora dizem que não deve abrir até ao fim do ano, mas não sei se posso acreditar nisso", criticou. A estrutura será substituída por uma tenda em Kirchberg que deve estar pronta até ao final desta semana, embora com apenas 500 camas, metade das que já estão montadas em Contern.

Em resposta ao Contacto, fonte do Ministério dos Negócios Estrangeiros revelou que a abertura do centro em Contern "levará mais tempo do que o esperado, porque é necessário um trabalho adicional para assegurar que todas as medidas de segurança possam ser respeitadas e que as pessoas possam ser recebidas com dignidade". Sobre o que irá acontecer aos refugiados que iriam supostamente ser transferidos para aquele espaço, tendo em conta que a nova estrutura em Kirchberg tem apenas metade da capacidade, o Governo não remeteu qualquer esclarecimento.

Já não é a primeira vez que a autarca se vê surpreendida por uma decisão do Governo e pela falta de colaboração com a comuna. Há cerca de um mês, foi contactada pelo Gabinete Nacional de Acolhimento (ONA, na sigla em francês), que a informou que iriam abrir um novo centro de acolhimento em Contern, num grande armazém que o Governo alugou a uma empresa privada, na zona industrial de Weiergewan. "Foi uma grande surpresa. Recebi uma chamada e disseram-me que iam preparar tudo e que a comuna não tinha de fazer nada", recordou.

Foto: Chris Karaba

No entanto, aponta a burgomestre, a comuna "não podia ficar de fora", porque tinha de encontrar forma de integrar mais mil pessoas, um número que representa mais de metade da população da vila e um quarto da população total de Contern, com cerca de quatro mil habitantes. 

Além disso, cerca de 140 refugiados já foram acolhidos no Centro Cultural de Moutfort, que tem 200 camas, e há "muitos outros em casas de famílias de acolhimento", lembra Marion, reconhecendo que é "muito difícil" saber ao certo quantos dos mais de quatro mil ucranianos que chegaram ao Luxemburgo estão a viver na comuna.

Quando vi o centro fiquei um pouco chocada. Não havia nada. Era um pavilhão vazio, sem aquecimento, sem casas de banho, sem portas ou janelas.

Marion Zovilé-Braquet, burgomestre da comuna de Contern

O objetivo da criação do novo abrigo era possibilitar o alojamento dessas pessoas, libertando o espaço cedido pelo município, e aumentar a capacidade de acolhimento do Grão-Ducado. Mais de 1800 refugiados foram alojados nas 17 estruturas do ONA espalhadas pelo país, quer em hotéis, parques de campismo, centros culturais ou em abrigos como o SHUK e a LuxExpo, em Kirchberg, que oferecem um total de quase 2200 camas. Outros milhares de ucranianos estão em casas particulares. Até ao momento, o Luxemburgo recebeu mais de quatro mil pedidos de proteção temporária e já aceitou 1040.

Apesar da grande capacidade do novo espaço, a autarca reconhece que este não oferece as melhores condições. "Quando vi o centro fiquei um pouco chocada. Não havia nada. Era um pavilhão vazio, sem aquecimento, sem casas de banho, sem portas ou janelas. Tem 20 camas em cada quarto, que nem sequer é um quarto, porque não é fechado, só tem divisões e beliches. E tiveram de instalar o aquecimento, porque é muito frio", descreveu.

O edifício tem três pisos, cada um com 3000 metros quadrados. O rés-do-chão tem as casas de banho e chuveiros portáteis, assim como as máquinas de lavar. Nos andares de cima ficam as camas, 500 em cada piso, mais a cozinha. Mas uma das preocupações da burgomestre era o facto de o armazém estar muito isolado. "Não há nada à volta. Não sei o que é que mil pessoas iam fazer ali, fora da vila, na zona industrial".

À volta do armazém existe apenas um parque e um espaço reservado para os animais. Dali até à vila são cerca de 15 minutos a pé e também há autocarros. O maior dos desafios seria, porém, a integração das crianças. "Elas teriam de ir para a escola, não podiam ficar ali sem fazer nada. Mas as nossas escolas não são grandes o suficiente. Vamos começar no próximo ano a fazer escolas e creches maiores, mas isso vai demorar dois ou três anos", estimou, lembrando que metade dos refugiados são menores.

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Recuperar os espaços cedidos
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Foto: Chris Karaba

Nas últimas semanas, não houve praticamente um dia em que Marion não tenha visitado o antigo pavilhão desportivo de Contern. A burgomestre faz questão de deixar o seu gabinete, que fica praticamente lá ao lado, para passar uma ou duas horas naquele espaço, transformado num centro de entrega e recolha de bens essenciais para refugiados ucranianos. "Fico contente por poder ajudar um pouco", afirmou, durante uma dessas visitas.

A comuna de Contern disponibilizou dois espaços municipais: aquele pavilhão e o Centro Cultural de Moutfort, para alojamento temporário. O abrigo está a ser gerido pela Cruz Vermelha e os 140 ucranianos que lá estão iriam ser transferidos para o novo centro na zona industrial. "Não sei o que lhes vai acontecer. Para onde é que eles vão agora? Precisamos de recuperar aquele espaço, não amanhã, mas o mais depressa possível", assumiu a burgomestre. "Também não sei o que vamos fazer com o pavilhão. Supostamente ficaria aberto porque iriam chegar mais mil pessoas, mas agora não sei se vamos fechá-lo ou não. É tudo muito estranho".

Para ceder aqueles dois espaços, a comuna teve de tirar as associações e clubes desportivos e de ginástica que costumavam treinar no pavilhão e mudar os concertos do centro cultural. "Tive de pedir para saírem, quando estes espaços estavam constantemente a ser usados. Ninguém estava preparado. Mas estou muito contente, porque as nossas associações compreenderam e colaboraram, mesmo sem eu lhes saber dizer durante quanto tempo não os poderiam usar", reconheceu Marion.

O pavilhão desportivo de Contern é o único espaço aberto aos ucranianos todos dias, de segunda a sexta-feira. Começou por funcionar entre as 8h e as 18h, mas agora abre mais tarde, às 10h, fechando à mesma hora. Para aceder, as pessoas só têm de mostrar o seu passaporte ou o número de identificação a um segurança na entrada.

Naquele espaço há um pouco "de tudo", afirma a autarca. "Temos roupas, camas para bebés, tudo o que é para crianças, carrinhos, brinquedos… cobertores e toalhas, que esgotam todos os dias. Também temos comida, incluindo para bebés, e muitas coisas de higiene, que é muito importante". A única coisa que não existe no pavilhão são medicamentos. "Porque não somos médicos e não é nossa responsabilidade. Se alguém trouxer medicamentos, nós entregamos à Cruz Vermelha", explicou Marion.

Centenas de refugiados passam por aquele pavilhão todos os dias. Não existe um "limite" de coisas que podem levar, mas é preciso algum controlo para evitar casos suspeitos. "Se virmos pessoas a pegar em tudo sem olhar ou ver os tamanhos, por exemplo, dizemos para pararem. Tivemos casos de pessoas que vieram cá, encheram o carro e foram embora. É por isso que temos um segurança, para estar atento a esses casos. O que está aqui é para toda a gente, mas não queremos que venham cá buscar coisas para depois vender às pessoas ucranianas", lamentou a burgomestre.

Para ajudar a gerir o espaço, juntaram-se "cerca de 70 ou 80" voluntários, em grande parte residentes de Contern, mas também refugiados da Ucrânia. "E também temos pessoas que vivem noutras comunas e que vêm para cá ajudar", contou Marion, lembrando que aqueles que querem voluntariar-se podem enviar o seu contacto para a comuna. "Amigos e pessoas que conheço voluntariaram-se para ajudar também. Temos informação no nosso Facebook sobre como as pessoas se podem voluntariar. Atualizamos quase todos os dias a página, para informar sobre que coisas é que são necessárias ou mais urgentes, porque temos muita coisa".

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Voluntários para traduzir
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Foto: Chris Karaba

Entre os voluntários, estão também membros da LUkraine, a organização que representa a comunidade ucraniana no Luxemburgo. "Tenho tido pessoalmente contacto com a LUkraine desde o primeiro dia. Ofereci-lhes apoio e todos os dias uma ou duas pessoas vêm cá para fazer traduções, porque não conseguimos entender o que as pessoas precisam", explicou a autarca. Uma dessas pessoas é Alla Hordieieva, 27 anos, ucraniana que vive em Moutfort, na comuna de Contern.

A jovem é da região de Rivne, na Ucrânia, mas chegou ao Luxemburgo antes do início da guerra, em janeiro, para visitar uma família com quem tinha trabalhado como 'au pair' há dois anos. "Acabei por ficar em casa deles. Agora estou a tentar ajudar, a dar o meu melhor aqui", revelou Alla. 

A família ainda está na Ucrânia. O irmão é militar e o pai tem menos de 60 anos, então não pode sair do país. "A minha mãe não quis ir embora sem eles. Eu teria voltado no primeiro dia [da guerra], mas ela chorava e dizia para eu não ir. Quando houver possibilidade e estiver mais calmo, vou voltar, com certeza. Sou estudante, então quero voltar aos estudos". 

Alla vai ao pavilhão desportivo de Contern todos os dias, "durante algumas horas", quando tem tempo livre, porque começou a trabalhar "para ganhar algum dinheiro". Ela ajuda sobretudo com a tradução para facilitar a comunicação entre os voluntários e os ucranianos e também faz a ligação entre a LUkraine e a comuna. "Somos cerca de 20 voluntários por dia, mas vamos alternando, consoante a disponibilidade. Algumas pessoas estão aqui todos os dias", afirmou, sublinhando que está a tentar contactar outras organizações que também possam ajudar.

Foto: Chris Karaba

A voluntária garante que pelo menos 400 ucranianos passam no pavilhão durante o dia ou "talvez mais". Especialmente à hora de almoço, com grupos de 20 pessoas. "Eles podem entrar e escolher as roupas que precisam ou produtos de higiene e os voluntários ajudam. Normalmente as informações estão escritas em luxemburguês ou alemão e as pessoas não entendem. Mas elas usam o tradutor, porque poucas sabem falar inglês. É complicado encontrar pessoas para traduzir, porque aquelas que falam duas línguas já arranjaram trabalho e não podem estar aqui", reconheceu Alla.

Os voluntários têm sido incríveis. Passam dias aqui, alguns estão muito cansados. As pessoas de Contern têm sido fantásticas.

Alla Hordieieva, voluntária da organização LUkraine

Na maior parte das vezes que lhe pedem ajuda, perguntam sobre malas. "É um grande problema. Havia muitas no início, mas levaram tudo. Temos uma lista das pessoas que precisam mesmo de uma mala e elas deixam o contacto para as avisarmos quando houver mais bagagens". Também há muita procura por produtos de higiene, que "desaparecem muito rápido".

Um dos objetivos é criar um sistema para a comida, "porque as pessoas nos centros de acolhimento têm, mas as outras precisam de comprar". A comida que recebem no pavilhão "não é suficiente", então a LUkraine está a tentar abrir um novo espaço onde as pessoas possam ir buscar os alimentos "uma ou duas vezes por semana".

Pouco depois de Alla se mudar para o Luxemburgo pela primeira vez, para trabalhar como 'au pair', começou a pandemia da covid-19. Então ela não teve a "oportunidade de descobrir o país", mas sabe que as "pessoas são muito simpáticas". "Os voluntários têm sido incríveis. Passam dias aqui, alguns estão muito cansados e é complicado para eles, mas são excelentes pessoas", disse a ucraniana, que tem uma especial admiração pela burgomestre da comuna. "A Marion é incrível. Passa tanto tempo aqui, mesmo durante o fim de semana. Admiro-a muito pelo que tem feito aqui. As pessoas de Contern têm sido realmente fantásticas".

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Incerteza quanto ao futuro
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Foto: Chris Karaba

Margarita Turelyk, 35 anos, é uma entre milhares de mães ucranianas que chegaram ao Luxemburgo nas últimas semanas. Veio de Kiev, com o marido, de 36, e os três filhos, a mais velha com oito anos e dois gémeos, uma menina e um menino, de três. O companheiro não ficou na Ucrânia para combater, porque os homens que têm três filhos ou mais podem sair do país. Quando chegaram ao Grão-Ducado ficaram no SHUK, mas agora estão num hotel em Differdange, sem saberem ao certo por quanto tempo.

A família chegou ao Luxemburgo no dia 2 de março, depois de uma viagem "muito difícil". "Foi complicado ir de Kiev até à fronteira, mas quando chegamos lá conseguimos passar rápido. Depois viajamos da Hungria até ao Luxemburgo de avião, porque temos cá familiares, mas eles não nos podem ajudar a toda a hora", admitiu Margarita.

Ela e o marido já trataram de toda a documentação necessária e já têm direito a trabalhar e as crianças podem ir para a escola. "Para as mais novas é mais complicado ir para os infantários ou creches, então estamos à procura de algum sítio para elas começarem os estudos", explicou.

Naquele dia, Margarita visitava o pavilhão de Contern pela segunda vez. Apanhou um comboio e um autocarro para ali chegar, com os três filhos. Foi à procura de brinquedos para as crianças, para que se possam distrair enquanto ela e o marido, ambos químicos, procuram emprego. "É a parte mais importante das nossas vidas. Eu e o meu marido precisamos de dedicar muito tempo a preparar os nossos currículos para trabalhar e as crianças têm de brincar", notou.

Talvez um dia iremos voltar à Ucrânia, mas todos os dias vemos as notícias e não parece estar a melhorar. Não conseguimos prever o que vamos fazer nos próximos meses.

Margarita Turelyk

Por enquanto, a família quer descansar e recuperar do trauma da guerra, enquanto se adapta a uma nova vida. "Mudamo-nos recentemente para Differdange, então precisamos de nos acomodar pelo menos durante uma semana. Depois disso, vamos tentar terminar os currículos", disse a ucraniana, reconhecendo que o "Luxemburgo tem feito o seu melhor para ajudar". “É realmente incrível. Talvez um dia iremos voltar à Ucrânia, mas todos os dias vemos as notícias e não parece estar a melhorar. Não conseguimos prever o que vamos fazer nos próximos meses".

Essa incerteza em relação ao futuro é também algo que preocupa Marion, que não sabe o que irá acontecer a estas pessoas. "A maior parte dos refugiados quer voltar à Ucrânia e espero que eles consigam, mas o país está a ser destruído, então podem já nem ter casa. Se a casa deles estiver destruída, vai ser muito difícil", lamentou. "Quando falo com estas famílias, às vezes durante horas, é muito complicado. Elas ainda não entendem o que aconteceu às suas vidas. Espero que a guerra acabe um dia e elas possam voltar a casa. Mas não sei quando, ninguém sabe. Estamos todos chocados".

A burgomestre recorda que no primeiro dia em chegaram refugiados a Contern, havia uma família de 21 pessoas a viver numa casa. "Foram até ao meu gabinete para pedir ajuda. Encontramos uma casa para oito pessoas e mais três apartamentos. É horrível, sobretudo para as crianças, quando percebem que não têm os seus pais, que deixaram os seus amigos", refletiu.

O pavilhão também acaba por ser um "bom lugar para eles socializarem", porque "alguns dos refugiados conhecem-se e cumprimentam-se e as crianças brincam durante horas". Além de ter cedido dois espaços do município, a comuna também fez uns flyers e pediu aos residentes para acolher os ucranianos ou lhes cedessem uma casa ou apartamento que estivessem livres.

"Há muitas famílias que se ofereceram para ajudar", reconheceu Marion, enaltecendo a solidariedade das pessoas de Contern e do Grão-Ducado. “Até agora tem corrido bem. Não podemos parar a guerra, mas podemos fazer alguma coisa aqui no Luxemburgo, em Contern, para ajudar as pessoas que estão a deixar as suas casas por causa da guerra. É uma boa sensação se pudermos fazer alguma coisa".

A autarca lembra que os voluntários que passam naquele pavilhão todos os dias "podiam ficar em casa ou ir de férias", mas eles "querem ajudar e fazer alguma coisa". "No entanto, não sei durante quanto mais tempo terão motivação e energia para vir todos os dias e trabalhar como voluntários", confessou Marion, orgulhosa da resposta da sua comuna no apoio aos refugiados. "Há gente muito simpática em Contern. Muitas associações ligaram-me a perguntar se podiam fazer algo para ajudar, dar um concerto, organizar algum evento desportivo. Deram-lhes as boas-vindas. Todos os ucranianos são muito bem-vindos a Contern".

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