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Confinamento. Das angústias aos conflitos com vizinhos nas casas do Luxemburgo
Luxemburgo 4 min. 24.04.2020 Do nosso arquivo online

Confinamento. Das angústias aos conflitos com vizinhos nas casas do Luxemburgo

Confinamento. Das angústias aos conflitos com vizinhos nas casas do Luxemburgo

Luxemburgo 4 min. 24.04.2020 Do nosso arquivo online

Confinamento. Das angústias aos conflitos com vizinhos nas casas do Luxemburgo

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Diariamente a hotline covid-19 dá apoio psicológico a quem está deprimido, teme pelo futuro ou com problemas dentro das quatro paredes. Há psicólogos a falar português.

Angústia e medo. Dois sentimentos que agora andam de mãos dadas e invadem com mais força os habitantes do Luxemburgo em confinamento. E quanto mais tempo passa, mais aumentam. Angústia de ficar infetado pelo novo coronavírus, sobretudo quando começar a trabalhar. E de contaminar, também. Medo de perder o emprego. Angústia pela solidão. Até há quem tenha medo de se tornar uma pessoa violenta dentro das quatro paredes, 24 horas por dia.

Estes desabafos são feitos ao telefone para os psicólogos da Hotline Covid-19, número 8002 8080, que diariamente (incluindo fins de semana) das 07h00 da manhã às 23h00 da noite estão sempre disponíveis para apoiar quem precisa, e nos casos mais graves encaminhar para os serviços especializados. Existe também uma página no site do governo sobre este apoio. Clique aqui. 

A parte do apoio psicológico desta hotline, inicialmente criada pelo governo para esclarecer questões sobre o novo coronavírus, funciona desde 30 de março tendo recebido 450 chamadas de pedidos de apoio.


Pandemia de Covid-19 já está a fazer crescer pedidos de apoio psicológico
A saúde mental é mais uma das preocupações colaterais do combate ao novo coronavírus. Ao Contacto, a Ligue Luxembourgeoise d’Hygiène Mentale dá conta de uma subida do número de pedidos de assistência de pessoas mentalmente vulneráveis e antecipa um agravamento com o confinamento, com consequências que durarão para lá da pandemia.

 Apoio em português

Entre estes casos, há quem seja seguido semanalmente pela equipa de 30 psicólogos, que vão alternando em grupos de dois, em turnos de quatro horas. Este apoio está disponível em quatro idiomas, luxemburguês, alemão, francês e inglês. Contudo, há alguns psicólogos que dominam a língua portuguesa, como explica ao Contacto, a psicóloga Mareike Bönigk, coordenadora do apoio psicológico da Hotline Covid. 

Se o utente desejar falar em português e naquele momento nenhum dos psicólogos dominar este idioma, “pedimos para que volte a telefonar no horário em que esteja um psicólogo que fale português”, conta esta responsável. Por vezes as angústias e problemas são melhor relatados na língua de origem.

"Relativizar" as angústias

O papel dos profissionais que escutam as aflições e receios é o de sobretudo ensinar a “relativizar essas angústias”. Que não vão desaparecer, mas podem ser atenuadas e melhorar o estado psicológico.

Em geral, são as pessoas mais fragilizadas, que já antes tinham um historial clínico de problemas do foro psicológico ou psiquiátrico quem mais recorre a esta linha de apoio.

Nesta crise sanitária como não há igual há muito os estados depressivos e depressões podem levar ao aumento de pensamentos suicidas. Nos casos graves estes utentes são encaminhados para apoios psicoterapêuticos ou para a psiquiatria.

A solidão dos idosos

Cerca de três quartos dos telefonemas são feitos por pessoas idosas que vivem sozinhas, mas depois há gente de todas as idades a partir dos 18 anos.


Imigrantes portugueses são mais vulneráveis à depressão
A mudança de vida para um novo país, o Grão-Ducado, longe da família e muitas vezes para um trabalho mais duro pode conduzir a estados depressivos. Também os filhos de imigrantes são mais afetados por esta doença, neste país que é o mais deprimido da Europa.

“Há pessoas mais idosas que se sentem fragilizadas pelas saudades dos netos e familiares com quem não podem estar. Mas à janela ou se tiverem um jardim podem vê-los e conversar, mantendo as respetivas distâncias”, para se sentirem melhor, exemplifica Mareike Bönigk. Mas também há adultos mais jovens que telefonam precisamente por causa dos pais que estão isolados. “De mães que choram”.

As principais angústias dos mais novos são “o medo de ser contaminado e o medo de perder o trabalho”.

Os conflitos conjugais

O confinamento prolongado pode também aumentar os conflitos familiares, e estes são os motivos de vários telefonemas realizados para a hotline. Casais com filhos, sobretudo pequenos, que “não estavam habituados a estar 24 horas por dia juntos, e fechados em casa”. Com o passar das semanas, e para muitos residentes no Luxemburgo, já lá vão cinco semanas, as tensões e discussões podem aumentar.

No entanto, na grande maioria das vezes estes conflitos sucedem e agudizam-se “entre casais que já tinham problemas antes da pandemia”.

E aqui fala-se apenas de conflitos e não de violência doméstica, situações estas que são apoiadas em linhas telefónicas próprias, como a nova Helpline cujo número é 2060 1060 ou através do email nfo@helpline-violence.lu ou chamadas para o 113.


Luxemburgo. Polícia já recebeu 113 apelos por conflitos familiares
As queixas conjugais estão a aumentar. As vítimas que não possam telefonar podem enviar pedido ajuda pela APP da polícia.

“Houve um caso de uma pessoa que telefonou pedindo ajuda pois temia que pudesse ficar violento para com a família, por estar fechado em casa”, refere Mareike Bönigk.

Problemas com vizinhos

Em período de isolamento social, os problemas podem também surgir das casas ao lado, dos vizinhos. Pessoas saturadas de barulhos constantes e sons altos que “lhes chegam da vizinhança e que se tornam muito incomodativos”, refere esta coordenadora. “Vizinhos do mesmo prédio que nem se conheciam, ou se dizia apenas bom dia e boa tarde”, vinca. No entanto, há relações que se criam de forma positiva nestes dias de crise, alimentadas à janela ou na varanda.

Mareike Bönigk quer apelar ao lado positivo desta nova realidade. “A situação no Luxemburgo não é tão grave como noutros países, estamos bem preparados, os hospitais ainda têm camas disponíveis e há reservas de equipamento e material de proteção”, vinca esta responsável que considera importante que os residentes do Luxemburgo saibam disso.

Grande solidariedade

Depois há a “solidariedade, a cooperação e a vontade de ajudar que são surpreendentes”. Quer seja na sociedade em geral, quer ao nível dos profissionais de saúde. “Existe uma aliança forte, estamos todos a trabalhar juntos. A cooperação que se estabeleceu entre os médicos e psicólogos é disso exemplo e é algo muito positivo.

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