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Compensa ser fronteiriço?
Luxemburgo 5 min. 12.04.2018 Do nosso arquivo online

Compensa ser fronteiriço?

Compensa ser fronteiriço?

Foto: Anouk Antony
Luxemburgo 5 min. 12.04.2018 Do nosso arquivo online

Compensa ser fronteiriço?

Paula CRAVINA DE SOUSA
Paula CRAVINA DE SOUSA
Têm rendimentos superiores aos residentes no seu país de residência, mas mais baixos do que os luxemburgueses. Têm casas mais baratas, mas passam mais tempo no trânsito. O Banco Central do Luxemburgo e o instituto de investigação socioeconómica tiraram uma fotografia a quem vive na Bélgica, França ou Alemanha e escolheu o Luxemburgo para trabalhar.

Vivem no seu país de origem, têm um contrato de trabalho de duração indeterminada (CDI) e recebem, em média, mais do que os residentes do seu próprio país. Pagam rendas mais baixas e o custo de vida é, normalmente, mais baixo do que no Luxemburgo. São casados, têm um nível educacional superior, trabalham no Luxemburgo há, pelo menos, dez anos, sobretudo no setor financeiro e no do comércio. No entanto, passam, em média, mais de três quartos de hora no trânsito, e o seu rendimento anual familiar é inferior ao dos residentes no Grão-Ducado, bem como o seu património. Estes são os fronteiriços, segundo um estudo conjunto do Banco Central do Luxemburgo e do Instituto Luxemburguês de Investigação Socioeconómica (Liser). O estudo caracteriza quem mora do lado de lá da fronteira e escolhe o Grão-Ducado para trabalhar, uma fatia muito significativa do mercado laboral luxemburguês, já que os fronteiriços representam 45% do emprego do Luxemburgo.

O estudo conclui que há diferenças entre os rendimentos e património dos residentes no Luxemburgo e dos fronteiriços, diferença que se estende também ao tempo de viagem de casa para o trabalho, por exemplo. A distância e o tempo passado em filas de trânsito é mesmo um dos motivos que faz pensar duas vezes quem pondera a hipótese de ser fronteiriço. Em média, os fronteiriços passam 46 minutos dentro do carro ao início do dia a tentar chegar ao trabalho a horas e outros tantos no final do dia, para chegar a casa. Os residentes no Luxemburgo demoram metade do tempo: 23 minutos.

Foto: Guy Wolff

Mas este é apenas um dos fatores que pesam na hora de decidir morar ou não do lado de lá da fronteira. No caso de Luís (nome fictício) foi um bom negócio imobiliário que o fez ir viver para França. No entanto, a escolaridade da filha fê-lo voltar. Em 2009, mudou-se do Luxemburgo para Audun-le-Tiche, em França, onde comprou casa. No entanto, a escolaridade obrigatória da filha de quatro anos não era assegurada pelas comunas luxemburguesas, apesar de Luís e a sua mulher trabalharem no Grão-Ducado. Em declarações ao Contacto, Luís explicou que prefere o ensino luxemburguês por causa das línguas. Foi isso que fez com que, em 2012, voltasse a morar no Luxemburgo.

Por sua vez, Marta Pinto, de 36 anos, mudou-se de Portugal há dez anos diretamente para a Bélgica, uma vez que “já tinha família no país”. Mas Marta atravessa todos os dias a fronteira para trabalhar como empregada de limpeza e o marido na construção. Apesar de reconhecer que as casas são mais baratas na Bélgica, o plano é mudar para o Grão-Ducado. “Por tudo”, diz. O “tudo” são vários fatores, desde ficar mais perto do trabalho a pôr os filhos no ensino luxemburguês. “Ando a ver... é uma questão de procurar até achar uma boa oportunidade [imobiliária]”, assegura. Para Marta, “morar na Bélgica só compensa na casa, de resto depende muito das coisas: os impostos sobre os automóveis são mais caros”, exemplifica.

Menos rendimento e menos património

O estudo do BCL e Liser conclui que o rendimento dos fronteiriços é 30% mais baixo do que o rendimento bruto dos residentes no Grão-Ducado. Isto explica-se pelo facto de pelo menos 20% dos rendimentos de quem vive do lado de lá da fronteira terem origem no país de residência. De acordo com o estudo, são os residentes em França que saem menos beneficiados: o rendimento médio é de 54,2 mil euros por ano, valor que compara com os 75,4 mil euros recebidos por quem vive no Luxemburgo. Pegando neste mesmo exemplo concreto, 78% do rendimento de quem vive em França vem do Grão-Ducado e 22% é originário do país de residência.

Esta não é a única tendência que se pode observar do estudo feito. Outra é, por exemplo, que os fronteiriços recebem mais do que a média de quem vive e trabalha no país de residência. Por exemplo, um trabalhador que viva na Alemanha e trabalhe no Grão-Ducado recebe, em média, 64 mil euros por ano, um valor superior a quem viva e trabalhe na Alemanha, que tem um rendimento médio de 45,9 mil euros.

Foto: Marc Wilwert

Os dados permitem ainda perceber que, entre os residentes no Luxemburgo, os luxemburgueses recebem muito mais do que os estrangeiros. Um luxemburguês tem um rendimento de 89,9 mil euros por ano, mais 43,4% do que os 62,7 mil euros ganhos por um estrangeiro que viva e trabalhe no Grão-Ducado.

Em termos de património, observam-se as mesmas tendências. O património dos fronteiriços representa apenas metade do dos residentes. O património dos residentes no Luxemburgo ultrapassa os 536 mil euros, mais do dobro dos 250 mil dos belgas, por exemplo. Isto porque um dos principais ativos dos trabalhadores – a casa – tem um preço mais baixo do lado de lá da fronteira, o que contribui para reduzir o valor do património total dos trabalhadores. Carro e casa são mesmo os principais bens patrimoniais em todos os casos, ou seja, fronteiriços e residentes no Luxemburgo. Mas há que contar ainda com ativos financeiros, sendo que os fronteiriços têm um nível elevado de aversão ao risco, preferindo produtos financeiros mais seguros, como contas-poupança. O investimento em ações, em obrigações e fundos de investimento é mais tímido. No entanto, 20% destes ativos financeiros dos fronteiriços são detidos no Grão-Ducado.

Em termos de propriedade da habitação própria e permanente são os luxemburgueses que ganham: 80% são proprietários das casas onde residem. Seguem-se os belgas, com 79%, os franceses (72%) e os alemães (60%). Entre os estrangeiros que residem no Grão-Ducado, apenas metade tem casa própria. Há, portanto, uma discrepância significativa entre os residentes estrangeiros e luxemburgueses no Luxemburgo. No entanto, se se analisarem a propriedade de outras casas, a percentagem equilibra-se acima dos 20%. Isto explica-se pelo facto de muitos estrangeiros terem habitação no seu país de origem. No exemplo português, acontece em 88% dos casos.

Além do tempo que passam no caminho, dos rendimentos ganhos e do património que têm, o estudo analisa também os gastos daquela importante fatia do mercado de trabalho luxemburguês. O custo de vida é, em geral, mais baixo e a maioria das suas despesas em bens não-duradouros é feita no país de residência. No entanto, e apesar disso, parte do seu rendimento fica no Grão-Ducado: cerca de 20% do rendimento familiar é gasto no país.



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