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Como se sente uma criança quando é abusada sexualmente e ninguém acredita nela?
Luxemburgo 6 min. 16.10.2019

Como se sente uma criança quando é abusada sexualmente e ninguém acredita nela?

Como se sente uma criança quando é abusada sexualmente e ninguém acredita nela?

Luxemburgo 6 min. 16.10.2019

Como se sente uma criança quando é abusada sexualmente e ninguém acredita nela?

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Do trauma da mentira à vergonha da queixa e aos anos de revolta em silêncio. O pesadelo e a falta de medidas para combater o abuso sexual de menores no Grão-Ducado.

Já é traumatizante para uma criança ser violada. Mas o pesadelo ainda é maior quando se ganha coragem para contar mas depois nem os próprios pais acreditam nela.

“Isso não pode ser verdade”. Então, o pai, avô, primo, vizinho ou amigo, “tão boa pessoa, tão simpático, iria fazer uma atrocidade dessas”? “Impossível!”.

À vergonha, trauma de ser abusada, passa-se agora a ser mentirosa também. “A culpa só pode ser minha”, pensam estes menores, crianças ou adolescentes.

Esta é uma realidade que acontece no Luxemburgo, como em qualquer parte do mundo, vinca ao Contacto Anne-Marie Antoine, psicóloga do Planning Familial (PF), que lida com pacientes vítimas de abusos sexuais desde os anos 80.

"Pensam que a culpa é deles"

“É um problema muito grande e ainda há casos destes, em que os pais não acreditam neles. Os menores sentem-se envergonhados, começam a achar que a culpa dos abusos de que são vítimas é deles próprios. Mas não é.”, esclarece Anne-Marie Antoine, que também é psicoteraupeuta e sexóloga. Segundo alerta, estas situações são muito graves pois nestas alturas, as vítimas, ainda por cima tão novas, precisam principalmente do apoio familiar e se não o têm é muito complicado.

Há quase 40 anos que esta especialista apoia estas vítimas de abusos sexuais que recorrem ao PF. A organização oferece serviços de saúde sexual aos habitantes, desde consultas médicas a apoio psicológico, além de outros serviços e ainda formação e ações de sensibilização junto de profissionais e população escolar.

“Hoje em dia, felizmente, já há menores que contam que são vítimas de abusos, há quarenta anos guardavam as agressões para si e viviam o trauma em silêncio”, recorda Anne-Marie Antoine.

Quando o agressor é o próprio pai

“97% dos abusos sexuais começa antes dos 18 anos”, de acordo com os dados recolhidos ao longo dos anos pelo PF. E, em quase metade destes casos, estas agressões são feitas a crianças com menos de 10 anos de idade.

É entre as faixas etárias dos 4-10 anos (57, 6%) e depois dos 11-18 anos (39%) que ocorrem a quase totalidade (cerca de 97%) destas agressões nas crianças e adolescentes, mostram os relatórios anuais do PF.

Sempre entre a família e, em primeiro lugar, por quem menos seria de esperar: o pai. Ou o padrasto. O segundo maior grupo de agressores são outros elementos masculinos da família, como irmão, avô ou tio. Juntos representaram em 2017, mais de 70% de todos os agressores, segundo o relatório sobre esse ano do PF.

Em 2018, o PF prestou apoio a 79 pessoas vítimas de abusos sexuais, das quais 76 mulheres, menores e adultas.

Em 2017, o número foi menor, 59 vítimas e entre estas houve 16 casos de gravidezes não desejadas a que o PF prestou auxílio, não havendo dados sobre a sua idade.

 Anos de sofrimento em silêncio

É nas consultas de apoio psicológico que a PF oferece que as vítimas revelam, “muitas vezes, pela primeira vez, a alguém que foram vítimas de abusos sexuais, algumas há mais de 10 anos”, conta Antoine. Os dados do PF são claros. Entre vítimas de abusos sexuais que procuraram apoio no Planning, tendo sido encaminhadas para a psicoterapia, 49% iniciaram este tratamento entre os 18 e os 49 anos. Antes dos 17 anos, apenas 8,5% iniciaram terapia, indicam os dados de 2017.

Pôr a sociedade a falar sobre o problema

É necessário sensibilizar a sociedade, os pais, as crianças, os profissionais para esta problemática que existe e ainda está escondida. “Os abusos sexuais têm de ser encarados e tratados como o movimento '#MeToo'. As pessoas têm de deixar de ter vergonha de falar, de contar, para que se possa combater este problema e ajudar as vítimas que vivem anos em silêncio”, defende Anne-Marie Antoine.

E a sensibilização deve começar logo na escola, através da educação sexual. “Se as crianças começarem a ouvir falar deste problema, a compreendê-lo, vão estar mais atentas” e as situações poderão ser evitadas. Ou denunciadas. “Há que falar abertamente sobre os abusos sexuais”. Para os combater.

A dificuldade das queixas

“São muito poucas as vítimas que apresentam queixa. Têm vergonha de se expor, de confessar que são vítimas. Também aqui há muito trabalho a fazer, para mostrar que elas têm direitos”, assinala. 

Em 2017, das 59 vítimas atendidas no PF, apenas nove participaram o abuso às autoridades, indica o relatório. E houve anos em que nenhuma teve coragem de o fazer, nomeadamente em 2004 e em 2005. 

Atualmente, já há “quem faça, mas ainda são muito poucos”. Por isso, é importante alertar e falar deste problema “para que as vítimas apresentem queixa”, vinca a psicóloga.

Auxiliar as vítimas

Face à vergonha que sentem e à dificuldade das vítimas em saber que passos têm de dar, o PF oferece um serviço de assistência cujo principal objetivo é precisamente “fornecer informações concretas, no que se refere à eventual assistência social/financeira, a direitos e deveres ou aconselhamento sobre procedimentos a fazer e os procedimentos a seguir”, como refere o relatório do PF. Os técnicos desta organização indicam a que instituições as vítimas devem recorrer.

Outro dos apelos desta especialista é para que haja um apoio jurídico a estas vítimas, entidades onde se possam dirigir de modo a serem auxiliadas com a a parte legal de apresentar queixa dos agressores.

Para Anne-Marie Antoine, os agressores também deveriam ser encaminhados para consultas “para que não haja riscos de reincidirem, de voltarem a agredir sexualmente”.

A falta das estatísticas

Todas estas medidas iriam não só ajudar a combater esta problemática como fornecer dados estatísticos sobre a realidade dos abusos sexuais no Grão-Ducado, para que se possa conhecer bem esta realidade ao nível do país e combatê-la do modo mais eficaz, defendem os responsáveis do PF.

De acordo com o relatório Innocenti da l’Unicef, de 2017, 13%  dos luxemburgueses, entre os 18 e os 29 anos, declaram ter sido vítimas de abusos sexuais perpetrados por um adulto antes dos 15 anos de idade.



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