Escolha as suas informações

Como sair de 2020?
Opinião Luxemburgo 4 min. 18.12.2020

Como sair de 2020?

Como sair de 2020?

fOTO: : LUSA
Opinião Luxemburgo 4 min. 18.12.2020

Como sair de 2020?

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Nós, portugueses, vendemos o nosso país com tanta convicção que a malta estrangeira às vezes nem acredita em quão fabuloso ele é. Mas, problema deles...

 Havia um país na Europa que me permitia festejar o final deste famigerado ano de 2020 até às duas da manhã.

Esse país era aquele onde nasci, Portugal. Como muitos portugueses emigrados pensei: duas da manhã é perfeito. Este Governo sabe longo. Tem visão, percebe que o que a malta quer na noite de São Silvestre é brindar à meia-noite, dar uns chochos e uns abraços, e seguir para casa com os copos, já que não vai ser possível dançar e praticar outras atividades sociais.

Se bem o pensei, melhor o planeei.

Marquei o meu voo para ir para o Porto antes do Natal para passar a consoada com a família (poucos, mas bons) e disse à Mylène: não queres ir passar o ano a Portugal? Lá há restaurantes abertos...

A Mylène é francesa e está muito irritada que no país dela, tal como aqui no Luxemburgo, não haja restaurantes nem bares abertos até ao ano meados de janeiro.

Expliquei e vendi o meu país como bom embaixador de Portugal que sou. Aliás, somos todos. Nós, portugueses, vendemos o nosso país com tanta convicção que a malta estrangeira às vezes nem acredita em quão fabuloso ele é. Mas, problema deles...

Disse então à Mylène: tu não querias festejar com as tuas amigas a passagem de ano no Dubai? Não precisas de ir tão longe. Duas horitas e tal de avião e tens restaurantes abertos e passagem de ano como manda a sapatilha.

Como eu traduzi para francês a expressão, ela não percebeu o que é que os ténis tinham a ver com o assunto, mas perguntou: e então onde é que podemos ir? A Marrocos?

Pelos vistos Marrocos também está a fazer uma política turística aproveitando as restrições devidas à pandemia na Europa. Mais, disse-me a Mylène, toda a gente vai para Marraqueche passar de ano. A Linda, por exemplo, vai para o Club Med.

Não disse à Mylène que a Linda o-que-ela-quer-sei-eu, e decidi concentrar-me na minha venda da viagem a Portugal.

Portugal, rapariga! Vocês têm é de ir a Portugal!

Expliquei com calma que o Governo português, depois de aturada reflexão, decidiu autorizar a circulação nos dias à volta do Natal e que nem sequer limitou o número de pessoas durante a consoada.

Mais importante. Explanei que na noite de dia 31 de dezembro o Governo não só autoriza a circulação como deixa os restaurantes abrirem até às duas da manhã de dia 1 de janeiro. Ou seja, party party. Não vai ser na discoteca, mas vai ser nos restaurantes, expliquei.

A Mylène telefonou às suas duas amigas mais “sorteuses” e acenou-lhes com “party party” em Portugal. Ambas adoraram a ideia.

Party party, repetiu uma. Champanhe champanhe, terá respondido a outra. Uvas passas uvas passas, disse eu, voluntariando-me para tratar de marcar hotéis e restaurantes.

Obviamente, por eu ser do norte e elas serem três francesinhas, sugeri-lhes o Porto.

Elas marcaram o avião para a invicta e eu enviei-lhes por WhatsApp uma lista de restaurantes para party party e sítios para visit visit.

Ainda estava eu a fazer meia-noite esta manhã quando a Mylène telefonou. Ela que só utiliza o WhatsApp para enviar mensagens ligou mesmo, com sonnerie e tudo. Saltei estremunhado na cama a pensar que tinha acontecido alguma desgraça no trabalho, apesar de eu estar de férias.

Mylène!? Que se passa? Está tudo bem contigo?

E agora que fazemos? Perguntou.

Fazer o quê, não estou a perceber.

O ano novo, gritou. Deste-nos cabo do ano novo! Eu? Que é que eu fiz?!

Esta manhã não se fala de outra coisa no Luxemburgo! E a minha colega Sara, que é portuga, hoje veio logo com essa notícia: que ontem o vosso primeiro-ministro anunciou que não há ano novo para ninguém! Parece que ele esteve com o Macron e que apanhou covid e que agora se assustou e já não quer festejos de fim de ano...

Ainda meio a dormir, abri as páginas de vários jornais e confirmei que sim, que António Costa tinha anunciado mais restrições para 31 de dezembro e para os primeiros dias de janeiro.

A Mylène continuava zangadíssima a debitar coisas incompreensíveis como se eu tivesse culpas no cartório. Consegui decifrar uma frase: achas que a Luxair devolve o dinheiro do voo?

Não sei, podes sempre tentar, balbuciei. Mas que vais alegar? Que vou alegar? Vou alegar que tu me vendeste uma passagem de ano que não vai existir e que se eu fosse esperta tinha mas era ido para o Club Med com a Linda! Deves-me um bilhete de avião!

E desligou a chamada.

Nas próximas legislativas vou votar noutro partido.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

Em todo o país: Luxemburgo festejou Ano Novo
O Ano Novo foi festejado um pouco por todo o Grão-Ducado. Bares, restaurantes ou mesmo festas entre amigos serviram para celebrar o "réveillon". Veja aqui as primeiras imagens de 2016 no Luxemburgo.