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Como Rui usou a sua marca de roupa para combater a pandemia

  • Pontapé na pandemia
  • “Bem, as coisas podiam ser piores”
  • Tanta dança
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Como Rui usou a sua marca de roupa para combater a pandemia

Como Rui usou a sua marca de roupa para combater a pandemia

Como Rui usou a sua marca de roupa para combater a pandemia


por Ricardo J. RODRIGUES/ 19.11.2020

2020 parecia um ano promissor para a Rebounce: a marca de streetwear luxemburguesa cumpria dez anos de história com uma carteira de clientes mais internacional do que nunca. Veio a covid-19 trocar as voltas à festa, até que Rui Miroto, dono da empresa, teve uma ideia: entregar ele mesmo a roupa a cada cliente. “Nesses dias, nasceu uma família.”

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Pontapé na pandemia
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A mais pura das verdades é que Rui Miroto, 37 anos, odeia conduzir. Mas, naqueles meses de confinamento, entre meados de março e o final de maio, poucas coisas lhe deram mais gozo do que fazer-se à estrada. “Fiz pelo menos 500 entregas ao domicílio nessa altura. Carregava o carro com produtos da Rebounce e atravessava o país todo de Fiat 500. Descobri lugares espetaculares, e se calhar foi a altura da minha vida em que melhor percebi quão bonito é o Luxemburgo.”

O decreto do estado de emergência, que entrou em vigor a 17 de março, fê-lo levar as mãos à cabeça. “Era o décimo aniversário da marca, e eu estava entusiasmado com a celebração.” Motivos de regozijo não lhe faltavam – a Rebounce estava a vender para todo o mundo, havia gente de fora a vir de propósito ao Luxemburgo comprar os produtos que ele mesmo desenha. Chapéus, t-shirts, hoodies, meias, camisas.

Foto: António Pires

E, precisamente no momento em que as vendas estavam a crescer, percebeu que tinha de fechar as portas das duas lojas da Rebounce na Avenue de la Gare, na capital. “Ninguém fazia ideia de quando voltaria a abrir o comércio e eu tinha contas para pagar – sobretudo as rendas, que não são baratas. Então lembrei-me que podia fazer entregas ao domicílio, como uns poucos restaurantes faziam. Anunciei isso mesmo no nosso site e nas redes sociais. E, sinceramente, isso revelou-se a melhor coisa que eu podia ter feito.”

Carregava o carro de manhã e só tornava a casa pelo fim da tarde. Almoçava qualquer coisa nas bombas de gasolina, para se desenrascar, e durante semanas galgou o Grão-Ducado inteirinho. Esteve no centro de cidades desertas e em aldeias perdidas no meio de nenhures. A cada cliente que entregava uma encomenda passava uns bons minutos à conversa. “Muitas das pessoas que me pediam coisas viviam sozinhas e estavam agora numa situação de grande isolamento. Não lhes levava só roupa, levava-lhes também um pouco de normalidade e essa sensação de humanidade foi uma das lições mais importantes que aprendi.”

Foto: António Pires

A chegada de Rui era normalmente uma festa. “Perdi a conta ao vinho que me ofereceram, havia dias em que voltava a casa com dez garrafas na bagageira. E aconteceram conversas incríveis, desabafos incríveis, episódios incríveis.” Uma vez, e quando Miroto conta isto escangalha-se a rir, veio um rapaz receber a encomenda à porta de casa vestido de Darth Vader. “A sensação que tenho é que, nesses dias, nasceu uma família. Quando as lojas voltaram a abrir, muita dessa gente que tinha feito encomendas veio cá visitar-me, e estou certo de que muitos continuarão a vir.”

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“Bem, as coisas podiam ser piores”
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Há dois desenhos que são a imagem de marca da Rebounce. A caveira com um chapéu e o logotipo da marca – quatro vezes a letra R, em sinal do lema de Rui Miroto: Rebounce – Real Recognize Real. “Claro que, em dez anos, já acrescentei muitos desenhos ao catálogo”, diz ele. Quem visita as suas lojas pode bem apanhá-lo num momento criativo, agarrado a um caderno a compor novos produtos.

Foto: António Pires

Diz que todo o seu percurso tem sido pautado pela procura da autenticidade, então é isso que tenta por no papel. “Gosto que a roupa conte uma história”, explica. Por exemplo, assim que terminou o estado de emergência, criou uma t-shirt chamada Quarantine Lifestyle. É o desenho de uma pinup dentro da banheira, a beber um copo de vinho e a comer uma fatia de pizza. Em baixo lê-se “Well, things could be worse” – ou, em tradução literal, “Bem, as coisas podiam ser piores.”

Quando conta como lhe ocorreu a ideia, começa novamente a rir. “Primeiro, quis combater a ideia depressiva da pandemia, porque foi de facto de uma forma divertida que eu vivi o confinamento. Mas o que era engraçado é que, sempre que eu ia entregar uma encomenda, as pessoas estavam a sair do duche. Então, pronto, pus uma rapariga dentro de uma banheira, em homenagem a isso.”

Diz que há poucas coisas que lhe deem tanto prazer como ver gente a usar a sua roupa em lugares que não espera. “Tenho clientes que me dizem que, quando se cruzam na rua com alguém que usa Rebounce, cumprimentam-se com um pequeno aceno de cabeça. Até há gente que tatua o nosso logo. E isso não pode senão deixar-me feliz.” Enquanto profere estas palavras, um rapaz português que ouve a conversa acena com a cabeça e confessa: “Eu tatuei o símbolo da Rebounce na perna”. E a seguir levanta as calças para mostrar o desenho que tornou definitivo na pele.

Uma tatuagem com o logo da Rebounce
Uma tatuagem com o logo da Rebounce
Foto: António Pires

 Miroto diz que a marca não é só uma marca, é uma afirmação da cultura underground. “O nosso conceito junta um pouco do mundo do punk, do rock, do hip-hop, do skate, dos motards. Foi nessa cultura que cresci, então é natural que seja por aqui que me afirme agora.” E isso leva-nos às raízes da Rebounce, quando Rui Miroto dançava break-dance nas ruas do centro, no que é hoje a zona de Hamilius. E como, a partir daí, conheceu uma boa parte do mundo.

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Tanta dança
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A infância passou-a no Pfaffenthal, e nunca se cansa de dizer como o bairro da capital mudou com os anos. “Hoje faz parte da zona turística, está na moda, mas quando eu era miúdo era uma zona de famílias pobres, de habitação social, e integrarmo-nos era um desafio”, diz Rui Miroto. As coisas tornaram-se ainda mais desafiantes porque, dos 7 aos 9 anos, mudou-se para Portugal – ficou um ano em Tondela, terra de origem dos pais, outro em Viseu. “Quando regressei tinha perdido a língua luxemburguesa e isso fazia-me sentir ainda mais excluído.”

Fez quatro anos de Escola Europeia, e depois foi para o Liceu de Arlon. “Foi lá que conheci um amigo que dava aulas de breakdance numa pequena associação na Gare. Inscrevi-me com um vizinho que é até hoje o meu melhor amigo, o Danny Francisco. Eu tinha 16, ele 14, estávamos numa turma de cinco alunos. O nosso sonho era participarmos nos círculos que os mais velhos faziam em Hamilius, mas para isso precisávamos de provar que sabíamos dançar bem.”

Foto: António Pires

Todos os dias, das sete da tarde à uma da manhã, o centro da cidade era tomado por um grupo de rapazes que lutavam em battles (batalhas) de dança. Eram dominicanos, zairenses, filipinos, cabo-verdianos, ex-jugoslavos. E às tantas entraram aqueles dois miúdos portugueses, Rui e Danny, que acabariam por fundar um grupo chamado Dog Town Style e tornar-se-iam rostos incontornáveis do movimento hip-hop no Grão-Ducado. “Eu vivia para aquilo. Às tantas, pedi no liceu de Arlon para treinar numa sala e a direção da escola acedeu, desde que eu desse aulas aos outros alunos. A partir daí o grupo começou a alargar-se.”

Os rapazes tinham sucesso, eram convidados pelo Governo para dar espetáculos, Rui empregava-se nas casas de juventude das comunas a dar aulas de breakdance. “Em 2001, viajei pela primeira vez para os Estados Unidos com um amigo filipino que também dançava e fomos para um círculo no Bronx. Aquilo era mesmo a sério, eram tipos de gangs que resolviam as rivalidades nas battles, gente que andava armada, alguns que tinham cometido homicídios. E eu ali, no meio deles.”

Foto: António Pires

Foi o primeiro luxemburguês a dançar nos Estados Unidos, e anos depois repetiu o feito na China. Voltava constantemente aos círculos do Bronx, juntava dinheiro e chegou a ir dez vezes por ano dançar no bairro nova-iorquino. Agora levava consigo Danny, eterno companheiro de aventuras, e sempre que voltavam angariavam mais e mais adeptos para a cultura que fizeram sua.

Em 2007, os dois amigos encontraram posto de trabalho numa loja de roupa urbana da capital, e quando o patrão decidiu abandonar o negócio, em 2010, Rui Miroto tomou a dianteira. “Umas semanas depois decidi arriscar e fazer uma prateleira com t-shirts criadas por mim. Correu bem.” A partir daí vieram caps, hoodies, sweats. A loja passou a chamar-se Rebounce, a marca de roupa também.

As primeiras vendas fê-las aos amigos – os que frequentavam os mesmos circuitos, os que dançavam nos mesmos círculos. Era já um grupo significativo de gente, por isso abriu uma segunda loja em Echternach. “Em 2007 fechei essa loja e abri uma outra com produtos customizados, também na Avenue da la Gare. Personalizamos aquilo que os clientes nos pedem, e tem funcionado bastante bem.”

A Rebounce é luxemburguesa, mas tem clientes na Coreia do Sul e nos Estados Unidos, no Japão e na Suíça, muita, muita gente em Portugal. “Houve aqui um fenómeno entre os lusodescendentes que, antes de ir de férias, vinham comprar t-shirts e divulgaram a marca lá. Depois começou gente a contactar-nos de lá de baixo e a fazer as suas próprias encomendas.”

Foto: António Pires

Rui Miroto nunca quis que a Rebounce fosse uma marca como a Zara, o seu objetivo primeiro foi sempre a divulgação da cultura onde cresceu. Quando abriu as portas da loja, o seu público alvo ia dos 15 aos 30 anos, mas dez anos de atividade significa que estas pessoas foram crescendo, tiveram filhos, e com isso o espectro alargou-se. Na pandemia, chegou a temer que o sonho de uma marca de roupa nascida das battles de breakdance tivesse chegado ao fim. E, afinal, pô-lo na rua e fê-lo crescer. 

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