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Como o melhor boxeur luxemburguês de uma geração virou o combate contra Hitler

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Como o melhor boxeur luxemburguês de uma geração virou o combate contra Hitler

Como o melhor boxeur luxemburguês de uma geração virou o combate contra Hitler

Como o melhor boxeur luxemburguês de uma geração virou o combate contra Hitler


por Ricardo J. RODRIGUES/ 04.09.2019

Arquivo pessoal da família Toussaint

Quando viu o Füher nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, Ernest Toussaint percebeu que chegara a hora de resistir ao nazismo. A história nunca contada de um herói luxemburguês.

“Não é aqui que vais morrer hoje, mas vais morrer hoje.” Os prisioneiros do campo de concentração ouviram os oficiais da Gestapo gritar isto a Ernest Toussaint na madrugada de 3 para 4 de setembro de 1942, minutos antes de o fuzilarem. Ele e oito outros resistentes luxemburgueses haviam sido levados para o terreiro principal de Hinzert – era ali que normalmente se cumpriam as execuções, à vista de toda a gente.

Mas, naquela noite (e os serviços meteorológicos da época confirmam-no), tinha-se levantado uma ventania tremenda. Então, depois de se alinharem à espera da morte, os homens foram conduzidos até às traseiras de um dormitórios do campo de concentração, para que a parede do pavilhão servisse de para-vento aos fuzis. Às quatro e meia da manhã, pum, o corpo de um dos mais esquecidos heróis da II Guerra Mundial tombava no chão sem vida.

O neto de Toussaint, Fernand, só ouviria contar a história meio século mais tarde, num encontro de homenagem às vítimas luxemburguesas de Hinzert. “É algo que continua a acontecer, ir descobrindo mais e mais coisas sobre o meu avô”, conta agora na sua casa em Hobscheid, no centro-oeste do Luxemburgo, enquanto serve um cálice de vinho do Porto.

O neto de Ernest, Fernand Toussaint
O neto de Ernest, Fernand Toussaint
Foto: Guy Wolff

Nas paredes da sua casa estão pendurados os retratos da sua ascendência, as estantes foram forradas com livros sobre a guerra, recortes de jornal, caixas com fotografias de família. Este é um homem obcecado com a História e preocupado com a perda de memória de uma Europa que há menos de um século radicalizava os discursos ao ponto de quase implodir. Recordar o avô não lhe parece apenas um exercício de nostalgia, é antes uma urgência social.

“Em abono da verdade, ele recebeu várias homenagens. Foi condecorado post-mortem pela Grã-Duquesa Charlotte no final da guerra, o seu nome aparece em todos os memoriais luxemburgueses das vítimas dos nazis e é citado sempre que neste país se fala da greve de 1942”, concede Fernand, hoje com 62 anos. “Mas foi também é justo dizer que foi um herói extraordinário, daqueles sobre quem Hollywood podia fazer um filme, mas sobre quem nunca se escreveram todos os detalhes.”

Na saga de um boxeur que se tornou no melhor atleta da sua geração, que participou nos Jogos Olímpicos de Berlim em 1936 e a partir daí se revoltou contra o nazismo - ao ponto de pagar a sua resistência com a vida - cabe então uma audacidade sem fronteiras. O pequeno Luxemburgo produziu um símbolo de coragem que é global. E, como diz o seu neto, “é mais que tempo do mundo conhecê-lo.”

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Um soco no destino
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Na primavera de 1908, Rumelange fervia. Todas as semanas, a pequena cidade do sudoeste do Luxemburgo recebia novos trabalhadores italianos e polacos que chegavam para trabalhar nas minas de ferro – uma indústria que crescia ao mesmo ritmo que ferrovias no continente: rápida. Mathias e Catherine Toussaint tinham anos antes aberto um pequeno café que agora crescera e se tornara em mercearia. Quando Ernest nasceu, a 6 de março, o negócio fluía e o futuro parecia promissor.

A ocupação alemã durante a Grande Guerra de 1914/18 baralhou as contas à família. A falta de importações atirou o país inteiro para uma crise alimentar – o racionamento de comida foi decretado e o negócio dos Toussaint quase fechou portas.

Quando o conflito terminou, Ernest tinha apenas 10 anos. Os soldados norte-americanos entraram precisamente pelo sudoeste do país para libertar o Luxemburgo e não só trouxeram com eles uma nova esperança como também um desporto desconhecido que haveria de mudar a vida do rapaz.

A equipa de boxe do Rumelange, com Ernest Toussaint (segundo a contar da direita)
Arquivo pessoal da família Toussaint

“Nesse tempo estavam muito em voga o futebol, o atletismo e a esgrima, mas eram desportos praticados pelas elites. Tinham um cunho definitivamente aristocrático e por isso nem toda a gente se envolvia”, diz Pierre Back, que foi presidente da federação do boxe luxemburguês durante 20 anos e autor do livro “O Boxe no Gão-Ducado do Luxemburgo”.

“Mas então chegaram aqueles rapazes do outro lado do Atlântico, miúdos simples que toda a gente aclamava e via como heróis. Combatiam na rua e ganharam imediatamente uma legião de seguidores, sobretudo nos miúdos mais novos das classes trabalhadoras. Entre eles, estava Toussaint.”

Aos 14 anos, Ernest começou a trabalhar numa padaria do centro da cidade, noites a amassar pão e madrugadas de volta dos fornos. “A minha avó sempre me disse que ele odiava aquilo, porque já nessa altura gostava de boxe e à hora que os amigos praticavam ia ele para o expediente”, conta Fernand. Ao fim de dois anos, em 1924, encontrou posto na mina de ferro.

 Tinha-se tornado um rapaz corpulento e difícil de bater na pancadaria. Quando nesse ano abriu o Boxing Club de Rumelange Touissant já se mostrava promissor. “Convidaram-no para vir treinar no clube e ele aceitou logo. Sem reservas.”

A partir daí a sua vida passou a centrar-se toda em torno do desporto. “Um grupo de rapazes que tinham estudado em Paris tinham trazido a moda dos combates nos salões. Na segunda metade da década de 1920 havia torneios que juntavam cinco mil espetadores e isso criou um núcleo de boxeurs que atuavam quase todos os fins de semana”, diz Pierre Back.

“Seriam no total uns 50 rapazes, que primeiro viajavam por todo o país e depois começaram a participar em combates no estrangeiro. Ganhavam uns trocos e isso dava-lhes jeito. Toussaint era peso-pesado e um dos melhores de sempre, muito rapidamente tornou-se um fenómeno.”

A vida na mina era dura para um atleta, os homens que andavam ao minério perdiam o fôlego mais rapidamente. Então foram os seus treinadores em Rumelange que lhe arranjaram novo ofício. “Em 1926, assim que atingiu a maioridade, o meu avô mudou-se para Differdange e começou a trabalhar na fábrica da siderurgia da HADIR [Sociedade das Grandes Fornalhas de Aço de Differdange]. Tinha um orgulho incrível de trabalhar no forno Pits, onde o aço era arrefecido”, diz Fernand.

Pierre Back, autor do livro "O boxe no Grão-Ducado do Luxemburgo"
Pierre Back, autor do livro "O boxe no Grão-Ducado do Luxemburgo"
Foto: Chris Karaba

Fazia o primeiro turno, à tarde corria pelas ruas da cidade e uma vez por semana rumava a Rumelange para os treinos. Aos poucos começaram a chover os convites para lutar. No arquivo que guarda em casa, Pierre Back tem inúmeros cartazes dos combates que Toussaint travou em França, Alemanha e Bélgica. Até aos Jogos Olímpicos de Berlim, a sua vida seria sempre esta.

Poucos meses depois de chegar a Differdange, Ernest cruzou-se na rua com Hélène, uma beldade dois anos mais velha que ele. Tinha nascido na Bélgica, numa casa onde sobrava carência, e vira-se na condição de partir para o Luxemburgo para servir em casa de uma das mais abastadas famílias da cidade, os Wester.

“Hélène contou-me muitas vezes como os pais de Ernest eram contra o casamento”, conta Anne-Maire Toussaint, a mulher de Fernand. “Porque causa da idade e da condição económica. Mas em 1927 ela deu à luz o primeiro filho, Jules. Dois meses depois, já não havia remédio: casaram-se.”

Fernand é filho de René, o segundo descendente do casal, que nasceu em 1930. Foi entre o nascimento das duas crianças que a carreira desportiva de Ernest explodiu definitivamente: Toussaint tornar-se-ia o campeão luxemburguês de pesos-pesados em 1928, posição que ocuparia nos oito anos seguintes. Aos fins de semana viajava para fora do país e somava vitórias.

Ernest e Hélène no dia do seu casamento
Ernest e Hélène no dia do seu casamento
Arquivo pessoal da família Toussaint

 Em 1935, alcançou uma das suas coroas de glória, batendo por KO o campeão alemão ao terceiro round, no torneiro pré-olímpico. “Não há dúvidas”, diz Pierre Back, “foi o melhor boxeur da sua geração.”

Até aos Jogos Olímpicos de 1936, a vida dos Toussaint corria tranquila. “Hélène deixou de trabalhar fora e agora tingia roupas na lixívia, em casa”, diz Anne-Marie. “E claro que os rapazes cresceram a ver no pai um herói, para eles era o homem mais forte do mundo. Quando regressou de Berlim, no entanto, Ernest estava mudado.”

Tinha feito o que nunca nenhum boxeur luxemburguês alguma vez conseguira. Não só ganharia por pontos a um dos favoritos da competição, o austríaco Karl Luntz, como atingiria os oitavos de final – perdendo para o norueguês Erling Nielsen, eventual medalha de bronze. Mas dentro de si crescia agora uma nova luta, que já não passava pelos ringues. O seu neto cita o que ouviu a avó dizer centenas de vezes. “Depois de ver o Fuhrer, ele percebeu que só lhe restava resistir.”

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Cair de pé
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Espanha não só não tinha participado nos Jogos de Berlim como decidira organizar a sua própria competição internacional para desafiar Hitler. Mas a Olimpíada Popular que os republicanos espanhóis montaram em Barcelona nunca chegou a acontecer, porque dias antes da abertura eclodia a Guerra Civil. Quando regressou a Differdange, Ernest Touissant foi recebido pelos colegas na fábrica como um verdadeiro herói. Mas ele trazia já outra ideia. Desviou-se dos elogios e pediu ajuda aos mais próximos: “Temos de apoiar os republicanos espanhóis. Temos de arranjar maneira de lutar contra os fascistas.”

É precisamente de setembro de 1936 que o Partido Comunista Luxemburguês (KPL) guarda os primeiros registos da atividade política de Ernest Toussaint. “Ele não era membro do Partido, mas nesta altura estávamos a preparar grupos de apoio para Espanha e somos surpreendidos por este operário que decide por sua conta recolher fundos para a causa”, conta agora Ali Ruckert, que investigou em sete volumes a história do partido e ocupa a cadeira de secretário-geral do KPL.

“E verdade é que há relatos de que era um dos elementos mais ativos. Mesmo que não fosse militante, Toussaint passou a ser um nome importantíssimo em Differdange, terra proletária que se tornaria uma base essencial da resistência ao nazismo.”

Ernest (segundo a contar da direita) com a sua equipa do forno Pits, na siderurgia de Differdange
Arquivo pessoal da família Toussaint

É também nesta altura que a Grande Depressão atinge o Luxemburgo em cheio – e a indústria siderúrgica em particular. “Os horários de trabalho estendem-se para as 16 horas diárias, muitos homens, sobretudo os estrangeiros, são despedidos, e sucedem-se as manifestações no centro da cidade.” Ernest torna-se um dos cabecilhas dos protestos, exigindo as 40 horas de trabalho semanais.

“No final de 1936, e pressionado por Hitler, o governo decide convocar um referendo para ilegalizar o KPL”, conta Ruckert. “Toussaint era aquilo a que podemos chamar um pensador livre, tem fortes valores democráticos e decide envolver-se na campanha. Nas urnas, o povo aprova com 50,2 por cento a continuidade do partido comunista. Em Differdange, o resultado é de 80 por cento.”

Nos anos seguintes, o KPL adivinha a invasão alemã e começa a preparar a passagem de alguns elementos à clandestinidade. “O meu avô deixa então o boxe e inscreve-se no futebol, que mais tarde percebemos ser uma certa fachada para as reuniões dos elementos da resistência”, diz agora Fernand. “Quer dizer, eles davam uns toques de bola, sem dúvida que davam, mas era depois dos treinos, nos balneários, que se programavam muitas das ações.”

Não eram raras as vezes em que Hélène encontrava jornais contestatários no saco da roupa suja. Nada dizia e, quando eles desapareciam no dia seguinte, ela sabia que o marido os havia distribuído pelos trabalhadores da fábrica.

Em 1940 há já uma plena consciência no país de que o Luxemburgo pode ser invadido a qualquer momento. Organizam-se brigadas da guarda civil para vigiar as fronteiras e evacuar os cidadãos e Ernest Touissant lidera as hostes em Differdange. “O Exército ofereceu pouca ou nenhuma resistência”, diz Frank Schroeder, historiador e diretor do Museu Nacional da Resistência, em Esch-sur-Alzette.

“Tanto que os alemães entram no país às quatro da manhã e ao meio dia a capital está tomada. Meses depois, em julho, a Alemanha deixa claro que a ocupação do Luxemburgo não é só uma ocupação, mas uma anexação.” O país fundir-se-ia então por decreto no império de Hitler, independentemente da vontade dos seus cidadãos.

Nas cidades do sul, na manhã da invasão, a população tenta fugir mas a vê-se rodeada pelas tropas nazis. “O meu avô organiza uma fuga para Wiltz, no norte do país, onde os ânimos estavam mais calmos”, atira Fernand Toussaint. “E lá permanece uma semana com a família numa quinta.” De regresso a Differdange, vê oficiais alemães tomarem conta dos gabinetes da fábrica e exigirem o aumento da produção. A contestação é agora pronunciada em surdina.

“Ernest Toussaint passa oficialmente à clandestinidade em 10 de setembro de 1940, mas nunca chega a ter cartão de militante comunista”, diz o secretário-geral do KPL. “Começa na fábrica a tentar desacelerar a produção, boicotando com o atraso as intenções nazis e, a partir de 1941, é responsável pela distribuição dos panfletos entre os trabalhadores.”

A germanização do país avança com a colaboração das autoridades locais e Berlim prepara para outubro uma consulta popular onde pergunta qual a sua nacionalidade, origem étnica e língua dos luxemburgueses. Em Differdange, Toussaint distribui um panfleto apelando a que as pessoas respondam “Três vezes Luxemburgo”, uma forma de resistência passiva. “Percebendo as ações de resistência comunista, e com a guerra declarada à União Soviética desde 22 de junho, a Alemanha começa a desenvolver uma perseguição sem precedentes aos militantes, detendo dezenas de pessoas”, diz Ali Ruckert. “Toussaint só não é apanhado porque nunca se inscreveu oficialmente na organização.”

Depois da guerra, Toussaint seria condecorado a título póstumo pela grâ-duquesa Charlotte
Depois da guerra, Toussaint seria condecorado a título póstumo pela grâ-duquesa Charlotte
Arquivo pessoal da família Toussaint

A 30 de agosto de 1942, o governo pró-nazi anuncia a incoporação de todos os jovens luxemburgueses do sexo masculino nascidos entre 1920 e 1927 na Wermacht, as forças armadas alemãs. “No dia seguinte, em Wiltz, desponta uma greve que rapidamente se espalha ao resto do país”, conta Schoeder, o historiador. “Não era uma organização massiva, mas pequenos focos que foram crescendo um pouco por toda a parte e se revelam particularmente expressivos em Differdange, onde os alemães queriam acelerar a produção de aço para produzir armamento para a Frente Oriental.”

A 31 de agosto a Gestapo dois dos cabecilhas de Wiltz são presos e sentenciados à morte – são executados a 2 de setembro em Hinzert, notícia que se espalha rapidamente pelo país. Nessa mesma manhã, 156 trabalhadores recusam-se a cumprir o seu turno na fábrica de Differdange – e quando a Gestapo anuncia que os que faltarem ao serviço serão mortos, a maioria volta aos postos de trabalho. Entre os 50 resistentes está Ernest Toussaint, que decide organizar um piquete à tarde para convencer os que iam entrar de serviço a não trabalharem.

“Na manhã de dia 3 de setembro, já depois de o meu tio Jules e o meu pai René terem ido para a escola, os oficiais da Gestapo entram na casa da família, no número 21 da rua de Esch, e prendem o meu avô”, conta Fernand. Ernest, então com 33 anos, é levado para a capital e presente a um tribunal de excepção, o Standgericht. Ali, o líder da Gestapo no Luxemburgo, Fritz Hartmann, condena Toussaint e oito outros homens à morte por fuzilamento “por colocarem em perigo a construção alemã no Luxemburgo ao promoverem uma greve rebelde em pleno período de guerra.”

Um dos dormitórios de Hinzert, o campo de concentraçâo onde Toussaint foi morto
Um dos dormitórios de Hinzert, o campo de concentraçâo onde Toussaint foi morto
Museu Nacional da Resistência

Ao final da tarde, os nove homens foram conduzidos de camião ao campo de concentração de Hinzert, chegaram ia a noite já cerrada. Nenhum deles veria o nascer do dia seguinte. Hélène, na manhã de dia 4, correu para a capital à procura do marido. “Quando estava a chegar à Villa Pauli, sede da Gestapo, viu agentes das SS colarem cartazes nas colunas da rua anunciando que Ernest e oito outros resistentes tinham sido executados nessa madrugada”, conta Fernand. Na escola, um colega que passara por um dos anúncios contava a René que o seu pai tinha sido morto. Os Toussaint, no entanto, mal tiveram tempo de chorar a morte de Ernest. Agora esperava-os a deportação.

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O processo 071
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Quando os agentes da Gestapo vieram buscar Ernest Toussaint, Hélène fugiu imediatamente para casa da irmã Catherine, que morava uns quarteirões à frente, também em Differdange. “Foi ela que foi buscar o meu pai e o meu tio à escola. E depois, nessa mesma noite, as duas voltaram à habitação na rua de Esch para ir buscar algumas roupas e fotografias”, diz Fernand Toussaint, mostrando uma caixa onde estão guardados retratos do seu avô. Memórias de anos felizes, um tesouro que sobreviveu à infâmia.

O caminho trilhado pela família depois da execução de Ernest é longo. Nos arquivos do Serviço de Memória da II Guerra Mundial encontra-se o número do processo de Hélène, Jules e René – está registado com o número 071 e indica que foram deportados da estação de comboios de Hollerich a 26 de setembro de 1942 para o campo de trabalho de Leubus, no que é hoje a Silésia polaca. Nos arquivos nacionais está o resto da história. Os Toussaint só regressariam ao Luxemburgo depois do final da Guerra, a 26 de maio de 1945, tendo passado por outros três campos: Biechwitz, Triebnitz e Göttingen.

Ernest, Hélène, Jules e René. A mulher e os filhos seriam deportados semanas depois do fuzilamento
Arquivo pessoal da família Toussaint

“Não podemos confundir estes campos de trabalho com os de concentração”, diz Daniel Bousser, o historiador responsável pelo Memorial da Deportação em Hollerich. “É verdade que havia muita fome, trabalhos forçados e uma tentativa psicologicamente violenta de reeducar estas pessoas para o nacionalismo alemão. Mas, ao mesmo tempo, as famílias viviam juntas nos mesmos pavilhões e podiam corresponder-se com o exterior.”

René haveria de contar ao filho estes tempos e, apesar da violência a que estava sujeito, houve momentos divertidos. “O meu pai tinha 12 anos e o meu tio Jules 15. Muitas vezes contavam como roubaram o barco do comandante do campo para ir dar uma volta no lago”, conta Fernand. “Felizmente não foram apanhados, porque senão as consequências teriam sido graves.” Os rapazes trabalhavam nas fábricas e campos agrícolas à volta dos campos. Hélène tornar-se-ia ironicamente bate-chapas numa siderurgia da Silésia.

O cartaz que anuncia a execução de Toussaint foi espalhado pela Gestapo em todo o país
O cartaz que anuncia a execução de Toussaint foi espalhado pela Gestapo em todo o país
Museu Nacional da Resistência

Ao fim de 33 meses deportados, quando voltaram a casa, os Toussaint percebem que uma família alemã proveniente da Roménia se tinha instalado no número 21 da rua de Esch. “Hélène ficou furiosa e não descansou enquanto não partiram. Entretanto ficaram instalados em casa de um amigo de Ernest, Nicolas Klein. E tiveram sempre muito apoio de toda a gente”, conta Anne-Marie. Aos olhos do povo de Differdange, Ernest, o herói do boxe, convertera-se em herói da resistência.

Assim que voltou a casa, Jules inscreveu-se no exército – queria defender o Luxemburgo de quaisquer ameaças exteriores. Ao cabo de uns anos tornou-se comissário da polícia em Esch-sur-Alzette. Morreu em 1991 – dois anos depois da mãe, Hélène. René foi trabalhar para a mesma fábrica de Differdange onde o pai organizara a resistência os nazis. Em 1956, foi com um amigo a um baile de máscaras em Obscheid e conheceu um rapariga vestida de dominó chamada Marie-Josée, com quem casaria nesse mesmo ano. Fernand nasceu em 1957 e seguiu as pisadas da fmília, tendo-se tornado trabalhador na siderurgia.

Nos anos depois da Guerra, Ernest seria homenageado várias vezes. A Grã-Duquesa Charlotte condecorá-lo-ia post-mortem e o seu clube de boxe em Rumelange organizaria a partir de 1948 um torneio com o seu nome, cujo troféu é uma taça onde, no centro de uma salva de cobre, está impressa uma luva a destruir uma suástica – o primeiro foi ganho por Jules, tanto ele como René praticaram o desporto que levou o pai a Berlim.

A única memória que sobra hoje de Toussaint é esta caixa com fotografias que Hélène escondeu da Gestapo
A única memória que sobra hoje de Toussaint é esta caixa com fotografias que Hélène escondeu da Gestapo
Foto: Guy Wolff

Se Jules se tornou com os anos um homem reservado, René envolver-se-ia ativamente na luta política, participando nos movimentos sindicais que exigiam que os pensionistas recebessem cinco sextos dos salários quando atingissem a reforma. Foi daqui que nasceu o ADR, partido conservador e de cariz nacionalista. Curiosamente, e apesar da vocação esquerdista do pai, René Toussaint seria candidato por Differdange da ADR no final dos anos 1980. Morreu em 2014, na mesma casa onde nasceu.

 Nos memoriais à resistência e às vítimas do nazismo, o nome de Toussaint é recorrente. Todos os anos, um cartaz com o seu rosto – e dos outros que pereceram com ele – é aberto nas galerias centrais da fábrica de aço de Differdange. E no entanto, para boa parte do mundo, a sua história permanece desconhecida. “Quando penso na subida do populismo na Europa, em fenómenos como o Brexit ou a intolerância que vemos hoje com os que pensam de forma diferente, dou por mim a pensar quão urgente é contar a vida do meu avô. Ele não foi um herói por defender os seus interesses. Ele foi um herói por lutar contra a intolerância.”