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Como o Luxemburgo se "lusificou" e se transformou num "lusoburgo"
Luxemburgo 3 min. 01.05.2022
Portugueses Felizes

Como o Luxemburgo se "lusificou" e se transformou num "lusoburgo"

Portugueses Felizes

Como o Luxemburgo se "lusificou" e se transformou num "lusoburgo"

Luxemburgo 3 min. 01.05.2022
Portugueses Felizes

Como o Luxemburgo se "lusificou" e se transformou num "lusoburgo"

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Os portugueses construíram uma forte "presença nacional" no Grão-Ducado que torna este país único na história da migração lusa. "Até o pastel de nata já faz parte da doçaria nacional", diz a investigadora Aline Schiltz.

O Luxemburgo é um país muito especial, senão mesmo único, na história da diáspora lusa. “Em números absolutos, é o país com mais portugueses” imigrados, cerca de 100 mil entre os seus 645 mil habitantes, e que se foram instalando de norte a sul, construindo uma “presença nacional”, e não apenas se concentrando em determinadas regiões, como sucede noutros países, refere Aline Schiltz, geógrafa luxemburguesa, e uma das investigadoras com mais estudos sobre a imigração portuguesa no seu país de origem. 

Basta abrir a lista telefónica do Luxemburgo que salta à vista a quantidade de apelidos portugueses, diz. E, foi assim que este pequeno país da Europa se “lusificou”, e se transformou num “lusoburgo”: “Criou-se entre Portugal e Luxemburgo um espaço transnacional, ou seja, um espaço onde as redes entre pessoas e territórios é mais importante do que a real distância geográfica”. A ligação entre Portugal e Luxemburgo, “com as riquezas e os seus desafios, é um exemplo, para a desejada Europa social e cidadania europeia”. 

Esta é uma das características deste país de acolhimento que faz com os portugueses se sintam bem, ou mesmo felizes. Mas há mais. 

A investigadora luxemburguesa Aline Schiltz trocou o Luxemburgo por Lisboa, onde reside atualmente.
A investigadora luxemburguesa Aline Schiltz trocou o Luxemburgo por Lisboa, onde reside atualmente.

Português. Uma língua viva

“No Luxemburgo preservou-se a língua portuguesa, o idioma não foi tão perdido pelas novas gerações, como por exemplo em França, onde os lusodescendentes perderam mais o português. O português, língua materna sempre continuou a ser muito falado no Grão-Ducado, uma língua viva que os portugueses utilizam no dia a dia, o que leva a uma maior proximidade de Portugal”, explica Aline Schiltz, num português perfeito, também ela inserida no tal “espaço transnacional”, já que é uma luxemburguesa a residir em Portugal. Aliás, a mobilidade entre Portugal e Luxemburgo foi o tema da sua tese de doutoramento.

Com a globalização, as viagens e as novas tecnologias de comunicação aproximam ainda mais os dois países. “Até o pastel de nata já faz parte da doçaria nacional do Grão-Ducado”, lembra a rir Aline Schiltz que já tinha realçado numa entrevista anterior que “para quem vive no Luxemburgo, somos todos também portugueses, de certa forma”. 

Esta investigadora recusa usar o conceito “integração” para falar de estrangeiros nos países de acolhimento. “Cada história de migração é única, é uma história pessoal que se vai transformando ao longo da vida, além de que podem existir migrantes felizes sem estarem “integrados”, e portugueses que se sentem “integrados”, mas não estão bem”, vinca.


O casal João e Anabela, com os filhos, Iuri, Iara e Lara são uma família portuguesa que se diz "muito feliz" no Luxemburgo.
Os Portugueses Felizes no Grão-Ducado
Portugueses que vieram para o Luxemburgo em busca de um sonho, de um trabalho ou de uma vida melhor. E que hoje voltariam a fazê-lo.

Os principais obstáculos

Hoje, como no começo da emigração lusa para o Grão-Ducado continuam a existir portugueses com vidas confortáveis, e outros com situações mais difíceis. “Nos anos 60 e 70, o Luxemburgo recebeu os emigrantes de braços abertos, precisava deles, e os portugueses saiam de Portugal onde havia muitas dificuldades”. Atualmente já não é assim.

 “No início, o país tinha menos gente e os apoios sociais para quem precisava eram mais fáceis de obter. Hoje, além do país ter muito mais imigração, existe uma forte burocratização nestas ajudas do estado o que torna o acesso mais difícil”, analisa Aline Schiltz destacando também o problema do custo de vida no Luxemburgo, sobretudo ao nível do alojamento. 

Por outro lado, “a livre circulação é por vezes uma ‘ilusão’, no sentido que não dá tantas liberdades que os migrantes poderiam esperar. Os europeus têm, efetivamente, “menos obstáculos para passar fronteiras, mas mais dificuldades em aceder aos apoios sociais” dos países de acolhimento.

Mesmo assim, o Luxemburgo continua a ser um país muito apetecível para os portugueses, sendo que atualmente o “perfil do migrante é mais variado, existe tanto mão de obra não qualificada como pessoas com qualificações superiores”, realça a investigadora. 

No final, a quem pensa emigrar para o Luxemburgo Aline Schiltz deixa um sério alerta: “É sempre importante para preparar bem a mudança de país, porque só quem tem uma situação regularizada, de trabalho e alojamento, não corre o risco de se poder vir a encontrar numa situação que, às vezes, pode ser muito complicada”.

O olhar de Aline Schiltz sobre a migração portuguesa encerra, por agora, a série de reportagens sobre "Portugueses Felizes" no Luxemburgo.  Porque muitos mais sorrisos de portugueses imigrados neste país tão especial há para mostrar.

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