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"Como é que se isolam em casa os que não têm teto?"

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"Como é que se isolam em casa os que não têm teto?"

"Como é que se isolam em casa os que não têm teto?"

"Como é que se isolam em casa os que não têm teto?"


por Ricardo J. RODRIGUES/ 20.03.2020

Fotografias: RJR

A população sem-abrigo do Luxemburgo prepara-se para o fecho dos abrigos, o condicionamento das cantinas sociais e a limitação do apoio médico. O pânico dos que se dizem entregues à sua sorte, visto do gabinete de consultas dos Médicos do Mundo.

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"Vão-nos deixar para morrer?"
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Saïd não consegue arranjar trabalho no meio de uma crise destas. O abrigo onde vive vai fechar. Resta-lhe a rua.
Saïd não consegue arranjar trabalho no meio de uma crise destas. O abrigo onde vive vai fechar. Resta-lhe a rua.

Estão dois homens sentados nas escadas de um prédio no Dernier Sol, o quarteirão de Bonnevoie onde desaguam todos os dias as desilusões da vida luxemburguesa. Têm gorros na cabeça e a roupa coçada, mais os vincos na pele de quem dorme há demasiado tempo na rua. "Chega-te para lá que não quero apanhar a doença", diz o mais velho, e o outro anui sem contestação. "Passa-me o vinho", diz passado uns segundos - e o outro estende-lhe a garrafa para que possa beber do mesmo gargalo.

Saïd, que estava sentado numa pedra do jardim, lança-se em voo de rapina sobre os dois companheiros. "Mas tu és maluco ou quê", e arranca-lhe o recipiente das mãos, "queres ficar infetado?" Na verdade Saïd não se chama Saïd, mas pede para ser chamado assim porque tem vergonha de ter caído na rua. Anda em pânico com o coronavírus e veio hoje ao Dernier Sol porque às quartas à noite há consultas gratuitas nos Médicos do Mundo. "Quero pedir gel desinfetante aos doutores. Com os cafés todos fechados como é que podemos limpar as mãos?"

Nasceu em Marrocos, cresceu em Espanha, em 2011 veio tentar ganhar a vida no Grão-Ducado e aqui trabalhou em tudo: obras, restaurantes e jardinagem. "Recebia a negro, porque não tinha papéis. No final de novembro apanhei uma gripe e tive de faltar uns dias, então fui despedido. Não consegui pagar a renda de dezembro e no início de janeiro puseram-me na rua."

O gel desinfetante que o médico Guillaume Bastin usa é cobiçado pela população sem-abrigo.
O gel desinfetante que o médico Guillaume Bastin usa é cobiçado pela população sem-abrigo.

Aguentou o frio uma noite e depois não aguentou mais, então pediu para ir dormir para o WAK, ou Wanteraktioun, o abrigo de inverno que abre em Findel nos meses do frio. Agora sente-se rato num labirinto. "O meu objetivo era encontrar emprego rapidamente, alugar um quarto, tentar sair desta vida. Mas, com o coronavirus, como é que eu arranjo trabalho?"

Está assustado. "No WAK dormimos em camas a centímetros uns dos outros e está sempre toda a gente a tossir. Mas ainda pior é que sabemos que o abrigo fecha a 31 de março. Depois disso, resta-nos a rua." Há outros frequentadores do espaço que não acreditam que as autoridades os ponham na rua no meio de uma crise sanitária. 


Luxemburgo é o terceiro país com maior taxa de casos de coronavírus
Portugal aparece a meio da tabela, cinco lugares abaixo da China.

Ao Contacto, no entanto, a porta-voz do ministério da Família, da Integração e da Grande Região, Stephanie Goerens, confirma que o WAK vai mesmo encerrar no fim do mês. "Passam a funcionar as estruturas que já existem no país para quem não tem teto." O problema é que os abrigos atuais são já insuficientes e o número de pessoas na rua tem aumentado todos os anos no país. E alguns, como Esperanza House de Bonnevoie, fecharam portas por causa da crise provocada pelo Covid-19. 

Saïd não se consola. "Tenho 40 anos, não quero morrer. Há uma pandemia global, mandam toda a gente isolar-se em casa. Mas como é que se isola em casa quem não tem teto?" Apesar de o governo do Luxemburgo assegurar que continuarão a ser distribuídas refeições, o homem sabe que as cantinas e o apoio de rua fecharam, "vêm refeições plastificadas mas não chegam a toda a gente."

Então agora está obcecado com o gel das mãos. Se não consegue controlar nada na sua vida, pode pelo menos ser senhor da sua higiene. Horas mais tarde, quando verificar que não há stock disponível, Saïd fica de coração despedaçado.  "Sei que somos a escória da sociedade. Mas também somos seres humanos. Vão deixar-nos assim para morrer?" 

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As margens da emergência
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David Pereira afixa um aviso de que as consultas presenciais estão suspensas, salvo raras exceções.
David Pereira afixa um aviso de que as consultas presenciais estão suspensas, salvo raras exceções.

O número de sem-abrigo tem crescido constantemente nos últimos anos no Luxemburgo. David Pereira, diretor de projetos dos Médicos do Mundo, dá como exemplo o número de pacientes que a organização tem recebido todos os anos. "Aqui apoiamos gente que fica de fora do sistema de saúde, e isso também inclui imigrantes sem papéis ou pessoas que não conseguem adiantar o dinheiro das despesas médicas", diz. "Mas a maior fatia, de longe, são as pessoas que não têm teto."


Covid-19. Paula e outros heróis improváveis da quarentena
Habitualmente ignorados e mal pagos, os funcionários dos supermercados colocam-se na primeira linha do risco de contágio para que o resto dos cidadãos possa comer. Viagem ao Primavera, o decano dos mercados portugueses no Luxemburgo, para ouvir Paula, São, Xana, Nélia e Irene, heroínas do nosso tempo.

Em 2018 a associação apoiou 815 pacientes, em 2019 foram 870 - a tendência é sempre de aumento. "Os custos da habitação no Luxemburgo empurram cada vez mais gente para a rua", diz Jean Bottu, o presidente dos Médicos do Mundo. "Quando há uma situação de emergência como vivemos hoje por causa do coronavírus, há um discurso do governo que tenta proteger as pessoas de risco. Tenta-se proteger os cidadãos com maior idade e todos os que têm condições físicas preocupantes, mas depois ignora-se completamente um dos maiores grupos de risco."

Depois de a organização emitir um comunicado de imprensa apelando às autoridades que abrissem as portas a quem não está coletado, o governo reagiu. "Se estiverem infetados ou precisarem de ficar em quarentena, mesmo os que não têm papéis poderão ficar nas novas Maisons Médicales que o Grão está a criar na capital, em Esch e no norte do país", assegurou-nos Stephanie Goerens.

Débora não tem papéis mas está grávida de oito meses. Teve de arriscar ser infetada e veio à consulta dos Médicos do Mundo. No hospital não a recebem.
Débora não tem papéis mas está grávida de oito meses. Teve de arriscar ser infetada e veio à consulta dos Médicos do Mundo. No hospital não a recebem.

"São muito boas notícias, claro", disse o presidente dos Médicos do Mundo. "Pelo menos o tratamento fica assegurado e a nossa luta era que se tratasse toda a gente." Mas Jean Bottu mostra-se ainda preocupado. Não há mecanismos de deteção para estas populações, nem a preocupação de prestar informação a quem vive ao ar livre. "Quando se tentam interromper as cadeias de contágio, não se pode deixar um grupo inteiro no escuro, que vai potencialmente infetar ou ser infetado."

Desde que foi declarada a pandemia, os números de pacientes que se dirigem aos Médicos do Mundo desceram. "Acreito que eles próprios tenham medo de apanhar coronavírus", diz David Pereira, e di-lo com um ar preocupado. "Há tanta gente nas ruas que sofre de doenças crónicas que devíamos estar sempre em cima deles. Agora, no entanto, só aparecem os casos agudos."

Como Débora, que está grávida de oito meses e veio hoje à consulta. Chegou há duas semanas ao Luxemburgo, ainda não tem trabalho nem papéis, mas está quase a ter um bebé e não sabe o que fazer. "Fui ao hospital em Kirchberg, como não estou legal tenho de pagar 3.000 euros pelo parto. Mas está tudo fechado, como é que eu me legalizo?"

Nos Médicos do Mundo prometem pô-la em contacto com uma assistente social, mandam-na para casa, que não saia para não colocar a saúde em risco. Está a chegar ao fim a tarde de quarta-feira quando começam as consultas. Dezena e meia de homens juntam-se à porta dos Médicos do Mundo, como Saïd que quer gel desinfetante. A maioria nunca chegará a entrar no consultório.

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O aperto médico
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O enfermeiro Serge Depotter (de pé) e Guillaume Bastin, médico, são dos poucos que continuam a atender pacientes.
O enfermeiro Serge Depotter (de pé) e Guillaume Bastin, médico, são dos poucos que continuam a atender pacientes.

Na noite de quarta feira os Médicos do Mundo puseram em ação o seu plano de contigência para lidar com o Covid-19. "Mandámos 80% dos nossos voluntários para casa porque têm mais de 65 anos. São sobretudo médicos e enfermeiros reformados. Estamos a trabalhar no limite", diz David Pereira. "As equipas de rua costumam sair à segunda feira, são o único mecanismo de deteção e informação aos sem-abrigo. Mas será difícil mantê-los com esta falta de pessoal."

Estão com um terço da equipa habitual. Guillaume Batin, o médico, não esconde a preocupação destes dias. "As doenças respiratórias são muito frequentes na população sem-abrigo, no inverno chegam a ser a causa de 70% por cento das nossas consultas." Vão ter que ser usadas medidas especiais, o risco de contágio é simplesmente demasiado grande.

David fala da janela com os utentes que procuram ajuda médica.
David fala da janela com os utentes que procuram ajuda médica.

Cá fora juntou-se uma vintena de pessoas, entre eles Débora, gravidíssima, e Saïd, que só quer o gel. David dirige-se à vitrina e afixa um papel com um número de telefone. Depois dirige-se ao primeiro piso, onde ficam os escritórios, e anuncia pela varanda que só os casos vitais serão atendidos. "Os pacientes devem mandar um sms para este número para explicar os sintomas", grita. A pequena multidão contesta: a maioria não tem saldo nem bateria no telemóvel. A técnica para manter a distância de segurança não serve todos os casos, ainda assim vão caindo alguns sms. Um deles pergunta se hoje não servem café com leite.

Serge, o enfermeiro, entra em ação afoito. Tem 61 anos, 40 de experiência no ofício, muitas campanhas fora do país. "Em 1985 apanhei três epidemias de seguida: primeiro cólera, depois varicela e a seguir raiva. Morreram centenas de pessoas." Põe por isso as coisas em perspetiva: "Os milhões que morrem de fome e doenças em África passam-nos ao lado, mas quando chega uma pandemia à Europa a sociedade entra em pânico. Vamos com calma que isto não é o fim do mundo."


Covid-19. Habitantes de cidades poluídas correm mais riscos
Aliança Europeia de Saúde Pública invoca estudo sobre vítimas do coronavírus SARS [síndrome respiratória aguda grave], que concluiu que “os pacientes em regiões em níveis de poluição do ar moderados tinham 84% mais possibilidades de morrer do que aqueles em regiões com pouca poluição do ar”.

Sai para a rua, alguns homens estão irritados porque não os deixam entrar. "Estão todos muito preocupados com o coronavirus, isso é certo", e foge para o gabinete do doutor Guillaume, pede-lhe que avie receitas de medicamentos e lá vai Serge à rua entregá-las. Nunca tira a máscara, a cada entrada e saída desinfeta as mãos.

A Débora dá autorização de entrada, ia lá deixar uma grávida na rua. Depois também entra Roman, que chegou de Bucareste há oito anos e anda na rua ao mesmo tempo. Tem o fígado feito num oito, precisa de remédios para aguentar os dias, e no entanto o seu medo maior é outro. "Custa-me muito a andar, não sei como vou buscar comida e procurar abrigo agora que está tudo condicionado."

"O Luxemburgo nunca olhou para mim. Pode ser que o vírus também passe e não me apanhe", diz Romain

Junta as mãos como se rezasse, há de gastar meio depósito de gel desinfetante antes de sair, como se isso prolongasse a proteção. E depois, quando chega à rua, atira só isto. "O Luxemburgo passou todos estes anos a esquecer-se de mim. Pode bem ser que o vírus também passe e não me apanhe."

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