Escolha as suas informações

Comissário diz que luxemburguês "não está suficientemente desenvolvido" para escolarizar crianças
Luxemburgo 14 min. 03.04.2019 Do nosso arquivo online

Comissário diz que luxemburguês "não está suficientemente desenvolvido" para escolarizar crianças

Marc Barthelemy é a primeira pessoa a ocupar o recém-criado cargo de comissário para a língua luxemburguesa.

Comissário diz que luxemburguês "não está suficientemente desenvolvido" para escolarizar crianças

Marc Barthelemy é a primeira pessoa a ocupar o recém-criado cargo de comissário para a língua luxemburguesa.
Foto: Anouk Antony
Luxemburgo 14 min. 03.04.2019 Do nosso arquivo online

Comissário diz que luxemburguês "não está suficientemente desenvolvido" para escolarizar crianças

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
Marc Barthelemy foi nomeado comissário para a língua luxemburguesa em outubro e tem como missão preparar um plano para promover o idioma nos próximos 20 anos. Mas, para já, mostra-se céptico quanto à possibilidade de que a língua que defende esteja "suficientemente desenvolvida" para ser o idioma de alfabetização. Ao Contacto, falou da importância das outras duas línguas para preservar o papel central do Luxemburgo na Europa e defendeu que o português devia ser mais valorizado no país.

Quando foi nomeado para este cargo, em outubro, disse ao Contacto que as pessoas não aprendem luxemburguês por amor. Por que razão aprendem, então?

Para trabalhar no Luxemburgo, porque alguns residentes no país constatam que o domínio do luxemburguês é uma vantagem no mercado de trabalho, em alguns setores, pelo menos. E outros querem obter a nacionalidade luxemburguesa, e é preciso competências na língua luxemburguesa para o conseguir.

Há uma grande procura dos cursos.

Sim, há uma grande procura. Há milhares de pessoas que todos os anos aprendem luxemburguês, e temos problemas para encontrar professores suficientes para garantir estes cursos.

Não é só um problema de escassez de professores. Segundo disse ao Wort esta semana, há dificuldades também para ensinar luxemburguês como língua estrangeira.

Sim, porque não é uma tradição, para nós. Para começar, tradicionalmente, não se considerava o luxemburguês como uma língua. É só desde há cerca de trinta anos que é reconhecida oficialmente como língua, e só há uma consciência do luxemburguês como língua diferente das outras desde a Segunda Guerra Mundial. E tradicionalmente os estrangeiros que vinham para o Luxemburgo, sobretudo as crianças, aprendiam luxemburguês na escola, com o contacto com os colegas. O que não é o caso agora.

O ministro da Educação prometeu que passaria a haver aulas de luxemburguês nas escolas.

Sim, tradicionalmente não tínhamos necessidade de cursos para aprender luxemburguês nas escolas, mas desde há algum tempo constatamos que em muitas escolas primárias a percentagem de alunos que falam luxemburguês é muito baixa, e deixou de haver esta aprendizagem automática do luxemburguês. Por isso, é preciso prever um ensino tradicional, escolar, que de resto é mais difícil, ensinando luxemburguês como língua estrangeira. Fazemo-lo há cerca de 20, 25 anos, e desenvolvemos material didático para vários níveis de aprendizagem, porque claro que os cursos não são os mesmos para as crianças e os adultos.

Estes cursos de luxemburguês escrito são facultativos. Continua a haver este paradoxo: os adultos têm de aprender a língua para aceder à Função Pública, obter a nacionalidade e ter cargos na vida política, mas as crianças não têm aulas da língua de maneira sistemática.

São dois aspetos diferentes. Não precisamos de saber escrever uma língua para a dominar. A grande maioria das línguas no mundo não são escritas, e o luxemburguês nunca foi escrito, ou era pouco escrito, antes dos últimos dez anos. Por isso, não temos necessidade de saber escrever luxemburguês para termos um domínio da língua – de resto, os luxemburgueses sabem-no muito bem, porque a grande maioria, ainda hoje em dia, não o sabe escrever. Por isso a ideia é que todas as crianças aprendam luxemburguês como língua de comunicação…

Sem aulas?

Não, agora há um ensino de luxemburguês, sobretudo no primeiro ciclo [pré-escolar], mas também nos anos seguintes é possível fazer um acompanhamento das crianças com dificuldades. Mas, por agora, a ideia é que no ciclo 1 as crianças aprendam luxemburguês como língua de comunicação. Quanto a escrevê-lo, não temos intenção de criar uma disciplina na escola, mas o que fazemos é, para dar resposta às queixas dos jovens que deixam o sistema escolar, e que dizem: “nunca tivemos oportunidade de aprender luxemburguês como língua escrita”, propomos um curso de aprendizagem de ortografia e gramática para as turmas superiores do secundário, opcionais. São cursos certificados mas que não contam para a avaliação.

Não temos nem os recursos, nem os materiais necessários [para alfabetizar os alunos em luxemburguês], e a língua não está realmente suficientemente desenvolvida.”

O sócio-linguista Fernand Fehlen dizia que o luxemburguês era marginalizado mesmo no sistema escolar: é a língua de comunicação, mas não se ensina. Quando metade dos alunos não fala luxemburguês como língua materna, o facto de não haver cursos na primária, mesmo se há alguma familiarização nas creches, não prejudica os estrangeiros?

Em relação à língua materna, substituímos o conceito de língua materna pelo conceito de primeira língua, falada por toda a família, que muitas vezes não é a língua da mãe, mas a do pai, porque há várias línguas faladas em casa. Constatámos que a percentagem de crianças que têm luxemburguês como primeira língua baixou de dois terços para um terço, de 1990 até 2010. Mas isso não significa que os outros dois terços não falem luxemburguês. Há muitas crianças que falam francês com os dois pais, mas que, com a mãe, por exemplo, falam luxemburguês, ou vice-versa. Por isso, metade das crianças que chegam à escola falam luxemburguês de forma correta. Mas é verdade que há muitos alunos que não falam luxemburguês, e o grande problema na escola primária é que não há uma repartição uniforme em todas as escolas. Em algumas só há praticamente alunos que falam luxemburguês e noutras nenhum, o que está ligado à proveniência social destes alunos, que determina a localização da família.

Depois, historicamente, o luxemburguês não era considerado uma língua. Ao longo do século XIX, quando o Luxemburgo fez a escolha, mesmo após a perda dos territórios francófonos, de manter o francês como língua escolar, com o alemão, o luxemburguês não era reconhecido como língua. Em 1912 o luxemburguês foi introduzido na escola, mas não como língua luxemburguesa. Foi só muito mais tarde que a língua ganhou peso nas nossas escolas, em 1979, com a grande reforma escolar.

Quanto à influência do défice de conhecimentos do luxemburguês no insucesso escolar, não sabemos. O problema é que, para os alunos, há muitas vezes vários fatores que se sobrepõem: não falam luxemburguês, têm outra nacionalidade e sobretudo outra proveniência social. E frequentemente chegaram mais velhos ao país. Há muitos fatores que influenciam o sucesso escolar e é difícil isolar a influência das competências em luxemburguês. Mas é um dos pedidos que já formulei ao ministro da Educação Nacional: que é preciso questionar a influência de saber falar bem ou não luxemburguês no percurso escolar. Por enquanto não temos ideia.

Foto: Anouk Antony

A pessoa que o substituiu no Conselho Permanente da Língua Luxemburguesa defendeu hoje em entrevista à Rádio Latina que idealmente o luxemburguês devia ser a língua de alfabetização, até para evitar o facto de as crianças aprenderem luxemburguês na creche e depois chegarem à primária e terem de aprender a escrever em alemão, uma língua que nunca ouviram, mas disse que a língua luxemburguesa ainda não estava suficientemente desenvolvida para isso e não havia recursos suficientes para o fazer. Partilha desta opinião?

Estou de acordo que não temos nem os recursos em termos de pessoal, nem os materiais necessários, e a língua não está realmente suficientemente desenvolvida. Não temos uma gramática completa. O dicionário de luxemburguês não está completo e mesmo a ortografia não está completa. O Conselho Permanente da Língua Luxemburguesa está a trabalhar num dispositivo regulamentar para a ortografia. A questão da alfabetização em luxemburguês é complicada, significaria ensiná-los a escrever e a ler numa língua que, por enquanto, não tem uma grande difusão escrita. Não há muitos documentos escritos em luxemburguês. Há um risco de nos fecharmos no armário com esta opção, e o Luxemburgo aproveitou sempre a sua situação geográfica e o facto de os estudantes terem muito boas competências em alemão e francês – os luxemburgueses mais em alemão, os romanófonos mais em francês. E isso é uma vantagem, porque podem ir para o estrangeiro estudar ou trabalhar. E também é útil para o país, porque não é por acaso que o Luxemburgo ocupa uma posição no centro da política europeia, não apenas geograficamente, mas também pelos seus funcionários e políticos, e penso que se deve a esta mentalidade dos luxemburgueses, que se sentem germanófonos e francófonos. Penso que é um aspeto importante que não se deve perder, e eu, pessoalmente, sou cético quanto a alfabetizar em luxemburguês.

Há um risco de nos fecharmos no armário.

Juncker ironizava, dizendo que conseguia ser incompreensível tanto em alemão como em francês. Após o referendo houve uma petição a defender que o luxemburguês devia ser a primeira língua do país. E ouvimos os políticos defender “a língua”, como se houvesse só uma. Qual é o estatuto do francês e do alemão? Há, não só uma história de utilização destas línguas, mas também uma cultura – os escritores mais conhecidos do Luxemburgo, Anise Koltz e Jean Portante, escrevem em francês, não escrevem numa língua estrangeira.

Não, certamente que não. O francês não é uma língua estrangeira no Luxemburgo. Aprendemo-lo como língua estrangeira, mas não podemos dizer que o seja: é uma das três línguas do país. Há uma lei que regulamenta o estatuto das línguas no país, e é muito equilibrada e clara: evitou-se o termo “oficial”, mas diz que são as três línguas usadas na administração, e por isso, são oficiais. Duas têm um estatuto particular. O luxemburguês tem o estatuto de língua nacional dos luxemburgueses, e não do Grão-Ducado. E o francês é a língua da legislação, por isso todos os diplomas legislativos são em francês, e a maioria do correio da administração é escrito em francês. Por isso, a língua francesa, do ponto de vista da estrutura do país, é a primeira língua. Enquanto para a comunicação é o francês e o luxemburguês, e para a imprensa era sobretudo o alemão, há trinta anos, mas desde então há cada vez mais jornais em francês e rádios em luxemburguês.

O francês era considerado a língua das elites, mas perdeu esse estatuto quando passou a ser visto como a língua dos imigrantes, nomeadamente portugueses. Há alguma francofobia no país, como admitiu o ministro da Educação numa carta aberta no Wort?

Há dois fenómenos. Primeiro, o francês perdeu algum estatuto, sobretudo do ponto de vista político, porque até aos anos 80 era a língua falada na Câmara dos Deputados. Isso mudou, porque agora fala-se luxemburguês e as atas são escritas em luxemburguês, o que ajudou bastante a desenvolver o idioma. Segundo aspeto: não é por ser falado pelos imigrantes que o francês é tão pouco apreciado pelos alunos, mas sim por causa da forma como é ensinado.

O uso do luxemburguês na política, quando se sabe que tantos estrangeiros não o falam, não converte o idioma numa língua de exclusão, em vez de língua de comunicação?

Sim, mas também é uma escolha dos estrangeiros. Eu sempre defendi que o que importa é a compreensão do luxemburguês, porque geralmente, mesmo na Função Pública, onde há estrangeiros a trabalhar que têm dificuldades em falar luxemburguês, é preciso que compreendam, mas há muitos encontros que se fazem em várias línguas, onde cada um fala uma língua mas compreende o outro. Mas quem vem viver para o Luxemburgo deve saber que para se integrar na vida do país deve compreender o luxemburguês. Falar é menos necessário. E constato que, a avaliar pela procura dos cursos, a grande maioria dos residentes tem consciência da sua importância e que é útil ter algumas noções de luxemburguês. É preciso dizer que aprender apenas a perceber uma língua – bom, é um luxemburguês que fala, habituado a falar várias línguas – não é um grande esforço.


O primeiro candidato com passaporte português a vencer eleições no Luxemburgo abdicou do cargo de burgomestre.
Crónica de uma renúncia anunciada
Em Bettendorf, a alegria com a eleição de José Vaz do Rio deu lugar à desilusão. Há quem perceba as razões do português, mas também há quem esteja arrependido de ter votado nele. E há até quem desconfie que foi pressionado para ceder o lugar – uma teoria da conspiração que o português refuta com veemência. O Contacto esteve em Bettendorf e conta-lhe como foi.

Posso dizer-lhe que é. Dou-me como exemplo porque há muitas pessoas na minha situação que têm dificuldades para aprender luxemburguês.

Ah, sim?

Sim, para uma romanófona não é fácil.

Mesmo para perceber?

Sim. E acho que não sou a exceção. Há muitos estrangeiros que desistem dos cursos porque não conseguem progredir, talvez por falta de ocasiões de o praticar: a maior parte dos estrangeiros não o usa no trabalho.

Suponho que não. Talvez fosse necessário debruçarmo-nos sobre isto. O que é preciso fazer para chegar a compreender?

O fundador do nacionalismo basco dizia que se os metecos aprendessem basco, mais valia os bascos passarem a falar russo. A língua servia inicialmente, mais do que para salvaguardar uma cultura e uma identidade, para garantir a impermeabilidade. Nas últimas autárquicas, um português ganhou as eleições mas desistiu do cargo de burgomestre por achar que não falava suficientemente bem luxemburguês. O luxemburguês não continua a ser uma língua de acesso reservado à política?

Para entrar na política, é preciso perceber luxemburguês. Não é preciso falar, porque pode-se falar francês nos conselhos comunais. O único problema é que não se pode exigir a tradução dos outros conselheiros ou deputados que falam luxemburguês para francês ou alemão. Por isso, é preciso perceber, mas não mais do que isso. Repare que é uma condição menos exigente que noutros países, porque penso que em França não seria possível falar inglês no Parlamento. No Luxemburgo, pode-se falar sem problemas as três línguas. Por isso, continuo a pensar que a barreira não é muito elevada: é só a compreensão que é exigida. Por outro lado, há uma barreira adicional: é preciso ser trilingue.

Muitos estrangeiros conseguem viver toda a vida no país sem o serem.

Sim, consegue-se viver. Depende de onde se vive. Eu digo muitas vezes que em Larochette há trilinguismo, mas é diferente: português, francês e luxemburguês. Mas todas as pessoas que encontro nas lojas, por exemplo, dialogam em português e mudam para luxemburguês com clientes luxemburgueses. E o francês está evidentemente presente. E perto da fronteira alemã, as pessoas têm dificuldades em exprimir-se em francês. Penso que este multilinguismo faz parte mesmo dos estrangeiros. Na capital, acho que a primeira língua que agora se ouve é o inglês, e começa a haver outro trilinguismo. Mas é verdade que para entrar na política e na administação pública é preciso o trilinguismo francês-alemão-luxemburguês.


Babel-sur-Alzette
A língua luxemburguesa tem sido usada muitas vezes como instrumento de exclusão: para obter a nacionalidade, para aceder à função pública, ou simplesmente para apontar o dedo aos estrangeiros, acusando-os de não estar integrados no país.

O português, então, com tantos falantes, converteu-se também numa das línguas nacionais? O Luxemburgo é membro observador da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Sim, o que é justo, porque há um terço das crianças que falam português. É certamente uma das línguas do país. Não é uma língua que tenha uma história no Luxemburgo e penso que não é suficientemente valorizada no país, porque o português é uma língua mundial, mais que o alemão e o francês. É falada por mais pessoas no mundo. Teríamos interesse em acentuar o português, mas há alguns problemas, suponho, ligados ao facto de que os portugueses que vieram para o Luxemburgo são imigrantes que não são sempre considerados como fazendo parte integrante do país. Por isso, há algumas distâncias que são tomadas. E dizer que o português é um das línguas do país provoca ecos em partidos que defendem a identidade do Luxemburgo.

Mas, para si, a identidade nacional não está ligada exclusivamente ao luxemburguês?

Durante muito tempo o italiano também fez parte da identidade do Luxemburgo, e com o tempo foi-se perdendo. Não sei se vai acontecer o mesmo com o português, mas atualmente é evidente que os portugueses e o português fazem parte da identidade deste país.


Notícias relacionadas

O Governo nomeou hoje Marc Barthelemy para o cargo de comissário para a língua luxemburguesa, a dois dias das eleições legislativas. O ainda presidente do Conselho Permanente da Língua Luxemburguesa, que vai ocupar o cargo criado pelo atual executivo, disse ao Contacto que o idioma "não está em perigo de extinção iminente" e que "nunca houve tanta gente a aprender a língua".
«La Chambre des députés est probablement l'endroit où on écrit le plus le luxembourgeois depuis ces dernières décennies».
Claude Meisch mudou o paradigma do ensino luxemburguês, com a criação de escolas europeias integradas no ensino público que oferecem a possibilidade de escolher a língua de alfabetização. A chegar ao fim do mandato, o ministro da Educação escreveu um livro para defender essa opção. Chama-se “Crianças fortes: um assunto do coração” (“Staark Kanner – Eng Häerzenssaach”, em luxemburguês), e foi o pretexto para fazer o balanço das reformas.
O ministro da Educação defende um ensino diferenciado para dar resposta aos alunos estrangeiros.
O sócio-linguista Fernand Fehlen comenta o caso de José Vaz do Rio, o português que ganhou as eleições em Bettendorf mas recusou o cargo de burgomestre. Em resposta a questões colocadas pelo Contacto por email, o sócio-linguista luxemburguês admite que "há um teto invisível" na política que impede os imigrantes de primeira geração de chegar mais alto.