Escolha as suas informações

Comerciantes do centro da capital à beira de um ataque de nervos

Comerciantes do centro da capital à beira de um ataque de nervos

Comerciantes do centro da capital à beira de um ataque de nervos

Comerciantes do centro da capital à beira de um ataque de nervos


por Álvaro CRUZ/ 11.09.2019

As obras na cidade do Luxemburgo fazem cada vez mais vítimas entre os comerciantes. Na Avenue de la Liberté sobra gente à beira da falência sem saber o que fazer. As ajudas tardam e muitos afundam-se sem soluções.

“Estou entre a espada e a parede. Nos últimos dez meses o negócio caiu drasticamente devido às obras na avenida que se arrastam sem se saber bem quando vão terminar. Chegaram mesmo a cortar-me a água e a luz por não poder pagar o aluguer. Estou desesperado e já não sei o que fazer à minha vida”, resume Alban Dakgi, proprietário do café 2Go, na Avenue de la Liberté, na cidade do Luxemburgo.

A capital foi invadida nos últimos meses por inúmeros estaleiros de obras um pouco por todo o lado e a vida dos comerciantes ressente-se, em alguns casos de forma dramática como é o caso de Alban.

Sentado numa das mesas, fixa atentamente o filho de 15 anos que atende, atrás do balcão, um dos raros clientes do dia. “Tive que despedir os dois empregados porque não lhes podia pagar”, diz, deixando cair o olhar. “O pouco dinheiro que consigo fazer nem dá para pagar a renda. Sabe o que é vir para aqui todos os dias às cinco da manhã para fazer os croissants e preparar as coisas e depois não ter clientela? Nem tenho palavras”, explica o franco-sírio de 53 anos.

Sabe o que é vir para aqui todos os dias às cinco da manhã para fazer os croissants e preparar as coisas e depois não ter clientela? Nem tenho palavras.

“Todos os comerciantes se queixam, mas as obras continuam e não há uma solução há vista. O barulho das máquinas e a poeira que anda constantemente no ar acabam por afastar as pessoas que anteriormente paravam aqui e agora deixaram de frequentar o café”, reclama.

“As mesas que tenho lá fora andam sempre a mudar de local e sujam-se com grande facilidade. Ultimamente tenho retirado a maioria delas porque não há espaço devido aos buracos que têm sido abertos no chão. A situação começa a ser insustentável”, lamenta.

Alban Dakgi mantém o café junto ao edifício sede da Arbed desde 2011, mas já equacionou ter que fechar as portas.

“Neste momento vivo dos créditos que os bancos me foram concedendo, mas agora até os cartões de créditos já me foram bloqueados. Não tenho mais direito a qualquer empréstimo porque me recusam devido às dividas que tenho acumuladas. Os fornecedores não me entregam os produtos porque há facturas por pagar. A minha vida transformou-se num inferno”, desabafa. E o seu caso está longe de ser único.

À espera de ajuda

“Fui falar com algumas pessoas da comuna, mas mandaram-me ir ter com os responsáveis da Luxtram, garantindo que temos direito a indemnizações, mas não sabemos bem quando e em que moldes. Mandaram-me elaborar um dossiê completo em duas partes para ser entregue ao Conselho de Administração que depois vai avaliar os diversos casos dos comerciantes lesados pelas obras. Estou farto e sem moral. Não sei quanto tempo vai demorar todo este processo e como as coisas vão funcionar, mas é importante que seja depressa, porque receio não poder aguentar mais esta situação por muito tempo”, garante.

Foto: Sibila Lind

Mas Alban é apenas um dos comerciantes vítima das dezenas de obras na capital que custam milhões de euros ao Estado e vão esvaziando os bolsos a quem quer trabalhar e não tem retorno. Do outro lado da rua, uma florista encontra-se também numa situação delicada. Enquanto preparava um ramo de rosas brancas para o único cliente, a filha do patrão, que preferiu manter o anonimato, lamentava-se do negócio: 

“Quando nos instalámos aqui, há dois anos, tudo corria bem, mas desde que os trabalhos começaram, as coisas complicaram-se. Normalmente, os clientes estacionavam em frente à porta e eram atentidos com relativa facilidade. Agora, isso é impossível. Até para as pessoas que circulam se torna difícil porque a passagem é muito estreita e está sempre a mudar. Estamos a perder muito dinheiro devido às obras que só estarão prontas em 2020. Não sei se aguentamos até lá. Temos encargos com os empregados e neste momento o meu pai vai tentando arranjar uns biscates para ganhar dinheiro para fazer face às despesas de aluguer, água, luz, entre outros”, precisa.

Estamos a perder muito dinheiro devido às obras que só estarão prontas em 2020. Não sei se aguentamos até lá.

Sobre as indmenizações que poderão ser atribuídas , foi pouco esclarecedora: “Sei que o meu pai preparou uma pasta com documentos para entregar a uma comissão da Luxtram, mas existem vários tipos de avaliação dos diferentes casos, como por exemplo há quanto tempo exercemos uma atividade comercial aqui, entre outras coisa. É um processo complicado”, explicou.

As vítimas mais recentes perto da gare

Os trabalhos na Avenue de la Liberté arrancaram em outubro de 2018 no sentido da ponte Adolphe em direção à gare. De um extremo ao outro da avenida os comerciantes acabaram todos por ser vítimas e os últimos a serem perturbados pelos trabalhos também já se começam a queixar da situação, como é o caso de Hugo Silva, proprietário de uma das ourivesarias Jorge Silva.

“Os trabalhos começaram nesta zona há cerca de três meses e desde então notámos que o volume de vendas baixou na ordem dos 15 a 20%. Para além do período de férias, o facto de as pessoas não poderem estacionar os carros junto ao estabelecimento acaba por afastar os clientes, sobretudo os mais ocasionais”, explica Hugo.

Foto: Sibila Lind

Sobre as indemnizações que a Luxtram poderá atribuir aos comerciantes, confessou desconhecer a situação: “Já ouvi falar, mas sinceramente ainda não estou bem ao corrente sobre o tema. Vou informar-me para me inteirar do processo e ver o que posso fazer, concluiu.

Da falta de clientes também se queixa o patrão do oculista do outro lado da rua: “Há dias, um cliente dos mais antigos ligou-me a dizer que vinha buscar os óculos dele e da mulher ao final da tarde. Mas com estes trabalhos todos e uma máquina em frente da minha porta, ele não conseguiu parar e acabou por não vir. Estamos todos a ser prejudicados porque as passagens são estreitas e ninguém consegue estacionar em lado nenhum. Alguns comerciantes já tiveram que fechar as lojas porque a situação estava insustentável. Espero que resolvam o problema o mais depressa possível, porque quanto mais tempo passar, maiores serão os danos”, diz, em tom de revolta.

Alguns comerciantes já tiveram que fechar as lojas porque a situação estava insustentável. 

Uns metros mais abaixo, encontra-se a livararia - tabacaria Liberté 56, do português Zito Gomes, que também lamenta a situação precária provocada pelos trabalhos em frente ao seu estabelecimento: “Muitos dos nossos clientes habituais continuam a vir porque fidelizamos todos eles. No entanto, a situação da esmagadora maioria dos comerciantes começa a complicar-se. Os trabalhos avançam lentamente e as perdas são significativas. Não tenho dívidas, mas os lucros são escassos. É tempo de os responsáveis governamentais e da associação dos comerciantes olharem por nós e adotarem as medidas necessárias”, concluiu.

Indemnizações da Luxtram

Em setembro de 2017 a Luxtram constituiu um comité encarregado de examinar e tratar das indemnizações aos comerciantes afetados pelos trabalhos dos troços atuais e futuros do elético nos bairros da capital.

Para reclamar uma indemnização, os comerciantes visados pelos trabalhos em curso deverão apresentar um dossiê cujos items requeridos se encontram especificados no site da Luxtram.

Instada a prestar esclarecimentos sobre o tema ao Contacto, Françoise Frieden, diretora da comunicação da Luxtram, esclereceu que as avaliações são feitas caso a caso. “Quando recebemos as informações e documentação necessárias e precisas sobre cada um dos estabelecimentos eles são avaliados por uma comissão que determinará os montantes”.

Foto: Sibila Lind

Da parte dos representantes dos comerciantes, no entanto, o que se ouve é um estranho silêncio. O nosso jornal contactou a Union Commerciale de la Ville de Luxembourg por telefone e e-mail e passou dias à espera de uma reação. Até ao fecho desta edição não recebeu qualquer resposta.

Entretanto, as obras continuam na Avenue de la Liberté e em muitas dezenas de ruas, artérias e praças da capital, prejudicando grande parte dos comerciantes.

Há lojas que fecharam e outras que lutam por permanecer de portas abertas. O desespero, no entanto, é óbvio. Burocracia e falta de esclarecimento por parte de quem governa não estão certamente a ajudar.