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Começa esta quarta-feira: Luxemburgo assume presidência da UE com a crise grega a cair-lhe nos braços
Jean Claude Juncker (esq.) Alexis Tsipras e Xavier Bettel

Começa esta quarta-feira: Luxemburgo assume presidência da UE com a crise grega a cair-lhe nos braços

AFP
Jean Claude Juncker (esq.) Alexis Tsipras e Xavier Bettel
Luxemburgo 6 min. 01.07.2015

Começa esta quarta-feira: Luxemburgo assume presidência da UE com a crise grega a cair-lhe nos braços

O Luxemburgo assume esta quarta-feira a presidência da União Europeia e corre o risco de ficar associado para sempre à saída do clube do euro de um dos seus fundadores.

O Luxemburgo assume esta quarta-feira a presidência da União Europeia e corre o risco de ficar associado para sempre à saída do clube do euro de um dos seus fundadores.

A situação na Grécia não faz parte do menu principal da presidência luxemburguesa da UE, mas o Grão-Ducado assume os destinos da União no mesmo dia em que um país membro, a Grécia, pode ficar sem acesso aos mercados e perder o programa de assistência – o que tinha terminou ontem. O país impôs controlo de capitais e está sujeito à limitação de liquidez do BCE.

“É uma situação muito delicada. Ninguém está contente com isto. Há um clima de tristeza, em relação à forma como este processo acabou por acabar. Não era o cenário que se procurava. Estávamos preparados para vários cenários, para chegar a um acordo com os gregos, mas não deu. Há uma situação de frustração”, confessa ao CONTACTO uma fonte europeia envolvida no processo.

Para a mesma fonte, resta agora que haja um volte-face na posição do governo grego sobre o referendo marcado para o próximo fim-de-semana.

“Acho que ninguém sabe o que vai acontecer. Tudo isto é gerido na base do ’hora-a-hora’, e há uma grande expectativa em saber se o governo grego vai ou não manter a sua posição no referendo do próximo domingo. No passado, eles já fizeram várias comunicações que depois não levaram a cabo”.

“O referendo está de pé”, diz ao CONTACTO Pedro Moreira, o corresponde da TVI em Bruxelas.

E contínua: “A questão é saber se o Governo grego vai até lá alinhar num acordo que lhes permita fazer campanha pelo ’sim’. Isto parece absurdo, mas ainda há esta possibilidade. Se o governo fizer campanha pelo ’não’ e o ’sim’ ganhar, há ainda uma possibilidade de negociar, mas nessa altura já sem o governo do Syriza. Há muitos líderes europeus que já não querem negociar com o Syriza. Se o ’não’ ganhar e o governo também tiver feito campanha pelo ’não’, aí as possibilidades da Grécia sair do euro são muito grandes”.

Durante as negociações com os credores, a Grécia pôs na mesa as “fichas todas”: rompeu as negociações na sexta-feira passada e convocou um referendo. Depois, o Governo grego impôs controlos de capitais e anunciou que não paga ao FMI.

Ontem, depois de Jean-Claude Juncker ter feito uma última proposta ao governo do Syriza, os gregos responderam a meio da tarde com uma outra proposta. Nada mais nada menos do que um terceiro resgate: querem a extensão do programa de assistência por dois anos, que garanta à Grécia a satisfação das necessidades de financiamento, mas sem o FMI. Atenas quer, também, negociar uma reestruturação da dívida pública. A proposta surgiu horas antes do fim do prazo para a Grécia reembolsar o Fundo Monetário Internacional (FMI) em quase 1.600 milhões de euros.

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À hora de fecho desta edição, não era conhecida a posição da Comissão Europeia (CE). O Eurogrupo tinha entretanto marcado uma reunião de urgência para discutir a proposta grega.

“O presidente Juncker joga o seu legado e a sua carreira política com o que vier a acontecer com a Grécia. E Juncker é a imagem do Luxemburgo. Uma coisa é certa: a presidência luxemburguesa vai ficar associada ao que vier a acontecer à Grécia, e tem uma responsabilidade especial. Juncker não é a presidência luxemburguesa, mas é luxemburguês. Convém lembrar que a CE tem tido um grande papel na ajuda à Grécia. Juncker, pessoalmente, tem-se comprometido com a negociação, e não lhe tem corrido bem, para já. O que eu vejo, é Juncker a ajudar a Grécia, contra o FMI e contra a Alemanha. Juncker joga aqui o seu legado na Europa, e não sei se não joga a sua carreira política, porque o presidente da CE é apoiado pelos conservadores do PPE, mas também pelos socialistas. Se não houver acordo podemos perguntar até que ponto essa base de apoio não está comprometida”, afirma Pedro Moreira ao CONTACTO.

Esta é a 12a vez que a Luxemburgo exerce a presidência rotativa da UE. A última vez foi em 2005, mas desde então, com a assinatura do Tratado de Lisboa, a Europa mudou.

“As presidências rotativas da UE perderam importância desde que foi criado o cargo de Presidente do Conselho Europeu. As presidências rotativas são praticamente sectoriais, já não se ocupam da presidência do Conselho Europeu. Mas neste contexto a presidência luxemburguesa tem uma responsabilidade especial, porque é um país do euro, e porque se a Grécia abandonar o euro, o semestre da presidência luxemburguesa vai ser dominado completamente por esse facto”, acrescenta ainda o correspondente da TVI em Bruxelas ao CONTACTO.

REFUGIADOS E COMÉRCIO INTERNACIONAL NA AGENDA

No discurso de apresentação das prioridades da presidência da União Europeia, o ministro luxemburguês dos Negócios Estrangeiros afirmou que “de uma maneira geral” a presidência luxemburguesa vai ser de “continuidade”. Asselborn destacou no entanto o tema das migrações como um dos grandes desafios da UE para os próximos seis meses. Para Pedro Moreira, o tema das migrações vai demonstrar se temos ou não uma Europa solidária.

“A Europa não aceitou uma proposta da CE para fazer uma repartição, pelo sistema de quotas, obrigatórias, dos refugiados que estão em Itália e na Grécia. A Europa vai continuar a acolher de forma voluntária os refugiados, o que na prática pode não dar em nada, porque os países podem aceitar ou não acolher imigrantes. O assunto esteve em cima da mesa quando morreram 800 imigrantes num fim-de-semana no mar Mediterrâneo, e até se fez uma cimeira extraordinária, mas a tradução prática disto? Até agora, nada”.

O correspondente da TVI em Bruxelas diz anda que a discussão do Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP, em inglês) é um dos maiores desafios da presidência luxemburguesa.

“O tratado de comércio com os Estados Unidos está a ser negociado a conta-gotas, e ainda não se percebeu o que vai acontecer, mas eu acho que é durante a presidência luxemburguesa que a questão vai ser outra vez levantada: o tratado é para ir para a frente ou não? A Comissão está a negociar com os EUA contra a opinião pública europeia, sobretudo da Alemanha, mas ainda não se percebeu se o tratado avança ou não, e essa clarificação tem de ser feita durante a presidência luxemburguesa”.

Xavier Bettel não gostou de a crise grega lhe ter caído nos braços no início da presidência luxemburguesa da UE
Xavier Bettel não gostou de a crise grega lhe ter caído nos braços no início da presidência luxemburguesa da UE
AFP

O TTIP pretende estabelecer uma zona de livre comércio transatlântica que cobre um mercado de cerca de 820 milhões de pessoas.

O Luxemburgo assume hoje oficialmente a presidência da União Europeia, mas a festa está marcada para a capital para sexta-feira.

A cidade do Luxemburgo está a organizar um piquenique europeu na place d’Armes. Entre as quatro da tarde e a meia-noite, os transeuntes vão poder saborear os petiscos da gastronomia dos 28 países da União Europeia. Tudo acompanhado com um programa musical.

Domingos Martins


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