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Com Amália afastada, Differdange aprova rua Sophia de Mello Breyner "Anderson"

Com Amália afastada, Differdange aprova rua Sophia de Mello Breyner "Anderson"

Imagem: Borderlovers
Luxemburgo 4 min. 15.05.2019

Com Amália afastada, Differdange aprova rua Sophia de Mello Breyner "Anderson"

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
A autarquia de Differdange deu hoje luz verde a uma lista de nomes para um novo bairro em construção que inclui a poetisa portuguesa.

A proposta de batizar uma rua com o nome da poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen foi hoje "aprovada por unanimidade" pela autarquia de Differdange, disse ao Contacto o secretário do conselho municipal, Henri Krecké.

O nome da poetisa portuguesa faz parte de uma lista que tinha sido acordada pelos presidentes dos partidos com assento no município, depois de a proposta inicial, que previa Amália Rodrigues, ter sido criticada por Gary Diderich, conselheiro comunal e porta-voz nacional do Déi Lénk (A Esquerda). "Informámo-nos junto da comunidade portuguesa para saber quem é essa pessoa e aí recebemos reações contraditórias. Nem todos estão de acordo sobre o papel de Amália durante a ditadura de Salazar", disse Gary Diderich ao Contacto, num artigo publicado ontem.  


Amália já não vai ser nome de rua em Differdange
A proposta de batizar uma rua com o nome da fadista causou incómodo na autarquia do sul do Luxemburgo. Em causa está a alegada ligação de Amália com a ditadura de Salazar. Em vez disso, a rua deverá vir a chamar-se Sophia de Mello Breyner Andresen. Mas há quem conteste que a fadista fosse fascista e a preferisse à poetisa portuense.

Com o nome de Amália afastado, por alegadamente representar "um cartão-de-visita do regime salazarista", o conselho municipal adiou a votação (inicialmente prevista para 3 de abril) para esta quarta-feira. Tudo para permitir a discussão de novas propostas para as futuras vias. No acordo a que chegaram os presidentes dos partidos, aprovado hoje, o nome português na lista passou a ser Sophia de Mello Breyner Andresen (grafado "Anderson", no documento a que o jornal teve acesso).

A rua em causa faz parte de um projeto de alargamento do bairro de Mathendall, naquela cidade do sul do país, onde vivem cerca de nove mil portugueses. Ficará numa zona perto de uma escola primária, prevista no plano de ordenamento municipal, ainda em construção, tendo o município decidido "dedicar estas ruas a personagens importantes na área da educação e da cultura". Além de Sophia, cujo centenário do nascimento se celebra este ano (1919 - 2004), as ruas em torno da escola receberão os nomes da escritora Anne Beffort (1880 - 1966), primeira luxemburguesa a obter um doutoramento na Sorbonne, e das violoncelistas luxemburguesas Lisa Berg (1978-2017) e Françoise Groben  (1965 - 2011). 

Na zona alta do futuro bairro, a autarquia optou por "dedicar estas ruas a pessoas que se evidenciaram pelas suas atividades em prol dos direitos humanos", incluindo Rosa Parks (1908-2005), que lutou pelos direitos civis dos negros no Alabama, nos Estados Unidos, Anne Frank (1929–1945), autora do diário homónimo e vítima do nazismo, e Lily Unden (1908–1989), resistente luxemburguesa na Segunda Guerra Mundial, deportada pela Gestapo para o campo de concentração de Ravensbrück.

A inauguração das novas ruas "não é para amanhã", disse o secretário comunal, que prevê que o projeto só esteja concluído "dentro de uma dezena de anos", com "os primeiros blocos residenciais" a poder estar prontos "em 2021 ou 2022".

O nome de Amália tinha sido proposto pela Comissão de Integração da autarquia, de que fazem parte imigrantes portugueses. Mas um dia antes de a proposta ser discutida, Mário Lobo, um dos membros do Conselho Nacional para Estrangeiros (CNE), um órgão de consulta do Governo para as questões da emigração, que vive na localidade, publicou um texto nas redes sociais a criticar a escolha, apontando que Amália era "um dos três F, ou bandeiras do regime fascista de Salazar: Fado, Futebol e Fátima", de que "os portugueses que vieram para o Luxemburgo emigraram precisamente para escapar ". E defendeu a sua substituição pelo nome de Sophia.

No texto então publicado, o membro eleito do CNE defendeu que a troca seria "o ponto de partida" para que "um dia os portugueses no Luxemburgo não sejam sinónimo exclusivamente de Fado e sardinhas". "Já somos muito mais do que empregadas de limpeza e pedreiros", escreveu, concluindo que a rua deveria chamar-se "Avenida Sophia de Mello Breyner Anderson (sic)", grafando mal o último apelido, Andresen. O mesmo erro aparece na lista aprovada hoje pelo conselho comunal. 

Num artigo publicado ontem, o musicólogo Rui Vieira Nery, que preside as comemorações do centenário do nascimento de Amália, que se realizam em 2020, com o apoio da Unesco, considerou a associação da fadista ao regime "completamente disparatada". "Isso é não conhecer a história do fado, é reduzir o fado a essa suposta associação. É claro que o regime tentou manipular o fado como um instrumento de propaganda, mas o fado é muito mais do que isso", afirmou.

Sobre a proposta de dar o nome de Sophia de Mello Breyner à rua que era para ser Amália, o ex-secretário de Estado da Cultura também considerou "uma pena contrapor dois nomes tão importantes na cultura portuguesa". "Sophia merece ter uma rua em todas as cidades do mundo, é uma grande poetisa mundial, agora manda a decência e a verdade histórica que não se confundam as coisas", disse ao Contacto.

Paula Telo Alves


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