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Com a corda na garganta

Com a corda na garganta
Portugueses no Luxemburgo

Com a corda na garganta


por Madalena QUEIRÓS/ 27.10.2021

Com um salário de três mil euros por mês, Joaquim Amaral Teixeira chega muitas vezes aos últimos dias com a conta a zero. Foto: António Pires

São quatro gerações de portugueses que vivem no Luxemburgo. Contam vidas sofridas. As saudades de Portugal falam sempre mais alto. Quem já está reformado, com os filhos e os netos aqui, acaba por ficar no Luxemburgo. Sempre com a vida dividida entre os dois países.

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"Já não vale a pena vir trabalhar para o Luxemburgo!"
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Chegar ao fim do mês é uma luta. Com um salário de três mil euros por mês, Joaquim Amaral Teixeira chega muitas vezes aos últimos dias com a conta a zero. Trabalha no setor da cofragem na Poeckes, uma empresa de construção civil fundada há quase cem anos. A situação piorou nos últimos anos. "Antes não era assim porque podíamos fazer horas extraordinários e sábados, o que compensava o ordenado", conta. "Desde há cinco anos recebo menos do que quando vim trabalhar para cá, há 12 anos", sublinha. E o custo de vida "não para de subir".

Por causa do disparar do custo da habitação teve que vender a casa que tinha em Dudelange, no Luxemburgo e vir morar para França "para viver mais folgado". Em Ottange Joaquim e a mulher encontraram uma casa mais barata. Mas viver em França também tem o outro lado da moeda. A mulher, reformada por incapacidade, que era tratado por médicos no Luxemburgo deixou de receber a comparticipação da Caixa Nacional de Saúde (CNS), por já não viver no Grão-Ducado. E se quiser continuar com os médicos em quem confia vai ter que pagar a totalidade das consultas do seu próprio bolso, o que é incomportável. A alternativa é recorrer ao Serviço Nacional de Saúde francês.

Com 54 anos Joaquim desabafa: "Já não vale a pena vir trabalhar para o Luxemburgo!". Conta vários casos de quem voltou a Portugal. "Mesmo os jovens que casaram cá já estão a pensar ir embora, porque estar aqui a trabalhar só para pagar o apartamento não compensa", sublinha.

Joaquim chegou ao Luxemburgo em 2008 e durante um ano teve um pequeno negócio. Depois conseguiu arranjar emprego na Poeckes, "uma empresa que dá boas condições de trabalho". Principalmente quando vê outras empresas do setor da construção a tratar mal os seus trabalhadores, que têm que mudar de roupa na rua, porque nem sequer têm onde se vestir.

O filho mais velho de 25 anos, Tiago Amaral já é encarregado de obra na mesma empresa. O outro filho, André, foi para Portugal e nunca mais quis voltar. Tem um salário mais pequeno, "mas vive bem". Quando se reformar o sonho de vida é voltar a Portugal com a sua mulher e "tratar das oliveiras" de uns terrenos que tem. Veio da aldeia de Vila Ruiva, perto de Nelas onde já tem uma casa construída "com condições muito melhores que a casa que tenho no Luxemburgo". O que não vai poder faltar é a bicicleta. Porque faça chuva ou faça sol, "domingo não é domingo senão andar 70 quilómetros de bicicleta".

Mais de 20% dos estrangeiros em risco de pobreza

Este é apenas um dos rostos vítimas da desigualdade no Grão-Ducado. Os indicadores revelam que um em cada quatro estrangeiros residentes no Luxemburgo está em risco pobreza (23%) e quando falamos de famílias provenientes de países fora da União Europeia a percentagem sobe para os 38%. São indicadores do relatório "Trabalho e Coesão Social 2021", divulgado recentemente pelo instituto de estatísticas do Luxemburgo (Statec). O mais grave é que, mesmo, quem trabalha tem uma taxa de risco de pobreza de 11,9%, "o que revela que o trabalho não é uma forma de proteção da pobreza", escrevem os autores do documento. Embora tenha estabilizado no último ano, a taxa de risco de pobreza está há vinte anos a aumentar consecutivamente.

Os números das pessoas mais expostas à pobreza disparam entre os estrangeiros, desempregados, famílias monoparentais, jovens isoladas e pessoas com baixa escolaridade. Os números revelam ainda que para 78,9% das famílias no Luxemburgo considera "preocupante" o peso da despesa financeira no alojamento. O estudo revela ainda, pela primeira vez que as desigualdades sociais têm um grande peso na doença. "Quanto mais baixo é o rendimento da família, maior é a probabilidade de hospitalização ligada à covid-19", pode ler-se no relatório.

Embora o impacto da pandemia no mercado de trabalho não tenha sido muito forte há sinais preocupantes como o crescimento de 36% dos desempregados de longa duração, nos últimos dois anos. Inquietantes são também os indicadores dos acidentes de trabalho. Os portugueses são as maiores vítimas com 5% de acidentes nos últimos 12 meses, quase o dobro da média da população.

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"A minha história dava para escrever um livro"
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Guilherme Pereira Afonso, 72 anos, está há quase 50 anos no Luxemburgo e diz que a sua "história dava para escrever um livro". Quando terminou o serviço militar chegou a Portugal e "não havia emprego para ninguém". Chegou ao Grão-Ducado em 1973 vindo de Portugal com um contrato de trabalho para trabalhar na agricultura. Quando cá chegou "o trabalho para lavrar os campos já estava ocupado por outro". Teve que se desenrascar e lá arranjou outro trabalho a construir estábulos para porcos. Quando essa tarefa acabou conseguiu um emprego na Goodyear. 

Maria e Guilherme Afonso estão dos dois reformados.
Maria e Guilherme Afonso estão dos dois reformados.
Foto: Caroline Martin

Trabalhava de noite na fábrica. Um dia estava a dormir em casa de manhã, quando a polícia lhe bateu à porta. O lavrador que lhe tinha oferecido o primeiro contrato de trabalho queria-o a trabalhar para ele. "Queriam-me extraditar ou que fosse trabalhar para o outro", conta. Mas o chefe de pessoal da Goodyear interveio e conseguiu ficar na empresa onde fez uma vida de trabalho.

Recorda que naquele tempo era diferente "tínhamos que ter uma autorização de residência que era renovada anualmente" porque Portugal não fazia parte da então Comunidade Económica Europeia (CEE). "Agora não, chegam cá e já têm cama e roupa lavada", diz. Trabalhou até aos 57 anos, data em que se pode reformar porque já tinha quarenta anos de trabalho. A sua mulher, Maria Ana Afonso, 65 anos, chegou ao Luxemburgo em 1978, um ano depois de terem casado na sua aldeia de origem em Fafião, no Gerês.

Por estes dias, estão ansiosos por ir a Portugal para participar na festa do Trilho do Medronheiro que acontece a 30 de outubro na sua terra. Mas não podem lá ficar muito tempo porque os filhos que vivem no Luxemburgo "querem que regressem rápido".

Não pensam voltar para Portugal "porque têm cá os filhos e os netos todos". Maria Ana mostra orgulhosa as fotografias da família que enchem as paredes da casa, e que lhe foram oferecidas pelos filhos quando fez 60 anos. Todos com um olhar feliz. Ao todo são três filhos e seis netos, o mais velho com 13 e a mais nova apenas com três anos.

A "madame elétrica"

Guilherme diz entre risos que a mulher, Maria Ana, enganou toda a gente. Porque começou a trabalhar no dia 1 de abril de 1980, dia das mentiras na empresa e porque se reformou no dia 1 de abril de 2013. Na fábrica ganhou a alcunha de "madame elétrica, porque não parava de trabalhar e queria fazer tudo sempre 100% direitinho", recorda. 

Maria Ana Afonso esteve 35 anos numa fábrica, em Steinsel. "Trabalhei sempre de noite para estar com os meus filhos de dia. Dormia pouquinho tempo, deitava-me às 20h30 e tinha que me levantar três horas depois para ir trabalhar. Quando o meu marido trabalhava de noite eu ia de manhã para estar sempre alguém em casa. Fiz 28 anos sempre de noite, e foi a minha sorte porque naquele tempo não havia creche nem 'maison relais', diz. Uma vida de trabalho que lhe provocou vários problemas de saúde. Teve um AVC aos 44 anos, mas conseguiu recuperar. No hospital de Ettelbruck diagnosticaram-lhe também um esgotamento. Os médicos "disseram que tinha que me reformar porque não tinha mais condições de trabalhar". Mas "precisava de continuar a trabalhar". Em 2006 teve um ataque cardíaco. Mas as complicações continuaram e, em 2013, o médico disse-lhe: "Acabou, não trabalha mais!"

Maria Ana emociona-se quando lhe perguntamos se foi difícil adaptar-se ao Luxemburgo. "Custou-me muito, chorei muito por deixar os meus pais e os meus irmãos. Naquela altura não havia telefones portáteis e quando chegava o correio eu lia a carta e pensava: Eles dizem que estão bem, mas enquanto a carta chegou de lá aqui, já poderia ter acontecido alguma coisa", recorda Maria Ana. Compraram os primeiros telemóveis da Motorola que apareceram, "uns aparelhos grandes para falar com a família para não apanhar tantos nervos". "Quando ia de férias em agosto, ia toda contente e começava a fazer as malas em maio. Quando vinha chorava até metade do caminho". Foram 35 anos a fazer a viagem seguida de carro. "Agora os meus filhos quando vão de carro param num hotel e eu fico contente por isso". Atualmente vão três ou quatro vezes por ano, quando antes só iam no mês de agosto.

Não têm dúvidas em dizer que o Luxemburgo "mudou 95% para melhor". Agora "as pessoas que não sabem falar o francês têm a possibilidade de escolher um médico português, no hospital há sempre enfermeiros portugueses, quando para aqui vim, não havia ninguém que falasse português. Quando ia com os meus meninos ao médico se estavam mal da garganta, apontava para boca e o médico dizia o nome em francês e eu apanhava e nunca mais me esquecia", recorda Maria Ana.

Hoje os transportes são gratuitos. Mas antes as viagens eram muito complicadas. Antes de tirar a carta, Maria Ana perdia quatro horas só no caminho entre autocarros, comboio e caminhadas a pé "que na altura eram mais difíceis porque havia neve durante todo o inverno, escorregávamos e era cai aqui, levanta acolá. Quando vínhamos de Portugal em agosto começava logo o inverno. Agora quase não há neve".

Guilherme afirma que "agora está tudo caro, mas antigamente era mais difícil porque não se ganhavam os salários de hoje". Comprar era sempre uma aventura. "Quando íamos às compras usávamos o franco belga e não havia as máquinas registadoras viradas para nós para sabermos quanto íamos pagar e tínhamos sempre medo que o dinheiro não chegasse", relata Maria Ana. "Tínhamos três línguas no país, optamos pelo francês que é mais simples. O meu marido aprendeu mais facilmente porque tinha colegas belgas. Eu trabalhava sozinha só se falasse para a máquina", salienta.

"Os meus filhos hoje dizem que não conseguiam fazer o que eu fiz", afirma Maria Ana. A filha mais velha é psicóloga e fez o curso na Universidade do Minho, porque na altura não havia universidade no Luxemburgo. "Ela queria ficar em Portugal, mas quando perguntou à professora quanto ia ficar a ganhar em Portugal desistiu ao ouvir a resposta." "-Por 600 euros não fico aqui, então vou para perto dos meus irmãos e pais no Luxemburgo, respondeu", sublinha Maria Ana. 

A filha nasceu no Grão-Ducado, falavas as línguas todas e não tinha problemas de integração. Todos os seus filhos têm dupla nacionalidade. O filho estudou cinco anos na Universidade Livre de Bruxelas. Hoje é professor de ginástica na Comuna de Hesperange e é preparador físico no Fola. A mais nova é enfermeira e faz serviço médico social em Bonnevoie. Todos casaram com portugueses.

"A nossa vida agora é ajudar a criar os netos e por isso não estamos muito tempo em Portugal, por isso ficamos aqui. Tenho aqui os meus filhos e netos e as minhas raízes estão aqui. Fizemos tudo pelos nossos filhos e é a nossa obrigação porque eles não pediram para nascer", sublinha Maria Ana.

Os portugueses têm boa fama no trabalho (...) o que até desperta um bocadinho de 'jaluses' [ciúmes] dos luxemburgueses.

Maria Ana Afonso

Todos os dias, apesar da dificuldade em compreender as línguas que os filhos aprendiam, acompanhavam sempre o que acontecia na escola. "Muitos que não eram apoiados ficaram pelo caminho", sublinha Maria Ana. “Desde as 7h da manhã às 9h da noite estava com eles. Quando trabalhava no turno da manhã e tinha que sair de casa as 4h da manhã para entrar às 6h, via nos transportes os pais com os filhos ao colo a levá-los para as amas tão cedo. "E pensava vou fazer tudo por tudo para isto não acontecer aos meus meninos", recorda.

Afirma com orgulho que "os trabalhadores portugueses têm boa fama no trabalho, por causa das boas comidas que trouxeram para cá, dos ranchos folclóricos, das associações e dos bons convívios. É esta a imagem dos portugueses, que até desperta um bocadinho de 'jaluses' (ciúmes) dos luxemburgueses", diz Maria Ana.

Hoje o principal problema é o preço da habitação. "As casas são muito caras, demos por este apartamento 700 mil euros e já foi há quatro anos", diz Maria Ana.

Embora diga que "agora quem vem para aqui não é nada difícil" o marido Guilherme Afonso reconheça "um problema no emprego por não fazerem contratos definitivos". "Como em todo o lado tem havido bastantes melhorias. O que melhorou, antes tínhamos que ter uma autorização de trabalho, seis meses, um ano e ao fim de cinco anos ficava para sempre e agora já não há essas restrições".

Mas "as pessoas que chegam têm que ir trabalhar para as agências de trabalho temporário. E para alugar ou comprar uma casa têm que ter um contrato definitivo e isso é que está mal. Agora é muito difícil entrarem com contrato definitivo. Fazem contratos por uma temporada, às vezes até faziam um contrato por uma semana. Há empresa em que antes do Natal mandavam as pessoas embora para não lhes ter que pagar os dias feriados", denuncia Maria Ana.

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Partir ao engano
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António Brito, acabou de fazer 31 anos e chegou há pouco tempo ao Luxemburgo. Está colocado a empresa Prefalux através de uma agência de trabalho temporário, mas tem a expectativa de vir a ser contratado pela empresa. Este cabo-verdiano deixou para trás uma experiência pouco agradável.

Foto: António Pires

No início do ano foi trabalhar para a Bélgica, através de uma empresa portuguesa que prestava serviços no país. "Fui enganado, porque vim de Portugal com um contrato e depois tinha zero direitos", sublinha. Por exemplo "se chovesse ou estivesse gelo e não podíamos trabalhar, não recebíamos".

Acabou por vir para Rodange, no Luxemburgo através de um familiar. Quando chegou o país estava fechado, "mas agora estou a trabalhar e espero que tudo vá para a frente". Inscreveu-se numa agência de trabalho temporário e foi colocado numa empresa. "Se os patrões gostarem do teu trabalho ficas a trabalhar diretamente com a empresa", diz António.

Conseguir uma casa para já não é possível e vai continuar a viver com a sua família. "Acabei de chegar, para alugar uma casa é complicado porque tens que ter um contrato sem termo (CDI) e três recibos de ordenado", sublinha. Mas espera poder arrendar uma casa depois de ter um contrato. Em Portugal deixou a mulher e um filho de quatro anos, e quer trazê-los quando tiver condições. "Gosto do Luxemburgo. Estou a achar um país bonito e fixe para viver e trabalhar e as pessoas que conheço são acolhedoras", remata.

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"Em termos financeiros isto está cada vez pior"
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Quase todos os dias lida com histórias de vida complicadas. "Há muita gente com problemas financeiros no fim, mas também ao princípio e a meio do mês. Pessoas solteiras, divorciadas com crianças que têm muitos problemas porque o setor da limpeza é muito precário, com contratos com poucas horas e que exigem muita disponibilidade e flexibilidade de horários", descreve Maria das Dores, responsável pelo setor das limpezas da OGBL, a maior central sindical luxemburguesa. 

Maria das Dores é responsável pelo setor das limpezas na OGBL.
Maria das Dores é responsável pelo setor das limpezas na OGBL.
Foto: Guy Jallay/Luxemburger Wort

Chegou há 30 anos ao Grão-Ducado à procura de "uma aventura e de uma vida melhor. "Vim com 15 anos, sozinha, sem conhecer ninguém, como 'au pair' de uma família em Rodange, como muitas jovens que vieram para o Luxemburgo", recorda. Veio de Tejão em Mondim de Basto, em 1995 e lembra-se que "foi um bocado difícil porque sentia-me muito sozinha e faltava a família". Chegou a trabalhar num snack-bar a fazer Kebabs. Recorda-se que quando foi morar sozinha foi para um estúdio pagava 16 mil francos "o que correspondia a cerca de 200 euros, o que ainda era acessível". Hoje é impossível encontrar sequer um quarto a esse preço.

Dois anos depois "conheci o meu marido, que nasceu por acaso em Portugal – a minha sogra foi a Portugal de comboio quando estava com oito meses de gravidez e casei-me. Pouco tempo depois o meu marido teve um grave acidente de trabalho quando caiu de um telhado, ficou muito tempo de baixa, e foi difícil regressar ao trabalho", relata.

Trabalho há quase vinte anos na empresa e o meu salário aumentou 2%.

Maria das Dores

"Muita coisa mudou, nos últimos 20 anos", sublinha. "O custo de vida aumentou e no nosso setor os salários não evoluíram quase nada. Trabalho há quase vinte anos na empresa e o meu salário aumentou 2%. Muitas vezes, no setor da limpeza as pessoas são obrigadas a ter dois patrões ou três, porque trabalham numa empresa hora e meia e depois têm que trabalhar noutras empresas, o que torna muito complicado ir de férias porque têm que coordenar com todos os empregadores", diz.

E as coisas não estão a melhorar. "Em termos financeiros isto está cada vez pior: por causa do aumento do preço da habitação muitos estão a procurar casas na Bélgica, França e Alemanha", sublinha.

Também "há muitos casos por causa das pessoas que estão vinte anos casadas e depois divorciam-se e muitas delas não têm a possibilidade de pagar uma renda de 1500 euros. Ou vão para fora ou sujeitam-se a ir viver para um quarto num café que cobra entre 750 e 800 euros por mês". Maria das Dores diz que "há quem tenha problemas de saúde e que não vai ao médico porque não tem dinheiro. Andam de carro às vezes sem revisão e com os pneus carecas porque não têm dinheiro", salienta. "Como tenho problemas de coração, tenho que ir todos os anos ao cardiologista e entre exames e consulta pago sempre cerca de novecentos euros. E agora que por causa do covid-19, a Caixa Nacional de Saúde está a demorar dois a três meses a reembolsar", sublinha.

Duvida que as coisas voltem a ser como antes da pandemia. "Acho que a covid-19 em vez de fazer com que as pessoas ficassem melhores, ainda ficaram piores, mais egoístas. É triste, mas os portugueses são muito egoístas e se fossem mais unidos podíamos ganhar batalhas que assim não se ganham", considera Maria das Dores.

"Por exemplo quando negociámos a convenção coletiva do setor das limpezas, no mês de maio, houve uma manifestação e não apareceu muita gente. Representamos cerca de doze mil trabalhadores e não estavam mais de 500 pessoas no protesto", lamenta. "Se estivesse lá muita gente, talvez se conseguisse mais nas negociações", diz indignada. "Temos poucos tempos livres. Agora nas horas vagas um bocadinho que eu tenho é para dormir", sublinha.

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"Agora quem trabalha no Luxemburgo deixa o dinheiro todo cá"
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"Há uns anos quem chegava aqui, conseguia juntar dinheiro para fazer uma casa no país de origem. Agora o risco de pobreza aumentou", afirma António Valente que chegou ao Luxemburgo há 26 anos. Hoje o "sistema está criado para que as pessoas que trabalham no Luxemburgo, deixem o dinheiro cá", acrescenta este antigo dirigente do Comité de Ligação das Associações de Estrangeiros (CLAE).

António Valente está há 26 anos no Luxemburgo.
António Valente está há 26 anos no Luxemburgo.
Foto: António Pires

"Com a crise nos países do sul da Europa, o Luxemburgo recebeu muitos trabalhadores que vieram com os filhos de carro, sem dinheiro e depois foram as associações de apoio que os ajudaram a regressar ao país de origem", sublinha António Valente. Quando "há vinte anos atrás as pessoas chegavam e no dia seguinte tinham trabalho", sublinha. "Agora é preciso conhecer alguém que o possa alojar e arranjar emprego", diz.

"Mas o grande problema está no alojamento", sublinha. Depois, nos últimos anos, surgiu o fenómeno da "exploração laboral e escravatura moderna", alerta. "Com a crise, muitos quiseram emigrar e houve quem se aproveitasse e recrutasse em Portugal pessoas que eram exploradas quando chegavam ao Luxemburgo e trabalhavam com retribuições abaixo do salário mínimo. Porque as autoridades luxemburguesas, não têm acesso às empresas que já foram condenadas por essas práticas criminosas em Portugal. Elas vêm para o Luxemburgo e praticam esses crimes", denuncia.

Muitos portugueses estão a reformar-se e a regressar ao país.

António Valente

"Muitos portugueses estão a reformar-se e a regressar ao país". Depois "os portugueses da primeira vaga migratória acolhiam os amigos em casa. Esse camaradagem e solidariedade já não existe. Até porque legalmente quem tiver ajudas financeiras para comprar habitação não pode albergar ninguém que não seja de família direta e hoje há muito mais controlo."

"Quando cheguei há 27 anos os portugueses eram uma comunidade com baixa escolaridade, mas com um coração enorme, muito solidários, abertos e participativos. Nos últimos dez anos começou a chegar uma nova onda de portugueses, com mais acesso à cultura, mas que não se empenham na vida cultural associativa ou política do Luxemburgo. Esta falta de participação vai fazer com que as associações portuguesas acabem por morrer", sublinha António Valente.

Portugueses a dormir em carros

"Uma vez ligou-me uma senhora que estava a morar no carro com o marido, porque veio atrás de promessas e chegou aqui a pessoa que lhe disse que arranjava trabalho deu-lhe uma falsa direção e chegou aqui e não tinha onde ficar, não tinha trabalho e nem dinheiro tinha para voltar para Portugal", relata Maria das Dores que trabalha no setor das limpezas. 

"Muita gente vem de Portugal a pensar que vem para o El Dorado e francamente se fosse hoje eu não vinha. As pessoas se puderem ficar deixem-se estar em Portugal porque lá está-se melhor que aqui", remata.

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