Escolha as suas informações

Clément Elie, o rosto da revolta da restauração
Luxemburgo 3 min. 01.04.2021

Clément Elie, o rosto da revolta da restauração

Clément Elie, o rosto da revolta da restauração

Luxemburgo 3 min. 01.04.2021

Clément Elie, o rosto da revolta da restauração

Ricardo J. Rodrigues
Ricardo J. Rodrigues
Esta sexta-feira os trabalhadores dos hotéis, dos restaurantes e dos cafés concentram-se pela quinta vez na Place d’Armes desde dezembro para exigir a abertura dos seus estabelecimentos. As esplanadas podem operar a partir de 7 de abril, sim, mas Clément Elie diz que isso não é mais do que areia nos olhos dos cidadãos. História do barman de Diekirch que lidera a contestação.

“Bem, a verdade é que eu sou francês”, brinca Clément Elie, 31 anos, quando se lhe pergunta porque é que decidiu assumir a liderança dos protestos que têm invadido a capital nos últimos meses a exigir a abertura do setor Horeca – que reúne hotéis, restaurantes e cafés, fechados desde 26 de novembro de 2020 por causa da pandemia. “Se é para fazer um protesto, ou uma greve, já se sabe que um francês vai refilar”, zomba. Depois o sorriso desvanece-se e o discurso torna-se sério: “Aquilo por que estamos a passar é um verdadeiro atentado.”

Foto: António Pires

Sexta-feira, às 16h00, há mais uma manifestação na Place d’Armes. Ainda que cinco dias depois as esplanadas possam abrir, Elie diz que essa é apenas uma medida de cosmética. “A maioria dos estabelecimentos não tem esplanada, as mesas estão limitadas a duas pessoas, o serviço só pode ser prestado até às 18h00, que é precisamente a hora em que começamos a fazer dinheiro. Isto não resolve nada e há muita gente que está a dizer que não vai sequer abrir. Continuamos a ser o bode expiatório da pandemia.”

O francês anda há meses a colocar as mesmas perguntas. “Há de facto mais casos de contágio quando os restaurantes estão de portas abertas? Se tomámos todas as medidas preventivas porque é que somos o único setor do comércio a ficar fechado? Estamos a fechar cafés e restaurantes para proteger a saúde pública ou porque a diversão é moralmente condenável?”.

É também isto que Clément Elie tem gritado ao megafone sempre que há uma manifestação. “No primeiro confinamento todos percebemos que estávamos a enfrentar uma ameaça desconhecida e era preciso resguardarmo-nos. Mas agora temos mais informação disponível, sabemos que com distâncias de segurança, proteções, máscaras, álcool-gel a vida pode continuar a acontecer. Quando foi anunciado o fecho dos restaurantes em novembro, criaram-se logo vários grupos de protesto. E eu resolvi meter-me no barulho porque não bastava protestar nas redes sociais, era preciso ir para as ruas.”

Clément só não convocou a primeira marcha do grupo do Facebook “Horeca/Independants Tous Ensembles” – mas também essa ele ajudou a organizar. “Foi sempre em crescendo. Tivemos 200 participantes, depois 300, depois 500 e na última ultrapassámos os mil. Acho que as pessoas foram perdendo o medo. Teria sido mais provável ser um proprietário de um restaurante ou de um café do que um empregado como eu a liderar os protestos. Mas, bom, aos poucos as pessoas começaram a dar a cara. Vamos ver o que acontece agora na sexta-feira.”

Foto: António Pires

Clément nasceu em Tours, França, e foi lá que estudou para barman, no Centre de Formation au Terrain des Douets. “Quando tinha 15 anos fui trabalhar um verão para um café na costa francesa e fascinei-me a ver um colega a fazer cocktails. Foi aí que percebi que era isto que queria fazer na vida.” Quando acabou o curso, quis viajar. Mandou currículos para Inglaterra, Tunísia, Marrocos e Luxemburgo e acabou por vir parar a Diekirch. “Ninguém fazia cocktails na cidade, então fui sempre ficando por aqui.” Desde há seis anos trabalha no Café Miche.

Também é formador no Liceu de Diekirch – ensina alguns miúdos a fazer cocktails e leva-os a participarem em concursos internacionais na Bélgica. “Em 2019 ganharam o prémio da Melhor Criação e do Melhor Cocktail de Festa no Concurso Internacional de Jovens Barmen. Fiquei bastante orgulhoso deles.”

Gosta de um certo sentido de comunidade, e foi também por isso que se tornou rosto da revolta de um setor inteiro. “Há uma Federação Horesca que em teoria nos representa, mas na verdade não o faz. Convidámos várias vezes o presidente François Koepp a falar nas nossas manifestações, mas ele nunca quis. Como é que o nosso representante se recusa a dirigir-se às pessoas que vieram para a rua pedir explicações?”.

Aponta o exemplo dos países vizinhos, onde as federações Horesca que existem na Bélgica e em França não se calaram até serem recebidos pelo Conselho de Estado. “Mesmo que não consigamos ganhar sempre, é importante lutar, levantar a voz, fazermos ver o desespero em que estamos.” Ele lá estará na sexta-feira. E as vezes que forem necessárias. 

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

Restauração. E, ao terceiro sábado, o protesto duplicou
Pelo terceiro sábado consecutivo, o centro da capital encheu-se com a manifestação do setor Horeca. Desta vez vieram mais de 400 pessoas, o dobro da semana passada. Depois do anúncio governamental de sexta feira, que mantém os restaurantes fechados até 21 de fevereiro, a palavra de ordem era "não nos deixem morrer".