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Cientistas portugueses nos EUA estudam transmissão do novo coronavírus em animais
Luxemburgo 6 min. 20.11.2020

Cientistas portugueses nos EUA estudam transmissão do novo coronavírus em animais

Cientistas portugueses nos EUA estudam transmissão do novo coronavírus em animais

Foto: AFP
Luxemburgo 6 min. 20.11.2020

Cientistas portugueses nos EUA estudam transmissão do novo coronavírus em animais

Segundo a pesquisa de uma investigadora portuguesa, os gatos apresentam um potencial de infeção médio e os cães têm um potencial baixo. Os gorilas e chimpanzés pertencem ao grupo de maior risco de transmissão.

Do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, dois cientistas portugueses lideraram duas investigações acerca da transmissão do novo coronavírus entre humanos e animais. Joana Damas participou num estudo que identificou várias espécies de mamíferos com potencial de serem infetadas pelo vírus SARS-COV-2 e João Rodrigues ajudou a criar um modelo computacional que explica porque é que certas espécies animais, como ratos e galinhas, são imunes ao vírus.

Joana Damas, investigadora na Universidade da Califórnia, em Davis, é autora de um artigo publicado na  publicação oficial da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos (PNAS) que relata os resultados de um exercício que combinou várias técnicas computacionais de análise de genomas e proteínas para prever os animais que podem vir a ser infectados pelo SARS-CoV-2, o novo coronavírus. 

Ao jornal Público, a cientista explicou que o principal resultado do  estudo foi a identificação de um alto número de espécies de mamíferos com potencial de serem também infectadas pelo vírus SARS-CoV-2 (responsável pela covid-19) através da proteína ACE2, que é a proteína que o vírus usa para infectar as células humanas.


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A lista de animais é longa, mas a cientista nota que “as previsões são baseadas apenas em semelhanças de sequência e requerem validação experimental”, cita o jornal. Ou seja, é preciso fazer outras experiências e testes para comprovar se estes animais são ou não susceptíveis à infecção. O que o estudo da cientista portuguesa mostra é apenas que podem ser. “O facto de haver potencial para infecção através da proteína ACE2 não quer dizer que estes animais irão apresentar sintomas, já que isso depende de outros mecanismos que não abordamos, por exemplo o sistema imunitário de cada espécie e a forma como reagem a infecção viral”, explica.

Mesmo assim, reconhece Joana Damas, os resultados obtidos podem já ser úteis “na identificação de organismos-modelo para o estudo de infecção por SARS-CoV-2, e espécies que podem servir como reservatórios ou hospedeiros intermediários para SARS-CoV-2 e, portanto, reduzir a oportunidade de um futuro surto de covid-19”.

O artigo científico de João Rodrigues, conta com uma versão disponível na plataforma bioRxiv, onde são reunidas pré-publicações que não foram ainda revistas pelos pares, e já foi aceite para publicação na revista PLoS Computational Biology. O cientista da Universidade de Stanford, explicou que o seu estudo se focou nas proteínas de várias espécies animais, através de modelação molecular, descobrindo assim várias diferenças a nível da estrutura atómica das proteínas que explicam o porquê de certas espécies animais serem imunes ao vírus e que podem ser úteis no desenvolvimento de fármacos.

Os cientistas explicaram ao diário português que o trabalho de Joana Damas apresenta uma previsão das espécies que podem ser susceptíveis ou imunes, enquanto que o trabalho de João foca-se mais no “porquê” e em perceber por que é que, do ponto de vista bioquímico, apenas certas espécies serão susceptíveis.

As duas pesquisas têm em comum a atenção dada a uma importante proteína do novo coronavírus, a spike, e ao recetor celular que o vírus usa para infetar as células, a proteína ACE2. Joana Damas refere que no seu estudo foram comparadas as sequências genéticas de 25 aminoácidos que são usados para a ligação recetor-vírus.

Em consequência, disso, “cerca de 40% das espécies que identificámos como tendo potencial de infeção estão classificadas como ameaçadas pela União Internacional para a Conservação da Natureza”, destaca Joana referindo, por exemplo, gorilas e chimpanzés com muito alto potencial de infeção, tal como os humanos.

No nível abaixo, com alto potencial, estão, entre outros, o veado e o golfinho. Já em termos de espécies importantes a nível económico, surgem o gado bovino, ovelhas e cabras, avaliados com um potencial médio e “cuja possível infeção poderia ter implicações epidemiológicas e implicações para produção de alimentos", explica a cientista. Na categoria de espécies com baixo risco encontram-se os porcos, o cavalo, o elefante, aves, vários anfíbios e répteis. No fundo da lista, com um potencial de infeção muito baixo, estão espécies como corvo ou o jacaré.

Quanto aos animais de companhia, a investigadora esclarece que no seu estudo “os gatos apresentam um potencial de infeção médio e os cães têm um potencial baixo”. Os resultados do estudo, aliás, confirmam o que já se sabia sobre estes animais: cães e gatos infetados não apresentam qualquer sintoma ou sintomas muito ligeiros e, embora seja possível que os humanos infetem estes animais), o risco de eles infetarem os humanos será extremamente baixo.

Na pesquisa de João Rodrigues, que também se dedicou a analisar a interação entre a proteína spike do vírus e a proteína ACE2, investigaram-se cerca de 30 espécies que a equipa considerou estarem “mais provavelmente em contacto com humanos”.

Segundo o Público, para explicar como certas espécies de animais parecem ser imunes ao vírus, utilizou-se a lógica de um puzzle. "Assim, sabendo como são as peças da spike e da ACE2 (as estruturas atómicas das duas proteínas são conhecidas), faltava saber como encaixavam nos outros animais", lê-se.

“Verificámos que, por exemplo, a proteína S encaixa bastante melhor na proteína ACE2 humana do que na proteína ACE2 da galinha”, conta o investigador. As diferenças encontradas são muito subtis, diz João Rodrigues, mas serão o suficiente para travar a infeção.

O trabalho também serviu para identificar variantes na ACE2 que têm o efeito contrário, ou seja, aumentam a interação entre as duas proteínas. “Estas variantes estão presentes em várias espécies suscetíveis ao vírus, como o furão e o pangolim, mas não em humanos, e podem ajudar a desenvolver medicamentos que impeçam o vírus de infetar as nossas células.”

Os trabalhos de João e Joana centram-se no primeiro passo do processo de infeção, pelo que é preciso saber mais do que isso para validar os resultados e rotular esta ou aquela espécie como suscetível. 

“Se previrmos que as proteínas não encaixam bem, provavelmente o vírus nem consegue entrar na célula e faz sentido que possamos dizer que há menos probabilidade de haver infeção. Por outro lado, pode-se dar o caso de o vírus entrar na célula através da proteína ACE2 e depois ser incapaz de se multiplicar. Por isso mesmo, não podemos dizer que, se o nosso modelo prevê um bom encaixe, então o animal é suscetível. Assim sendo, preferimos deixar bem claro que os nossos modelos têm limitações e que os nossos resultados são previsões que têm de ser validadas independentemente por outros cientistas”, concluiu João Rodrigues.

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