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"Ai, meu Deus, a água vem com uma força que nos engole a vida inteira"

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"Ai, meu Deus, a água vem com uma força que nos engole a vida inteira"

"Ai, meu Deus, a água vem com uma força que nos engole a vida inteira"
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"Ai, meu Deus, a água vem com uma força que nos engole a vida inteira"


por Ricardo J. Rodrigues/ 15.07.2021

Fotos: RJR

Echternach é um cenário de desolação, com centenas de pessoas a serem resgatadas de barco e a deixarem para trás a vida que levaram anos a construir. Na capital, o pesadelo da noite de quarta regressou ao final da manhã de quinta. As histórias de quem avalia perdas, estragos e as memórias que a tempestade levou.

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Uma fúria de Adamastor
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Laurinda e Gil junto à sua casa inundada em Echternach
Laurinda e Gil junto à sua casa inundada em Echternach
Foto: RJR

Quando Laurinda Silva saiu de casa, às oito e meia da manhã desta quinta-feira, ia descansada. Tinha limpezas para fazer na parte alta da cidade  - e mesmo que soubesse que lá em baixo o Sûre transbordava, nunca lhe passou pela cabeça que a água subisse até sua casa. "Às onze recebo um telefonema do meu filho para vir rápido, que a água estava que tinha entrado pela cave já tinha passado para o rés do chão." Correu Echternach abaixo à velocidade de uma flecha e, quando entrou pela porta das traseiras, já a enchente lhe cobria os joelhos.

"Tentámos mudar algumas mobílias para o primeiro andar, o computador também o deixei lá em cima", conta o rapaz, que agora está nervoso porque não sabe se a água vai continuar a subir. Chama-se Gil Silva Ferreira e tem 22 anos, está mais preocupado com a mãe do que com o que a enchurrada tenha levado. O pai morreu em novembro do ano passado com 54 anos e, ainda que um cancro o tenha roubado à família, Anselmo da Silva Ferreira não quis partir do mundo sem deixar a casa pronta.

O centro de Echternach está completamente inundado
O centro de Echternach está completamente inundado
Foto: RJR

"Quando comprámos a vivenda há 13 anos isto era pouco mais do que um casebre. Foi o meu marido que pôs o chão, as paredes, mudou as portas, pintou tudo. Era pedreiro e isto era o nosso sonho, a nossa vida", conta Laurinda. Antes de partir, andou a arranjar a fachada, montar um portão novo, seguros havia de os deixar.

Por volta do meio dia tiveram de fugir, que a água já lhes passava do peito. Laurinda virou-se para Gil num lamento: "Ai meu Deus, que a água vem tão rápida e com tanta força que nos engole a vida inteira." Repete agora a frase e os olhos inundam-se também. É que aquelas paredes, explica a mulher, não eram só paredes. Eram a memória dos dias felizes e da vida que tinham construido. Eram as caixas de fotografias que o dilúvio encharcou, eram os espaços onde fizeram da família uma família. "E agora acabou", diz de cabeça baixa.


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Os vizinhos ali à volta conseguiram fazer como eles - fugir pelo quintal. Mas mais abaixo, na rue de la Gare e junto ao rio, não houve tempo para ensaiar a fuga. A polícia montou esta tarde um cordão policial e está a resgatar as pessoas. Há acamados e gente que se recusa a sair sem os animais de estimação ou alguns pertences. O exército, a polícia e os bombeiros trabalham em conjunto com três objetivos: manter a calma, convencer toda a gente a sair e evacuar a zona perigosa da cidade a tempo.  

O presidente da câmara de Echternach, Yves Wengler.
O presidente da câmara de Echternach, Yves Wengler.

"Ordenar a evacuação de uma parte da cidade foi uma das decisões mais difíceis que tive de tomar", admite o presidente da câmara de Echternach, Yves Wengler. Conta que ao início da manhã estava convicto de que não seria preciso fazê-lo, porque as previsões davam notícia de abrandamento da chuva. Mas com as comportas das barragens a abrirem-se nos países vizinhos não havia simplesmente maneira de travar a subida do Sûre. Seria possível ter prevenido uma catástrofe destas? "Não, acredito que não. Um acontecimento destes ocorre uma vez por século." Sexta-feira, prevê, a água pode baixar meio metro e permitir a drenagem da água. Até lá, e desde que foi dada ordem de evacuação ao início da tarde de quinta, há um um centro de acolhimento nas instalações da comuna com cobertores, comida e bebida. 

"Reservámos também 130 quartos na pousada da juventude e temos vários hotéis preparados nas comunas vizinhas", conta Wengler. "Mas foi impressionante ver a onda de solidariedade que se gerou, com gente das partes mais altas a oferecer casas aos que estão afetados, com pessoas a disponibilizarem-se para ajudar no que puderem. É nas alturas mais difíceis que conseguimos encontrar o melhor da humanidade."

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A zona baixa da capital tornou-se um lago
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Maida, Marc e Irina abriram um coworking no Grund antes da pandemia. Quase todo o investimento foi, literalmente, por água abaixo
Maida, Marc e Irina abriram um coworking no Grund antes da pandemia. Quase todo o investimento foi, literalmente, por água abaixo
Foto: RJR

Dia 24 de julho abria uma exposição. Dia 30 havia um encontro com um artista que ia encher as paredes da casa. "Bom, parece-me bastante óbvio que vamos ter de cancelar tudo", dizia na manhã de quinta feira Maida Halilovic, uma das três fundadoras do Am Gronn, um centro de exposições no Grund que também serve de espaço de trabalho para uma dezenas de trabalhadores independentes ligados ao mundo das artes.

As ruas do Grund já não são ruas, são artérias que o Alzette tomou como suas e que estragaram a vida dos comerciantes e habitantes do bairro. O mesmo acontece nalgumas zonas de Clausen e do Pfaffenthal. Em Eich, o rio destruiu uma boa parte das instalaçãos da ASTI - Associação de Apoio aos Trabalhadores Imigrantes. O lago que invadiu a Ville Basse colocou toda a zona histórica em suspenso. "E a água continua a subir", diz Maida aos seus sócios, Irina Moons e Marc Thein.


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O espaço de trabalho comum que tinham criado tinha uma série de barracas privativas, todas construídas em madeira, cada uma custou 20 mil euros a edificar. "E agora veio a água e lá se foi o investimento. Vamos ter milhares de euros de prejuízo na primeira vez, desde que abrimos portas, em que podíamos respirar", conta Halilovic. Encolhe os ombros e ri-se. Depois explica que desata às gargalhadas sempre que as coisas começam a dar para o torto.

Rob Seelen, proprietário do Ukelele, em Clausen
Rob Seelen, proprietário do Ukelele, em Clausen
Foto: RJR

Em Clausen, Rob Seelen tem uma mensagem para as autoridades luxemburguesas: "Ajudem-nos." O proprietário do restaurante Ukelele, em Clausen, dá voz ao desalento: "Depois de aguentarmos uma pandemia terrível para o setor da restauração, temos de voltar a fechar as portas por causa de uma inundação terrível. Como é que vamos conseguir aguentar assim?" Mostra a cave do restaurante, onde estão guardados os barris de cerveja. Está inundada de água. "E o pior de tudo é que foi aqui que se montaram as instalações elétricas. Não posso ter um restaurante aberto em risco de curto-circuito. Não posso ter um restaurante aberto se não poder mudar um barril a meio do serviço porque não posso descer à cave. Não posso ter um restaurante aberto se o parque de estacionamento de Clausen está inundado de água. Então é simples: mais uma vez, não posso ter o meu restaurante aberto."

Ainda na manhã de quinta, a Federação Horeca tinha pedido que fosse declarado o estado de "catástrofe natural", algo a que o governo acedeu de tarde. Isso permitirá ao comércio receber ajudas do estado. Mas, como diz Rob e quase toda a gente que falou para esta reportagem, "o que queremos é ter as portas abertas para trabalhar."

Leonardo di Paoli, chef do OiO
Leonardo di Paoli, chef do OiO
Foto: RJR

Do outro lado da rua, nas Rîves de Clausen, Leonardo di Paoli também está inquieto. "Ontem saímos daqui à uma da manhã porque tivemos medo de o rio subir tanto que ficassemos aqui isolados e não conseguíssemos sair." É chef do OiO, que abriu portas em abril para take-away e está mesmo encostado ao Alzette. "A cave está completamente inundada, mas como estamos aqui há pouco tempo ainda não estava cheia de produtos. Nesse aspeto temos sorte, e estamos a conseguir continuar a assegurar o serviço. Mas olha para o rio", diz ele apontando para trás, "a água está a chegar ao topo da ponte e continua a subir. Os troncos de arvore e o lixo continuam a acumular-se. Se não for feito nada rapidamente, vai tudo entupir."

Metros adiante, Danielle Longlais mostra a cave da farmácia de Clausen, onde as caixas de medicamentos passaram a noite a boiar na água. Tudo estragado. "Felizmente são medicamentos de reserva, e conseguimos repor o stock. O que vai ser complicado é ter onde guardá-los."

A reserva de medicamentos da farmácia de Clausen danificada pela inundação.
A reserva de medicamentos da farmácia de Clausen danificada pela inundação.
Foto: RJR

A Allée Pierre de Mansfeld, a caminho do Pfaffenthal, continua encerrada ao trânsito. O Alzette continua a não dar tréguas aos vizinhos da rua, que se unem em esforços para levantar barricadas à àgua. "Estivemos aqui a noite toda a tentar enxotar a água e por isso conseguimos que não subisse mais de 25 centímetros. Não foi mau, comparando com os nossos vizinhos", diz Charlotte Junck, uma das residentes. Está a colocar sacos de areia à porta, e sabe que a chuva vai parar ao fim da tarde mas isso não significa outra noite sem sono, a ver um mar de lama subir-lhe para casa. Vai ser outra noite longa no Luxemburgo.

Entre Clausen e o Pfaffenthal, os vizinhos unem esforços para levantar barricadas à água.
Entre Clausen e o Pfaffenthal, os vizinhos unem esforços para levantar barricadas à água.
Foto: RJR

 

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