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Chapada de luva negra
Opinião Luxemburgo 3 min. 01.10.2022
A fava

Chapada de luva negra

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Chapada de luva negra

Foto: Luc Deflorenne
Opinião Luxemburgo 3 min. 01.10.2022
A fava

Chapada de luva negra

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
Aquilo que chamamos de mestiçagem devia ser chamado de estupro, ou violação em massa.

Foi o cartaz que me deixou curioso. Vocês hão de tê-lo visto nas paragens de autocarro, ou nos painéis rotativos que ocupam as maiores ruas das cidades deste pequeno país. Tinha uma foto antiga de um homem branco sentado numa embarcação em África. À sua volta, homens negros e em tronco nu remam a barcaça rio acima. Por cima, uma frase anuncia "O Passado Colonial do Luxemburgo".

O que esta exposição no Luxemburgo me deixou a pensar foi na absoluta necessidade de enfrentar o espelho da História.

É uma exposição. Ocupa os pisos superiores do Museu Nacional de História e Arte e tem portas abertas até novembro. Devia ser obrigatório vê-la, pelo simples facto de que, para saber olhar em frente, é preciso entender o que deixámos nas costas. O Grão-Ducado, que nunca teve colónias, teve colonizadores. E vê-los, saber deles e do que fizeram, é uma arma poderosa para tornar irrepetível o colonialismo.

Fui ao museu e, quando saí, dei por mim a pensar como Portugal, o meu país de origem, teima em olhar este passado de esguelha. Desde logo na escola. Nas aulas de História a referência aos Descobrimentos escondia a matança que essas conquistas implicavam. Falava-se de um império rico, dominador no comércio de ouro especiarias e pau-brasil. Sobre o comércio de escravos, que encheu os bolsos da coroa portuguesa, poucas ou nenhumas palavras.

Também há uma ideia generalizada de que a colonização portuguesa foi mais branda do que a dos demais países europeus – e um dos argumentos que costumam suportar essa teoria é a da mestiçagem. Houve de facto muitas mulheres negras que pariram filhos de homens brancos. A palavra está errada. Provavelmente, aquilo que chamamos de mestiçagem devia ser chamado de estupro, ou violação em massa.

Portugal não foi nada mansinho na sua colonização, como o discurso patriota nos quer fazer pensar. Foi o último país europeu a abdicar das suas colónias em África. Abriu portas a um nível de conflito que muitas nações ainda lutam hoje para travar. Levou destruição a terra alheia e levou milhares de rapazes – incluindo o meu pai – para o meio de terror que só a prepotência explica. Ou a fugir do país, como aconteceu a tantos dos que aqui chegaram nos anos sessenta e setenta. Não há brandura quando o assunto é o colonialismo.

O que esta exposição no Luxemburgo me deixou a pensar foi na absoluta necessidade de enfrentar o espelho da História. Mesmo que não fosse colonizador de terra alguma, 600 colonos luxemburgueses viviam no Congo na altura da independência. E nas paredes enfrenta-se o passado. Há fotografias de mãos de crianças que foram cortadas, de visitas da família real à Schueberfouer para ver um circo de gente de pele negra. Não é propaganda, é um relato nu do que aconteceu.

Há dois anos, a pequena aldeia de Buschrod, na comuna de Wahl, decidiu rebatizar a rua Nicolas Grang de Um Schéckelt. Grang era um oficial luxemburguês ao serviço do exército belga, que se destacou na conquista do Congo. E na carnificina de milhares de africanos.

Sou sensível ao argumento de que não se pode apagar o passado, mas é preciso pelo menos vê-lo. Não preciso, por exemplo, que retirem todas as referências a Afonso de Albuquerque que existem nas ruas e praças de Portugal. Mas ponham lá na placa que um dos mais aclamados heróis portugueses, o primeiro vice-rei da Índia, também massacrou milhares de inocentes.

(Grande Repórter)

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