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Caso do anúncio a pedir candidatos que falem português pode 'criar clivagem' entre portugueses e luxemburgueses
Luxemburgo 4 min. 11.03.2014 Do nosso arquivo online

Caso do anúncio a pedir candidatos que falem português pode 'criar clivagem' entre portugueses e luxemburgueses

Caso do anúncio a pedir candidatos que falem português pode 'criar clivagem' entre portugueses e luxemburgueses

Foto: PTA (arquivos CONTACTO)
Luxemburgo 4 min. 11.03.2014 Do nosso arquivo online

Caso do anúncio a pedir candidatos que falem português pode 'criar clivagem' entre portugueses e luxemburgueses

O caso do anúncio a pedir candidatos que falem português que foi questionado no Parlamento do Luxemburgo pelo ADR é um caso "caricato" mas que pode aumentar as tensões entre portugueses e luxemburgueses, defendeu hoje um dirigente associativo.

"A questão linguística no Luxemburgo é uma questão incendiária que inflama os espíritos de toda a gente, mas questionar o Governo por uma associação pedir um funcionário que fale português é caricato. É uma questão de lana caprina, mas que pode criar mais clivagem entre portugueses e luxemburgueses", disse José Coimbra de Matos, presidente da Confederação da Comunidade Portuguesa no Luxemburgo (CCPL).

O caso foi noticiado na última edição do jornal CONTACTO. O partido ADR questionou no Parlamento um anúncio publicado por uma associação de apoio a crianças, jovens e famílias, pedindo candidatos para uma vaga de educador que falassem português, além das três línguas oficiais do Luxemburgo.

Na questão parlamentar, o deputado Fernand Kartheiser, do ADR, perguntava ao ministro da Educação do Luxemburgo se "considerava normal" que uma associação subsidiada pelo Estado exigisse o conhecimento de uma língua que não faz parte dos idiomas oficiais do país, acusando-a de "favorecer" os falantes de língua portuguesa e de não contribuir para a integração dos estrangeiros.

Na resposta, o ministro defendeu que "neste caso concreto não se trata[va] de familiarizar as pessoas com as línguas oficiais do país ou de facilitar a sua integração, mas de as compreender e ajudar", uma posição aplaudida pelo presidente da CCPL.

"A língua deve ser um veículo de comunicação e não de exclusão. Por que carga de água é que haviam de atacar uma língua de comunicação falada por um quarto da população no Luxemburgo? Isto é criar um problema onde não existe, e tentar criar aqui uma convulsão social", defendeu José Coimbra de Matos.

SECRETÁRIA-GERAL DO ADR APRESENTOU PROGRAMA EM PORTUGUÊS

O dirigente associativo criticou ainda a posição da secretária-geral do ADR, Liliana Miranda, de origem portuguesa, que em declarações ao CONTACTO acusou os emigrantes portugueses de serem "privilegiados" pelo Governo, dando como exemplo a quantidade de documentos que são traduzidos para português pela administração pública luxemburguesa.

Para José Coimbra de Matos, a luso-luxemburguesa revela incoerência, depois de ter co-apresentado o programa de televisão "Entrada Livre", um programa em português para a comunidade lusófona produzido pela CCPL e transmitido nos canais privados luxemburgueses Dok e TTV entre 2005 e 2007.

"Os outros partidos de extrema direita também têm estrangeiros, como a Frente Nacional, em França, mas Liliana Miranda chegou a fazer programas de televisão em português, pela mão da CCPL, e uma mudança tão radical é realmente cuspir na sopa", criticou o presidente da Confederação Portuguesa.

A secretária-geral do ADR, que obteve a dupla nacionalidade há menos de um ano, explicou ainda ao semanário português que o partido quer impedir o recrutamento para a Função Pública de pessoas que não falem as línguas oficiais do país, dando como exemplo o sector da Saúde, onde há casos de idosos luxemburgueses que não conseguem comunicar com médicos e enfermeiros, por estes não falarem luxemburguês, acusou.

Recorde-se que o anterior Governo anunciou em Abril do ano passado estar a negociar com o Executivo português a contratação de dezenas de técnicos de serviço social portugueses para os lares de terceira idade no país, um acordo que não chegou a ser posto em prática.

ADR JÁ TINHA QUESTIONADO ESCOLA  PORTUGUESA, COMPARANDO-A A ESCOLAS MUÇULMANAS

Esta não é a primeira vez que o ADR, conhecido pelas posições nacionalistas, leva ao Parlamento questões relacionadas com a língua portuguesa.

O partido questionou em 2008 o projecto de abrir uma escola portuguesa no Luxemburgo, apresentado pela Universidade Lusófona, que não chegou a concretizar-se, por causa de entraves do Governo luxemburguês, segundo o dirigente associativo.

Na altura, o ADR perguntou à ministra da Educação se não temia que a aprovação do projecto da escola lusófona levasse a comunidade muçulmana a exigir igualmente escolas privadas no país.

Paula Telo Alves / Lusa


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A investigadora portuguesa Sarah Vasco Correia, especializada em linguística, lamenta que o caso do anúncio de emprego que exigia português, questionado no Parlamento pelo ADR, esteja a ser usado pelo partido para questionar a integração dos portugueses, o que pode "desencadear tensões" entre portugueses e luxemburgueses.
A história conta-se em poucas linhas. Uma associação sem fins lucrativos, que presta serviços na área do apoio às crianças, jovens e às famílias, publicou um anúncio para recrutar um funcionário em que exigia o domínio da língua portuguesa, para além das três línguas oficiais do país. O ADR diz que não concorda porque "é discriminação".
Falar português é uma mais-valia no Luxemburgo e "não um factor de discriminação", e há mesmo luxemburgueses e outros estrangeiros que estão a aprender a língua, considerando-a uma vantagem profissional, garante o professor Carlos Pato. O docente comentava assim o caso do anúncio de emprego a pedir candidatos que falassem português, considerado discriminatório por um deputado do ADR.
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