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Cartaz contra "imigração ilegal" junto a foto de Mónica Semedo causa polémica
Luxemburgo 5 min. 29.04.2019

Cartaz contra "imigração ilegal" junto a foto de Mónica Semedo causa polémica

Mónica Semedo é candidata do DP às eleições europeias. Na rue de Rollingergrund, um cartaz com a sua imagem tem por baixo o slogan do ADR "Keng illegal Immigratioun" ("não à imigração ilegal").

Cartaz contra "imigração ilegal" junto a foto de Mónica Semedo causa polémica

Mónica Semedo é candidata do DP às eleições europeias. Na rue de Rollingergrund, um cartaz com a sua imagem tem por baixo o slogan do ADR "Keng illegal Immigratioun" ("não à imigração ilegal").
Foto: Anouk Antony / Contacto
Luxemburgo 5 min. 29.04.2019

Cartaz contra "imigração ilegal" junto a foto de Mónica Semedo causa polémica

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
O slogan do ADR, "Não à imigração ilegal", surge por baixo do cartaz da candidata do DP às europeias, de origem cabo-verdiana. Coincidência ou mensagem xenófoba?

A associação entre os dois cartazes foi denunciada pelo diretor de informação da RTL, Guy Weber. Numa crónica publicada no site da estação televisiva, o responsável questiona se a colocação dos cartazes do ADR, conhecido pelas posições nacionalistas, junto a um cartaz de Mónica Semedo, é um acaso ou uma provocação. No cartaz do ADR, afixado na capital, no mesmo poste que o da antiga apresentadora de televisão, de origem cabo-verdiana, figura o slogan de campanha "Keng illegal Immigratioun" ("não à imigração ilegal", em luxemburguês).

"Será que este segundo cartaz [do ADR] foi colocado propositadamente por baixo da foto da jovem mulher de origem cabo-verdiana?", questiona o diretor de informação da RTL. "Será que é um puro acaso sem segundas intenções", ou será "um infeliz faux-pas [passo em falso]"? 

Questionado esta tarde pelo Contacto, o assessor de imprensa do ADR, Dan Hardy, e ex-jornalista da RTL, a casa onde Mónica Semedo trabalhou durante 22 anos, defendeu que tudo não passa de um acaso. "Não há nada mais luxemburguês do que a Mónica Semedo. Foi minha colega", disse ao Contacto Dan Hardy.

O ex-jornalista deixou a RTL nas últimas eleições legislativas, em outubro, para ser candidato pelo ADR, mas acabaria por não ser eleito. Mónica Semedo também abandonou a estação televisiva para ser candidata ao Parlamento luxemburguês, mas pelo DP, o partido do primeiro-ministro Xavier Bettel, tendo falhado igualmente a eleição para a Câmara dos Deputados.  

Ao Contacto, Dan Hardy disse lamentar que o caso dos cartazes tenha sido levantado pelo diretor de informação da estação na qual ambos trabalharam, afirmando que a associação é um acaso. "Foram jovens do partido que afixaram os cartazes durante a noite, e quem sabe se o cartaz da Mónica Semedo já lá estava, ou se foi posto a seguir?", alegou. "As nossas equipas trabalharam durante a noite, não prestaram atenção".

O assessor de imprensa do ADR acusou a estação televisiva de usar o caso para "tentar mostrar que o ADR é um partido de extrema-direita e contra os estrangeiros, o que não é verdade". "Não somos contra os estrangeiros. Somos da mesma família política que os Conservadores, no Reino Unido", defendeu o antigo jornalista.


Daniel Da Mota. Photo: Guy Wolff
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O homem que marcou um golo do Luxemburgo contra a seleção de Cristiano Ronaldo, em 2012, é candidato às legislativas pelo ADR. O partido nacionalista é conhecido pelas posições contra os direitos dos estrangeiros, mas o jogador de futebol defende que "não é racista". Nesta grande entrevista ao Contacto, este filho de imigrantes portugueses explica as razões que o levaram a filiar-se no ADR.

Questionado sobre se a imigração ilegal no Grão-Ducado é um problema que justifique a escolha deste slogan nos cartazes, e se tem números sobre o fenómeno, Dan Hardy disse que "pode ser um problema, se não se fizer nada agora". "Atualmente não há problemas importantes [com a imigração ilegal], mas temos as nossas leis e há que as respeitar", concluiu, recusando fazer mais declarações sobre o tema.

Foto: Anouk Antony / Contacto

Conhecido pelas posições nacionalistas, o ADR foi contra a possibilidade de os estrangeiros acederem ao cargo de burgomestre, votou contra a lei que aprovou a dupla nacionalidade em 2008 e opõe-se aos cursos integrados de língua materna no ensino público luxemburguês, que incluem aulas de língua portuguesa para os imigrantes lusófonos.

Ex-apresentadora defende "tolerância" num país com 170 nacionalidades

Já Mónica Semedo, questionada por este jornal, recusou comentar o caso dos cartazes, alegando que "não se sabe quem o fez". "Prefiro concentrar-me nas eleições europeias, com uma mensagem positiva para as 170 nacionalidades que vivem pacificamente juntas no Luxemburgo. É sobre esta mentalidade de tolerância, que para mim representa o Luxemburgo, que quero fazer a campanha", disse a ex-extrela de televisão ao Contacto.   

Esta não é a primeira polémica com cartazes de Mónica Semedo. Nas últimas eleições legislativas, alguns 'outdoors' de campanha do DP com a fotografia da ex-apresentadora foram alvo de vandalismo. Aconteceu em Grevenmacher, localidade onde Semedo cresceu e pela qual era candidata. Nas imagens divulgadas então na sua página no Facebook, viam-se cartazes com as fotos dos sete candidatos daquela circunscrição em que a sua foto tinha sido riscada ou rasgada.

Na altura, Mónica Semedo disse ao Contacto ter ficado chocada com os incidentes, que incluíram também outros candidatos do partido. Na cidade do Luxemburgo, houve quem escrevesse "judeus" num cartaz com Xavier Bettel e Corinne Cahen, atual ministra da Família e da Integração.


Racismo. Candidata Mónica Semedo "chocada e dececionada" com cartazes rasgados
Vários cartazes da candidata às eleições legislativas Mónica Semedo, pelos liberais do DP, foram rasgados em Grevenmacher. A apresentadora da RTL, de origem cabo-verdiana, diz-se chocada. Na cidade do Luxemburgo, houve quem escrevesse "judeus", num cartaz de Xavier Bettel e Corinne Cahen.

Mónica Semedo nasceu no Luxemburgo em 1984, filha de imigrantes cabo-verdianos que chegaram ao país no início dos anos 70. A mais nova de cinco irmãs, chegou aos palcos com três anos e meio, graças a um concurso de escolas, que lhe valeu gravar uma canção com o produtor Jang Linster. Aos 12 anos, passou a apresentar o programa infantil "Häppi Diwwi", tendo-se convertido na única estrela infantil televisiva do país até à data.

Numa entrevista ao Contacto nas últimas legislativas, a ex-apresentadora admitiu que na juventude sentiu algum racismo e discriminação, mas desvalorizou o caso. "Não gosto de dar importância a racistas. Quanto muito, desejava confrontar essas pessoas e perguntar-lhes porque são racistas. De que que têm medo?”, questionou então Monica Semedo, que se considera uma luxemburguesa comum. "Não me sentia diferente das outras crianças de Grevenmacher, vínhamos um pouco de todo o mundo, aquilo que nos unia era que brincávamos juntos em luxemburguês", recordou na entrevista ao Contacto. "A única coisa que posso dizer é que tenho duas origens e duas pátrias e posso ficar com o melhor das duas: o temperamento é cabo-verdiano de certeza”.

Mónica Semedo é licenciada em Ciências Políticas pela Universidade de Trier, tendo defendido uma tese sobre o segredo bancário e o sistema financeiro luxemburguês. Depois de não ter sido eleita nas últimas legislativas, foi nomeada responsável de comunicação da agência governamental "Luxembourg for Finance". 


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