Escolha as suas informações

Campanha. “Há uma espécie de corrida ao melhor patriota da nação”
Luxemburgo 3 min. 19.09.2018

Campanha. “Há uma espécie de corrida ao melhor patriota da nação”

Campanha. “Há uma espécie de corrida ao melhor patriota da nação”

Foto: Anouk Antony
Luxemburgo 3 min. 19.09.2018

Campanha. “Há uma espécie de corrida ao melhor patriota da nação”

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
A maior associação de defesa dos direitos dos estrangeiros denuncia o discurso nacionalista dos partidos.

É uma constatação generalizada a todos os partidos. “O discurso nacionalista, que estava associado à extrema-direita, tornou-se ’mainstream’” na campanha para as legislativas, aponta o porta-voz da Associação de Apoio aos Trabalhadores Imigrantes (ASTI), Sérgio Ferreira.

A ASTI apresentou na terça-feira um caderno de propostas políticas sobre os estrangeiros, e não perdeu a oportunidade para denunciar sinais inquietantes de nacionalismo. “Estamos a assistir a uma espécie de corrida ao melhor patriota da nação”, acusa o porta-voz. “O DP é um bom exemplo: no seu slogan diz ’o futuro em luxemburguês’ e depois anda para aí a explicar há meses que ’o futuro em luxemburguês’ é inclusivo, aberto, multicultural e multilingue – não dá para perceber muito bem. Ou bem o futuro é em luxemburguês, ou o futuro é em luxemburguês, francês e alemão”, ironiza.

Para Sérgio Ferreira, é esse o resultado de querer agradar a gregos e troianos. “Há uma incoerência generalizada porque os partidos estão à procura do voto. E como querem recolher o voto de toda a gente, dizem a mesma coisa e o seu contrário”. O caso do DP, cujo spot de campanha tem o hino nacional em fundo, é o caso mais flagrante, mas para a ASTI não é o único. Mesmo os Verdes (“Déi Gréng”), que têm no programa “muitas propostas concretas em matéria de imigração, integração e de participação política” e são um dos poucos partidos a propor a inscrição automática dos estrangeiros nas listas eleitorais, tem lapsos nacionalistas, acusa Sérgio Ferreira. “Numa das suas passagens no programa falam de ’luxembourgeois de souche’ [luxemburguês de gema], ressuscitando expressões que já não ouvíamos há muito tempo”, lamenta. E depois, há o reverso da medalha: o ADR, cujo cavalo de batalha é a promoção do luxemburguês, defende o multilinguismo no programa. Uma incoerência e uma forma de “esquizofrenia” também denunciada pela ASTI.

A defesa do luxemburguês é aliás o ponto em comum nos programas de todos os partidos, ou não tivesse o plano de promoção do idioma, apresentado pelo DP nesta legislatura, sido aprovado por unanimidade. Mas para a ASTI, a questão está a ser instrumentalizada. “Todos os partidos falam do reforço da língua luxemburguesa, mas não há nada nos programas para que os estrangeiros possam aprender essa língua”, critica o porta-voz. E aponta como exemplo a lei sobre a promoção da língua luxemburguesa. “É um bom exemplo para demonstrar que estão a tentar ser os melhores patriotas do país, sem no entanto depois ser consequentes com as políticas propostas”.

O choque pós-referendo

Esta são as primeiras eleições legislativas depois do referendo sobre o direito de voto dos estrangeiros, em 2015, uma consulta que deixou marcas profundas e crispações identitárias, depois de 80% terem dito ’não’. Mas para Sérgio Ferreira, a interpretação dos resultados está a ser exagerada pelos partidos. “Mesmo se o resultado do referendo foi um ’não’ claríssimo, não acho que vivamos numa sociedade fundamentalmente racista e discriminadora. Há problemas? Há. Há segregação no ensino? Há. No entanto, a sociedade luxemburguesa é muito mais diversa do que aquela que os partidos querem fazer crer”, afirma.

A ASTI mantém as mesmas propostas de antes do referendo, reclamando o direito de voto para todos os residentes no país e a inscrição automática nas listas eleitorais para as autárquicas. “A situação não mudou. Continuamos com metade da população que mais uma vez este ano está a assistir de bancada a um jogo em que eles deviam participar”. Novidade nas propostas da ASTI – que já foram apresentadas aos partidos entre junho e setembro – é a criação de um observatório do racismo, antisemitismo e xenofobia. “Num país que tem quase metade da população estrangeira, à qual se acrescentam os transfronteiriços, é incompreensível que não exista uma instituição que estude esses fenómenos de forma séria e científica”, defende o porta-voz. Até para que “deixemos de achar que vivemos no país das maravilhas”. “É um país em muitos casos maravilhoso, mas tem problemas como todos”.

Paula Telo Alves