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Caça aos "vendedores do sono" deixou 13 portugueses na rua
Luxemburgo 7 min. 09.04.2019

Caça aos "vendedores do sono" deixou 13 portugueses na rua

Caça aos "vendedores do sono" deixou 13 portugueses na rua

Foto: Manuel Dias
Luxemburgo 7 min. 09.04.2019

Caça aos "vendedores do sono" deixou 13 portugueses na rua

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
Depois de Esch e Differdange, a capital abriu caça aos cafés que alugam quartos. A autarquia fechou um café na rue de Rollingergrund, deixando 13 portugueses na rua. A ASTI está contra o encerramento compulsivo dos estabelecimentos sem propor alternativas para os inquilinos. "Não podem ser os locatários a pagar pela manifesta penúria de alojamento", acusam.

Artigo publicado originalmente em 31.03.2010, na edição impressa do Contacto.

A notificação da Polícia dava-lhes dez dias para saírem. Por cima do café l'Odyssée, na rue du Rollingergrund, viviam 13 trabalhadores portugueses, incluindo um casal. O auto da Polícia a que o Contacto teve acesso diz que os 14 quartos "se encontram num estado de insalubridade e de higiene que não respeita os critérios de locação" estabelecidos na lei. "Problemas de humidade no soalho, parcialmente podre", "um buraco no tecto", "instalação eléctrica não conforme e perigosa", "risco de derrocada", levaram a autarquia e a Polícia a ordenar o encerramento do estabelecimento. Data-limite: segunda-feira da semana passada. Para os inquilinos, todos a trabalhar, sobravam menos de duas semanas para encontrar um tecto.

Alertada por um vizinho luxemburguês que frequentava o café, a Associação de Apoio aos Trabalhadores Imigrantes (ASTI) pôs-se em campo. A presidente da associação, Laura Zuccoli, escreveu então cartas à autarquia, tentando protelar a ordem de despejo pelo menos até final do mês. Sem resultados. A associação aproveitou então o fim-de-semana do Festival das Migrações para apresentar o caso à ministra da Família e do Alojamento, que abria a cerimónia oficial, e ao burgomestre da capital, Paul Helminger. Foi só nessa altura – dois dias antes do encerramento do estabelecimento – que os trabalhadores receberam propostas de alojamento temporário.

Segunda-feira de manhã, a Polícia chegou para fechar o l'Odyssée. Para os 13 portugueses despejados, começava a odisseia à procura de um quarto a preços da bolsa.

"No Luxemburgo ninguém fica na rua"

"A ministra da Família garantiu-nos que no Luxemburgo ninguém dorme na rua", recorda Orlando, português de origem guineense a viver no café desde Setembro, o mesmo mês em que chegou ao Luxemburgo. No sábado, Marie-José Jacobs deu instruções ao Gabinete Luxemburguês de Acolhimento e Integração (OLAI, na sigla em luxemburguês) para encontrar soluções provisórias para os trabalhadores despejados. Mas as alternativas não agradaram a todos. "Mostraram-me um foyer [Foyer Ulysse, para toxicodependentes e sem-abrigo], na segunda-feira passada, mas aquilo não tinha condições nenhumas, eu não gostei de lá estar porque era um sítio de drogados".

"Tinham dito que podíamos ir dormir ao 'Foyer dos clochards' até dia 31, só que nós não somos 'clochards', nós todos pagamos impostos!", insurge-se Luís Freitas, de 23 anos. Luís é estucador desde que chegou ao Luxemburgo, em 2002, e vivia no café agora encerrado há quase três anos. Ainda lhe propuseram uma cama no Foyer des Travailleurs de Esch, um dos três lares sociais para imigrantes com dificuldades económicas geridos pelo OLAI, mas só a partir de 1 de Abril. "Na 'vila' [capital] disseram-nos que têm sempre dois lugares de emergência para meterem lá pessoas. E em Esch era só a partir de 1 de Abril. Quem não tivesse para onde ir, ou ia para debaixo da ponte ou para um hotel. Por agora toda a gente se desenrascou".

A maioria dos 13 trabalhadores despejados encontraram refúgio em casa de familiares ou amigos, garante Luís. Como ele, a dormir no estúdio onde vivem a namorada e a mãe. "Dormimos os dois na sala", explica Marina, desempregada. Descontente com o Foyer Ulysse, Orlando muda-se de armas e bagagens para outro café, alguns metros mais abaixo do estabelecimento encerrado. No l'Odyssée pagava 500 euros por um quarto individual com alimentação incluída, aqui paga 550 por um quarto duplo e comida. "Somos dois, eu e outro senhor que também saiu dali". Mas a solução é provisória: "Estive naquele café e tive problemas, não sei se aqui vou ter problemas".

Orlando trabalha numa fábrica em Steinsel, com contrato temporário. Ganha 9.72 euros por hora, "mais ou menos 1.300 euros por mês", e tem de enviar dinheiro para Portugal, onde vivem a mulher e os cinco filhos. "Gasto metade do salário que estou a receber [em despesas correntes], o resto tenho de mandar para a mulher, que está lá com cinco filhos. Fico sem nada".

Orlando vai aceitar o lugar oferecido pelo OLAI num dos dois "Foyers de Travailleurs" na capital. "Fui ver e gostei muito do sítio, já recebi a chave. Lá vou pagar 230 euros e posso fazer a minha comida, posso lavar a minha roupa...". Já Luís recusou o lugar que o OLAI lhe propôs "na 'Casa dos Homens' de Esch", porque "a dois não há privacidade, se um ressonar o outro tem de ouvir toda a noite", e decidiu-se por outro café... em Differdange. "Vou pagar 300 euros e vou estar sozinho. Foi um achado".

Com a caça aberta aos cafés, os preços inflacionaram, garante Luís, e é cada vez mais difícil encontrar quarto. "Houve pessoas que disseram que aquilo era uma exploração. Estão a acabar com uma exploração para começarem com outra exploração. Como estão a fechar os cafés, as pessoas que têm quartos nas condições legais estão a pedir duas vezes o que pediam antigamente, 450 e 500 euros. E para quem ganha 1.500 euros, não dá para levar grande vida...".

Fechar os cafés não é solução

A autarquia da capital foi a última a iniciar a "caça aos 'vendedores do sono' iniciada há dois anos por Differdange e Esch, mas a presidente da ASTI teme que a emenda seja pior do que o soneto. "A autarquia [da cidade do Luxemburgo] tomou a decisão de pôr estas pessoas na rua, as outras [Differdange e Esch] não o fizeram. Por causa da falta de alojamento social, é preciso pensar em soluções para as pessoas que não têm alternativa. Para onde é que eles vão? Os cafés são os únicos que os aceitam!". "Eles [os inquilinos] são os últimos elos da cadeia. Antes há o proprietário [do café], que também se faz explorar, depois há as cervejarias e os proprietários do edifício, como no caso deste café", denuncia Laura Zuccoli.

Segundo o jornal satírico luxemburguês Den Neie Feierkrop, o edifício onde funcionava o café l'Odyssée, gerido por um português, era propriedade "de um alto funcionário luxemburguês na Segurança Social", que o arrendava à Brasserie MouselDiekirch. Esta cobrava 4.500 euros de renda ao português que explorava o L'Odyssée, de acordo com o Feierkrop, "um preço pesado quando se pensa que há 50 anos que ninguém investia um cêntimo no edifício", denuncia o jornal.

"Quando tens de pagar 4.500 euros de renda, quantas cervejas tens de vender para sobreviver? A grande maioria dos proprietários dos cafés são gente pobre que tenta sobreviver, e finalmente são tão explorados como as pessoas que ali vivem", insurge-se Laura Zuccoli.

Para o responsável do Serviço de Alojamento do OLAI, Arthur Antony, os cafés vêm colmatar a escassez de alojamento social. O Gabinete Luxemburguês de Integração de Estrangeiros dispõe apenas de 150 camas para trabalhadores estrangeiros. Na lista de alojamentos a preços económicos distribuída aos recém-chegados, a maioria são cafés que alugam quartos.

"O malvado 'vendedor do sono', de faca nos dentes e cifrões nos olhos, não existe", diz Arthur Antony. "É quase sempre um imigrante que tenta sobreviver. O problema é que hoje em dia quem abre um café só para vender cerveja não sobrevive". Para o responsável do alojamento no OLAI, a solução passa por construir mais alojamentos sociais. O Estado luxemburguês comparticipa 100 % das despesas de construção de lares sociais para trabalhadores estrangeiros, mas até agora, "nenhuma autarquia se mostrou interessada".

Na capital, a responsável do serviço de Alojamento, Anouk Speltz, admite que há 350 pessoas há espera de alojamento social. Questionada sobre se a autarquia considera construir mais estruturas, aproveitando os apoios estatais, a responsável diz que "cabe aos políticos decidir".

No entretanto, o encerramento do l'Odyssée foi "o primeiro de uma campanha de fiscalização que arrancou agora", avisa. "Foi o primeiro café que fiscalizámos, fomos avisados pela Polícia, e tivemos de o fechar, porque estava realmente em muito mau estado. A partir de agora vamos fazer uma fiscalização mais sistemática, mais frequente e mais severa". Para os proprietários dos cafés e os inquilinos que não encontram outra alternativa, a notícia é um sinal de alarme.

Paula Telo Alves


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Esch e Differdange abriram caça aos cafés que alugam quartos insalubres. Por cima dos estabelecimentos, a maioria explorados por portugueses, as autoridades descobriram condições de tirar o sono. Em Differdange há 17 pessoas a partilhar uma só sanita e duche, e quartos com 1,5 m de altura. Em Esch a autarquia teme uma tragédia. A maioria dos cerca de mil hóspedes nestas condições são portugueses recém-chegados ao Luxemburgo a trabalhar na construção: pagam entre 300 a 650 euros para dormir num quarto com mais duas a quatro pessoas, com ou sem alimentação.