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Bois e avestruzes
Opinião Luxemburgo 7 min. 12.12.2020

Bois e avestruzes

Bois e avestruzes

Foto: Shutterstock
Opinião Luxemburgo 7 min. 12.12.2020

Bois e avestruzes

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Enquanto a Aline debitava todo o ódio que tem à covid, aos confinamentos, aos recolheres obrigatórios e às restrições de circulação, eu optei por não anuir.

Ela ficou piursa quando ouviu na televisão que a França não ia levantar as restrições no final do ano. O Macron mais o Castex só quem os mandasse para aquele sítio, reclamou. Ela que não diz palavrões lá ensaiou um e continuou a explicar por que razão tinha votado no Mélenchon nas últimas eleições.

Eu, que já uma vez tinha ficado piurso com ela por causa de ter votado Mélenchon, decidi deixá-la esvaziar o saco. Nós, homens, não sabemos gerir as crises com elas de outra forma. Só sabemos calar-nos e ouvir. Se não concordamos com os argumentos, a técnica da não-confrontação é a nossa melhor defesa.

Muitos de nós optam por outra reação complementar: a anuência. Ou seja, abanar a cabeça em ligeiros sins, concordando com o que ela vai dizendo.

Eu não uso essa estratégia desde os anos 80 por causa de uma experiência traumática. Tudo começou numa aula de Matemática e Estatística para as Ciências Sociais. Eu e o meu amigo Ginho decidimos uma nova estratégia para a cadeira: como não percebemos disto nada vamos tentar agradar ao professor.

Optámos por algumas medidas inauditas no que a nós dizia respeito. Sentarmo-nos lá à frente foi a primeira decisão. A segunda foi pousar uma calculadora na mesa para dar a impressão de que sabíamos resolver os problemas. A terceira, mais arrojada, foi fazer gestos de anuência, ou seja, abanar com a cabeça para cima e para baixo quando o professor estivesse a explicar alguma coisa comos e soubéssemos a resposta.

Esta opção não foi fruto de mero acaso. Nós tínhamos topado o modo de funcionamento deste professor. Já reparaste que ele pergunta se estamos a perceber, mas nunca interrompe a diarreia de fórmulas para ouvir a resposta dos alunos? O Ginho tinha razão. Podíamos fazer de conta que estávamos a acompanhar o raciocínio do senhor sem correr riscos, e talvez isso nos ajudasse no exame que valia os seis créditos. Mais do que qualquer outra cadeira! Sabe Deus porquê.

Numa fatídica tarde – se não me engano tínhamos duas horas seguidas de Matemática e Estatística para as Ciências Sociais (nunca percebi como é que aquelas fórmulas se aplicavam às Ciências Sociais ou a qualquer aspeto da vida prática do ser humano, mas prontos) o Ginho e eu sentámo-nos lá à frente. Abrimos os cadernos, ligámos a calculadora e começamos a ouvir o professor a debitar uns problemas dos quais só percebíamos palavras isoladas: xis, ípsilon, menos, mais, somatório (nunca percebi bem a diferença entre soma e somatório e nem sequer sei, 30 anos depois, se há ou não uma diferença).

Já íamos em mais de uma hora de aula e estávamos a preparar-nos mentalmente para a viagem para casa que nesse dia ia ser pior porque chovia, coisa que em Braga acontecia bastante no inverno, razão pela qual chamavam à cidade penico do céu. Aliás nunca conheci uma cidade com tantos cognomes, de terra dos arcebispos a cidade dos três pês, Braga mereceu tantas alcunhas que, dizem os seus nativos, se devem à inveja profunda que todas as cidades vizinhas dedicam à Bracara Avgvsta, sobretudo os vimaranenses.

Onde é que nós estávamos?

Mais ou menos a meio da aula. O professor estava mal disposto. Distraídos, porque sem perceber patavina da matéria, nem eu nem o meu amigo conseguimos ler a linguagem corporal e os tiques agravados do professor que estava, manifestamente, de mau humor. Talvez por estar cansado, o homem passeou pela sala e decidiu perguntar à Isaura como se resolvia o problema que estava no quadro. Ela congelou. Apesar de ter ficado vermelha como um tomate, a Isaura congelou mesmo. O seu corpo ficou hirto, no seu pescoço não se detetava circulação de sangue, mas a vermelhidão que lhe subiu ao rosto garantia que havia vida naquele corpo.

O professor, esse, alimentava-se de desesperos como o da pobre Isaura. Saltitava com maior dinamismo do que no início da aula e quase deixou escapar um dos tamancos holandeses. O calçado era uma das suas originalidades. O professor usava, de vez em quando, tamancos holandeses que por milagre mantinha colados às solas dos pés, fazendo um estranho barulho quando se passeava de uma ponta à outra do quadro preto.

A outra singularidade deste professor era o facto de usar pulôveres improváveis, incluindo aqueles de Natal, com carneirinhos e flocos de neve. Hoje sei que o professor de Estatística estava muito à frente em tendências de moda. Ainda ontem vi uma emissão na televisão francesa em que todos estavam com pulôveres vermelhos e verdes e azuis com motivos natalícios. E uma amiga minha, que é influenciadora nas redes sociais, confirmou-me que sim, que os pulôveres de Natal são mesmo fashion desde há já alguns anos.

Conclusão: toda a minha turma deve um pedido de desculpas ao professor de Matemática e Estatística pelo baile que lhe demos por causa de um pulôver e dos tamancos, e estes se calhar também estão na moda, só que eu não tive tempo de perguntar sobre isso à minha amiga instagramer, por isso não vou aqui fazer declarações infundadas.

Mas despistei-me da história com o professor zangado por causa da Isaura não saber resolver o problema. Obviamente, essa zanga estendia-se a todos os alunos porque se a Isaura não sabia responder, quem iria saber? Talvez a Cristina ou a Margarida que sabiam sempre tudo?

O professor perdeu a cabeça. Quase insultou a Isaura, olhou em volta a grunhir e aproximou-se da sua zona de conforto, o quadro preto. E quem eram as duas vítimas mais próximas? Eu e o Ginho pois claro. Ali, sentadinhos, que nem patos numa carreira de tiro britânica.

Não será necessário explicar que desde que a Isaura foi agredida verbalmente (hoje o professor teria sido expulso, no meu tempo, no século passado, os alunos é que eram expulsos) o Ginho e eu também ficámos impávidos, gelados, amedrontados porque a rabecada que a Isaura levou aplicava-se a todos na turma, sem exceção.

O professor deu vários passos acelerados até ao quadro – ainda hoje não sei como manteve as socas holandesas nos pés – e tanto eu como o Ginho fizemos os possíveis para não cruzar olhares com ele.

Ambos baixamos a cabeça como se estivéssemos a tomar notas, mas a técnica de defesa não serviu de nada. O professor plantou-se a meio metro da nossa mesa e gritou (se calhar não gritou, mas pareceu que sim): e vocês dois aqui... passam a aula a abanar com a cabeça como dois bois mas também não perceberam nada, pois não?

Pois não. Também não tínhamos percebido nada. Imagina; se a Isaura não percebeu não eramos nós que íamos saber resolver o somatório de pi com xy e menos não sei o quê que na realidade era a multiplicar porque havia ali um parêntesis.

Já não me recordo se o Ginho balbuciou alguma coisa. Eu não consegui. Olhei para os tamancos de madeira e tentei desaparecer.

O gajo chamou-nos bois. Nunca na minha vida académica tinha sido tão maltratado. Nem sequer na receção ao caloiro. Boi?!

É por causa deste trauma de juventude que evito anuir com gestos afirmativos da cabeça, o que nos leva ao início desta crónica.

Enquanto a Aline debitava todo o ódio que tem à covid, aos confinamentos, aos recolheres obrigatórios e às restrições de circulação, eu optei por não anuir. Fiquei imóvel, sentado no sofá, a ouvir, cabisbaixo. Foi então que ela se colocou a meio metro de mim. Eu só via os seus chinelos grandes em forma de barcos. Decidi não levantar a cabeça. Ela gritou (se calhar não gritou, mas pareceu que sim): e tu, com a cabeça enfiada nas mãos como uma avestruz não tens nada a dizer? 

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