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Semana negra divide portugueses em Esch
Luxemburgo 7 min. 24.11.2021
Black Friday

Semana negra divide portugueses em Esch

Em Esch-sur-Alzette, as promoções da Black Friday começaram mais cedo. Comerciantes portugueses estão divididos.
Black Friday

Semana negra divide portugueses em Esch

Em Esch-sur-Alzette, as promoções da Black Friday começaram mais cedo. Comerciantes portugueses estão divididos.
Foto: dpa
Luxemburgo 7 min. 24.11.2021
Black Friday

Semana negra divide portugueses em Esch

Tiago RODRIGUES
Tiago RODRIGUES
Este ano, a febre da Black Friday começa mais cedo. Já não é só a sexta-feira, nem o fim de semana. Agora há toda uma ‘semana negra’ para as promoções do fim de novembro. Os vendedores portugueses em Esch-sur-Alzette têm opiniões divididas. O Centro Europeu dos Consumidores alerta para uma “explosão” das vendas online.

Todos os anos, no final de novembro, regressa a febre da Black Friday. Mas aquela que era a tradição da ‘sexta-feira negra’, inicialmente celebrada nos Estados Unidos no dia seguinte ao de Ação de Graças, transformou-se num fenómeno de marketing que já não cabe em apenas 24 horas. Da sexta-feira passou ao ‘fim de semana negro’. Agora, é uma semana inteira.

O conceito original passava por criar um dia que inaugurasse a época das compras de Natal, na última sexta-feira de novembro, com grandes promoções. Nos últimos anos, o momento alto do consumismo tem começado cada vez mais cedo. 

Em Esch-sur-Alzette, a segunda maior cidade do Luxemburgo, as ruas já começavam a ter mais gente no início desta semana. Mesmo numa tarde de segunda-feira, dezenas de pessoas passeavam pela rue de l’Alzette, a principal via de comércio, e nas lojas já se viam alguns cartazes alusivos à Black Friday e produtos com descontos.

O facto de Esch ser a Capital Europeia da Cultura em 2022 está a atrair mais gente.

Mário Amaral, colaborador da Tiffosi

Algumas dessas lojas são de marcas portuguesas, como a Tiffosi, onde trabalha Mário Amaral, emigrante de 26 anos que deixou Coimbra há 11. Para o português, esta altura do ano é cada vez mais importante, tanto para os vendedores como para os clientes. “Antes quem falava da Black Friday olhava muito para os Estados Unidos, mas agora as pessoas já conhecem melhor e já se vê muito mais na Europa. Já começam a vir durante a semana a perguntar se temos promoções”, explica.

Naquela loja de roupa, as promoções só começam na sexta-feira, com a diferença que nesse dia os estabelecimentos fecham uma hora mais tarde, às 19h. “Fazemos uma percentagem de promoção em toda a nova coleção. Também temos uma campanha de Natal, que fazemos todos os anos, e este ano começou mais cedo”, conta o colaborador da loja.

Mário Amaral, colaborador da Tiffosi.
Mário Amaral, colaborador da Tiffosi.
Foto: Tiago Rodrigues

Além da agitação da ‘semana negra’, Mário considera que há algo diferente na cidade que está a atrair mais pessoas: “Este ano há pequenas barracas com comerciantes nas ruas e o facto de Esch ser a Capital Europeia da Cultura em 2022 está a atrair mais gente. Mesmo com a covid, à medida que o tempo passa as pessoas vão saindo mais”.

Comércio está a sofrer

Noutra loja portuguesa, numa das ruas transversais à de l’Alzette, a visão não é tão otimista em relação ao negócio. Hélder Silva, de 37 anos, é proprietário da Skulk, uma marca de roupa e acessórios 100% portuguesa que abriu em Esch há dois anos, e afirma que a Black Friday está a ter “zero efeito na rua”. “Este ano está a ser muito complicado para o comércio. Achávamos que o mais difícil tinha sido em 2020, mas 2021 está a ser muito pior. Mesmo sem o confinamento, foi um ano muito fraco para o comércio de rua”.

Este ano está a ser muito complicado para o comércio. Achávamos que o mais difícil tinha sido em 2020, mas 2021 está a ser muito pior.

Hélder Silva, proprietário da Skulk

Uma das razões para essa dificuldade pode estar relacionada com o crescimento das vendas online, mas Hélder recorda que “os mais velhos ainda vão às lojas de rua” e o que está a prejudicar o negócio é o facto de as pessoas “andarem cansadas” por causa da pandemia. “Vão menos de férias, saem menos, convivem menos. Já não dão tanto valor à roupa, porque já não têm onde a mostrar. Isso nota-se no comércio de rua”, lamenta, relembrando que no ano passado, depois do confinamento, “houve muita gente na rua”, mas agora as pessoas já não vão para o centro e o “comércio está a sofrer”.

Apesar disso, o facto de as promoções da Black Friday começarem mais cedo “é sempre benéfico”, porque “atrai as pessoas a dar o passo para ir ver”. Mas, na opinião de Hélder, esta data é para “as lojas internacionais, que têm um grande stock e precisam de liquidá-lo”. 

Quanto às pequenas lojas, “têm aguentado o barco”, mas se continuarem assim “não vai dar para os comerciantes”, avisa o português. “Até as grandes marcas fecham porque o dinheiro não está a entrar. É o que vai continuar a acontecer em Esch. Não acredito que a Black Friday vá ajudar. Só para as pessoas que queiram comprar já as prendas de Natal, mas não vai ser isso que vai trazer gente. A única coisa que podia ajudar era a comuna dinamizar a vila”.

Olham mas não compram

Também na movimentada rue de l’Alzette, algumas pessoas vão passando pela loja Tally Weijl, mas poucas vão realmente comprar algo. A responsável do estabelecimento, Marisa Cardoso, 38 anos, nota que apesar de as promoções terem começado mais cedo, o comércio “continua calmo”, porque as pessoas “esperam pelo dia oficial”. “Há muitas lojas que ainda não têm promoções, outras já começaram, mas quase todas esperam mesmo pelo dia, porque tem mais movimento”.

Este ano esperamos que seja igual ou melhor do que o ano passado. As pessoas antecipam-se a fazer as compras de Natal.

Marisa Cardoso, responsável da loja Tally Weijl

Na loja daquela marca suíça, que vende roupa, calçado e acessórios para mulher, já há algumas promoções desde quarta-feira passada, entre os 30 e os 70%. Devido à animação de Natal há mais pessoas a passear nas ruas, “mas a nível de compra não se sente muito”. 

Ainda assim, a antecipação da Black Friday “ajuda”, porque as pessoas “ficam mais contentes em ter os descontos mais cedo”. “Vão aproveitando, mas sabem que no próprio dia é que vão ter mais promoções, que é um dia especial. Vai haver mais movimento e vamos ter mais vendas”, garante.

Marisa Cardoso, responsável da loja Tally Weijl.
Marisa Cardoso, responsável da loja Tally Weijl.
Foto: Tiago Rodrigues

Para a portuguesa, que trocou o Minho pelo Luxemburgo há 25 anos, a expectativa é que este ano corra tão bem como no ano passado, em que, apesar da pandemia, houve a Black Friday e foi “um bom fim de semana”. “Este ano esperamos que seja igual ou melhor. As pessoas antecipam-se a fazer as compras de Natal, porque há preços mais baixos, então aproveitam esse fim de semana”.

Canibalismo comercial

Lá perto, na loja Veritas, a dinâmica tem sido semelhante: muitos clientes a entrar, mas poucas compras. “Na rua, ainda não se faz sentir. Há as barracas de Natal e muitas pessoas a passar, mas está tudo à espera da Black Friday”, reconhece a gerente, Maria Roque, 55 anos. Naquela loja, que vende produtos de costura, roupa interior, pijamas e acessórios de moda, as promoções começam esta quarta-feira e vão até ao dia 30, com uma campanha "leve quatro artigos e pague três".

As pessoas não podem comprar a toda a hora e em todo o lado. É impossível. Pode prejudicar os comerciantes, porque vamos estar em canibalismo uns com os outros.

Maria Roque, gerente da loja Veritas

Por começar mais cedo, a semana da Black Friday oferece a possibilidade de as pessoas anteciparem as compras de Natal, mas Maria não acha que isso vá ter impacto nas vendas do mês de dezembro. 

Além disso, a portuguesa considera que haver uma ‘semana negra’ “não é benéfico” para os vendedores. “Acho que é um incentivo ao consumismo. As pessoas não podem comprar a toda a hora e em todo o lado. É impossível. Pode prejudicar os comerciantes, porque vamos estar em canibalismo uns com os outros, em concorrência direta”.

Maria Roque, gerente da loja Veritas.
Maria Roque, gerente da loja Veritas.
Foto: Tiago Rodrigues

A gerente diz que, por enquanto, é a animação de Natal que atrai mais pessoas à rua, mesmo apesar de algumas lojas já terem promoções desde o fim de semana passado. “O que não é bom. Seria mais comercial e vantajoso para todos aguardar pelo dia da Black Friday e não a semana inteira. Ou pelo menos só o fim de semana. Uma semana já não é a Black Friday. As pessoas fazem as compras durante a semana e depois na sexta-feira se calhar já não compram nada”.


Um dos conselhos do CEC é que o comprador evite o pagamento antecipado por transferência bancária.
Vendas online vão "explodir". Alguns conselhos para a Black Friday
O objetivo é evitar que os consumidores tenham problemas com as suas compras, algo que é mais comum acontecer na Internet do que nas lojas físicas.

Explosão das vendas online

No outro lado da Black Friday está o comércio online, que continua a crescer, especialmente desde o início da pandemia da covid-19. Antecipando essa corrida aos sites nos próximos dias, o Centro Europeu dos Consumidores (CEC) do Luxemburgo deixou alguns conselhos às pessoas, sublinhando que “a experiência mostra que o número de compras online vai explodir”.

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