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Bilhete. Requiem pelo meu carro a diesel
Editorial Luxemburgo 2 min. 16.11.2018 Do nosso arquivo online

Bilhete. Requiem pelo meu carro a diesel

Bilhete. Requiem pelo meu carro a diesel

Foto: AFP
Editorial Luxemburgo 2 min. 16.11.2018 Do nosso arquivo online

Bilhete. Requiem pelo meu carro a diesel

Gaston CARRE
Gaston CARRE
O meu carro a diesel está condenado pelos defensores do combustível correto.

Durante cinquenta anos, o carro foi uma vaca sagrada, encarnação da modernidade e dos seus fulgurantes avanços. Mas eis que a vaca é levada ao matadouro, como um asno repugnante e incontinente, a libertar a flatulência do azoto pela sua traseira corroída.

O automóvel é doravante um pária, atacado por todos os lados, e não hesitam sequer em atacar o meu velho carro a diesel - o meu carro a diesel é "sujo", dizem os autocratas do combustível correto.

Antigamente, o automóvel era um espaço de liberdade. Lá dentro, em crianças, podíamos ser terríveis, porcos e maus, colar chiclete nos vidros, fazer caretas aos polícias e a quem passava, mais tarde buzinar para assustar os velhos, mais tarde ainda cometer excessos de pé na tábua, "born to be wild" na estrada nacional, com as amigas e o tanque atestado de gasolina éramos movidos a adrenalina.

Esse tempo acabou. O automóvel, que resistiu longamente aos assaltos da decência, torna-se vítima da polícia social e ambiental – ao volante do meu carro a diesel, resisti como pude à tirania dos moralistas e higienistas, mas agora é preciso conduzir a direito, cinto apertado e pulsões reprimidas, numa viatura que reduz as emissões e o prestígio.

Quer-se sujeitar o automóvel a uma mudança, não de óleo, mas semiológica, purgá-lo dos seus atributos mais viciosos, e fazendo-o, castrá-lo, reduzindo a um "meio de locomoção" este objeto maravilhoso que, em "car-sharing" com Deus e o Diabo, permitia circular entre Eros e Tanatos, no além sem 'bluetooth' e no inferno sem ar condicionado.

E não é uma só liberdade que se mata, é uma poesia assassinada. A poesia um pouco vil da viatura, com os seus derramamentos viscosos, o cheiro pesado do alcatrão, o perfume acre da borracha queimada, o lirismo lúbrico das durezas e dos fluidos, o estalido do escape, o glu-glu do radiador, o canto da cabeça do cilindro.

Quando se estaciona um carro elétrico na garagem, ele faz 'Xlic" e morre, privado de sumo, estúpido como o coelho Duracell quando se lhe tira a pilha; o meu carro a diesel, pelo contrário, é sobrenatural: com o motor desligado, dez minutos depois ainda vive - é como um jumento depois da corrida, relincha, dá coices, larga vapores e depois, finalmente, um grosseiro excremento fluido e fuliginoso, é nojento mas é a vida, deita fumo, cheira mal, é prodigioso, é o meu carro a diesel.

O meu carro a diesel está doravante condenado. Vítima do progresso de que foi em tempos a alegoria cromada. Vítima de um progresso que defende o 'car-wash' contra o 'car-trash'. E eu sei que não seremos muitos a chorar sobre o seu capô: nestes tempos demasiado sensatos, só compreenderá a minha embriaguez quem um dia, como eu, esqueceu tudo enquanto dava gás.


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