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Bilhete. Os desligados

Bilhete. Os desligados

Editorial Luxemburgo 2 min. 14.02.2019

Bilhete. Os desligados

Gaston CARRE
Gaston CARRE
Eu tinha um contador de eletricidade idiota, e tenho agora um contador inteligente. Em contrapartida, perdi o senhor que vinha fazer a leitura do idiota.

Creos, a divindade da corrente alternativa, apresentou-se ao meu domicílio para "substituição do contador de eletricidade por um contador inteligente", pelo que deduzo que o antigo era um idiota.

Um contador inteligente, sim. Um contador esclarecido, para responder a questões que nunca me coloquei. Como o meu consumo da eletricidade, por exemplo, eu que nunca explorei as facturas encriptadas, desencorajado pelos "4379,000 KWh energia-dia a 40 A de potência subscrita", ao preço unitário – muito razoável, há que admitir – de 0,04940 euros por KWh, fora o IVA.

Uma inteligência virtual vai pois impor-se à minha pessoa, transformando um lar que eu desejava romântico em bunker domótico, onde mesmo a escova de dentes é dotada de perspicácia. E, como sempre acontece quando o virtual aparece, um homem desaparece. Tudo porque o "contador inteligente será lido à distância, evitando assim a passagem de um leitor de contadores".

Eu cá gostava da visita do leitor de contadores. "Tudo a brilhar?", perguntava-me ele para ser engraçado, eu oferecia-lhe um café para adoçar a nossa humanidade, gostava do boné dele, da cara honesta de serviço público. Agora acabou-se a humanidade, substituída à distância por causa de uma diretiva europeia inteligente que substituiu uma diretiva europeia indigente – razão tem Juncker, a Comissão é o inferno.

Penso comovido no meu vizinho, velho e reformado, viúvo que os filhos esqueceram: esmagado pela solidão, ele gostava que viessem ler-lhe o contador, a corrente passava entre os dois, o leitor de contadores e o velho. A carta que a divindade da corrente alternativa nos enviou está assinada pelo "Head of Grid support": o valente homem desaparece e já fazem carantonhas as entidades com cabeça de 'grid'. Ignoro o que seja um 'grid', mas suspeito que à distância ele se ri da minha ignorância, quando, em posição de lótus em frente ao contador, repito "Ohm, Ohm, mani padne hum". Tecnocrata!

Tudo hoje em dia se resolve à distância: explica-se ao serviço de pós-vendas, por telefone, que a torradeira se torrou, e logo o tipo diz "estou a ver" – o tipo está a vinte quilómetros e vê, à distância, o meu problema no computador dele.

Estou deslumbrado com tanta luz, tanta inteligência, tanta distância. Deslumbrado mas inquieto: estamos cada vez mais conectados em matéria de eletricidade, mas cada vez mais desligados no plano da nossa humanidade.

(Tradução: Paula Telo Alves)