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Bilhete. Elogio da letargia

Bilhete. Elogio da letargia

Foto: Shutterstock
Editorial Luxemburgo 2 min. 17.01.2019

Bilhete. Elogio da letargia

Gaston CARRE
Gaston CARRE
'Footing', 'running', 'move', 'move', por todo o lado as pessoas movem-se, mesmo a Igreja se agita, “movida” por jovens católicos e abades em Adidas.

É um artigo no jornal “La Croix”, sobre as iniciativas originais de jovens católicos. Título: “Dez jovens que fazem mexer a Igreja”.

Aprecio a performance. Porque a Igreja de França, com maiúscula, são pelo menos 45 milhões de pessoas que, mesmo sem contar com os seus missais, pesam muito. Conhecíamos o processo inverso: tudo aquilo que a Igreja faz mover, Lázaro que se levanta e caminha, o mar Vermelho afastado, a fé que move montanhas. Mas será que a Igreja, por sua vez, poderá ser “movida”?

Acho que o jornal La Croix comete um abuso de linguagem. Que faz uso de demagogia. La Croix quer seduzir os jovens, e para o fazer fala-lhes em linguagem jovem, aos “irmãos” e às “miúdas” – La Croix é moderna, mexe-se, é 'cool'. Seja. O que me incomoda é a conjugação, quando o verbo se usa no imperativo – Mexe-te! Mexe-te! 'Move!'. Ouço isto por todo o lado, é mais que um imperativo, é uma ordem de mobilização, emitida pela trupe dos agitados em T-shirt justa de manga cava.

Os vídeos estão cheios deles, estes enervados que nos ordenam que nos mexamos: “move, move your body”, Beyoncé ou Rihanna, as deusas do fitness, que empurraram a música para a ginástica e converteram a cena em sauna, com as suas prestações a lembrar publicidade a desodorizantes. Treinado pelos seus ídolos de 'leggings', o povo em movimento encheu as cidades, por todo o lado cavalga a suar, footing e jogging, a mobilidade a converter-se no referente de uma modernidade que, sem saber para onde vai, se entretém a mexer-se.

E quando enfim estão cansados, os modernos correm à Igreja para encontrar repouso, um banco, uma âncora, mas descobrem então que a Igreja também mexe, “movida” pelos nossos dez jovens exaltados. As Igrejas estão cheias de abades em Adidas, que, de Nike às costas, dobram o Verbo em rap, hip-hop, e um e dois, a pastoral em Reebok, Puma diante dos cordeiros, e um, e dois, e 'muve iór bádi', allez, allez, aleluia!

Eu movo-me como quero, quando quero. Face à ordem de mobilização, defendo o elogio da letargia contra a liturgia do movimento. A Imobilidade como figura última da resistência, a inação como subversão, é este o meu credo, enquanto na minha direção rola – sai da frente! 'move!' – a Igreja, movida por dez jovens 'sherpas' do La Croix.