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Benoît Otjacques. "A inteligência artificial será um dos grandes componentes económicos" do Luxemburgo
Luxemburgo 3 4 min. 01.01.2021

Benoît Otjacques. "A inteligência artificial será um dos grandes componentes económicos" do Luxemburgo

Benoît Otjacques. "A inteligência artificial será um dos grandes componentes económicos" do Luxemburgo

Foto: António Pires
Luxemburgo 3 4 min. 01.01.2021

Benoît Otjacques. "A inteligência artificial será um dos grandes componentes económicos" do Luxemburgo

Catarina OSÓRIO
Catarina OSÓRIO
O especialista do LIST e defensor de algoritmos éticos acredita que a inteligência artificial será um dos motores económicos do país, em áreas como a indústria e os setores financeiro e público.

Surpreendentemente, a conversa com Benoît Otjacques, responsável pela unidade de Data Science e Analytics no LIST, tem pouco de covid-19. O investigador belga trabalha no Luxemburgo há 25 anos. Se nessa altura o Grão-Ducado não tinha sequer uma universidade, hoje dota-se de várias instituições ligadas à investigação, como é o caso do Luxembourg Institute of Science and Technology (LIST). Ainda em teletrabalho grande parte do tempo, o especialista em inteligência artificial (IA) começa por contar que se há coisa boa que a pandemia trouxe foi poder passar mais tempo em casa.

"Eu tenho o luxo de viver no campo. Vivo na Bélgica e trabalho no Luxemburgo, atualmente não me desloco todos os dias para o trabalho como dantes" da pandemia, diz alegremente. Algo que foi a realidade de milhões durante a pandemia, graças às novas tecnologias e à net, uma área que vê crescer há mais de 30 anos.

A inteligência artificial, entrou na vida de Benoît ainda jovem, num instituto que deu origem mais tarde ao que é hoje o LIST. "Quando comecei [em 1996] a inteligência artificial já lá estava mas não era falada como hoje. O que era hype na altura, mesmo antes da web como hoje a conhecemos, era o e-commerce. Mais tarde chegou a "visualização [digital] de dados". Fui aliás o "primeiro no país a fazer investigação nesta área", atira orgulhosamente.

Hoje Benoît Otjacques lidera uma equipa de investigadores. "Todos os conceitos de que falamos hoje são mesmo antigos", como o machine learning [uma sub-área da IA que estuda como os algoritmos aprendem com os erros, evoluem e fazem previsões]. "Sempre esteve lá" para prever o tempo ou até pandemias. A diferença é que agora há "hardware para torná-las mais rápidas e a uma escala maior", complementa.

Atualmente lidera vários projetos em mãos, alguns ligados à covid-19. Como o uso da voz e tosse para detetar a doença ou um painel digital com os vários projetos da Task Force Covid-19 para ajudar as autoridades de saúde a tomarem decisões mais informadas. Outra das aventuras é a criação do 'pneu do futuro', uma parceria com a fabricante americana Goodyear.

"A IA será um dos grandes componentes de desenvolvimento económico do país nas próximas décadas", projeta. Veja-se a exploração espacial, o supercomputador MeluXina, ou a criação de hidrogénio 'verde'. Mais recentemente, o Governo lançou uma consulta pública sobre a temática, um indicador de que o tema está na agenda política. "Não estamos apenas a falar das empresas de IT, mas da indústria, setor financeiro e setor público. O país tem todas as cartas, temos a infraestrutura, os centros de dados, temos o MeluXina, investigadores e temos aplicações", argumenta. "Mas terá de manter sempre uma abordagem de ética e justiça quanto ao uso destas tecnologias", salienta.

Não é a inteligência artificial que define os problemas, são os criadores

O otimismo na tecnologia tem sido abalado pelo descrédito nas fake news, desinformação e algoritmos preconceituosos. Está a faltar uma IA "ética". "Eu prefiro chamar-lhe 'inteligência artificial acionável'", refuta o especialista. Internet, redes sociais, automação, transportes, Benoît antecipa "inúmeros desafios" que terão de ser prioridade nos próximos anos. Começando por mais "regulação" e "responsabilidade" em relação aos algoritmos. "Tal como uma empresa de automóveis não pode vender carros sem travões, tem de respeitar certos regulamentos de segurança e não se iria atreveria sequer a fazê-lo", metaforiza. "Começa-se a desenvolver a tecnologia sem regras e quando esta começa ser largamente utilizada as pessoas começam a dizer 'ok, há aqui um problema'".

E é este o grande desafio dos próximos anos para o Luxemburgo, antevê. Uma convicção que é já aplicada pelo LIST. "Queremos manter o fator humano no 'loop'". "Sei que há vários medos em relação à IA sobre eliminar postos de trabalho. Eu acredito que a tecnologia pode complementar o trabalho. Vamos sempre precisar de pessoas", diz convictamente.

Outro dos desafios é refletir no propósito da tecnologia. "Eu quero usar IA para recrutar pessoas, ou para otimizar os meus investimentos financeiros ou outras coisas quaisquer?". "A definição do problema é humana, não da 'máquina' (...) O algoritmo por si só não decide o que é justo ou não", argumenta. "Se um algoritmo é ou não justo, é uma decisão humana", reitera.

"A tecnologia nunca será perfeita.(…) Pode ser usada para o bem e para o mal. Cabe-nos a nós estabelecer que problema queremos ver colmatado: se carros autónomos que possam salvar vidas na estrada ou drones que matam pessoas". Qualquer dos dois será sempre uma escolha humana.

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