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Batem leve levemente
Opinião Luxemburgo 4 min. 15.01.2021

Batem leve levemente

Batem leve levemente

Foto: Anouk Antony
Opinião Luxemburgo 4 min. 15.01.2021

Batem leve levemente

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Curiosamente, o fascínio que temos pela neve que bate leve levemente não acaba quando emigramos para países onde ela é mais frequente.

Na semana passada queixei-me da neve e da incompatibilidade que tenho com ela quando me encontro ao volante. Hoje apetece-me fazer as pazes com a neve.

O título destas crónicas só costuma ser escrito no final do artigo, mas hoje foi ao contrário, prque é óbvio: quando um português pensa em nevões recorda inevitavelmente a “Balada da Neve” de Augusto Gil. Somos tantos a pensar “batem leve, levemente” quando a neve começa a cair... Umas estrofes mais à frente, Augusto Gil revela o mistério: “fui ver. A neve caía do azul cinzento do céu, branca e leve, branca e fria... Há quanto tempo a não via! E que saudades, Deus meu!”.

Os portugueses que vivem lá em baixo têm todas as razões para terem saudades. Excetuando certas zonas montanhosas, Portugal não oferece neve regularmente e a excitação quando ela aparece é enorme. Ainda ontem fiz um FaceTime com a minha sobrinha enquanto nevava no Luxemburgo. Podemos ir aí este fim de semana? perguntou ela, ansiosa por ver neve, tocar na neve, andar na neve.

Curiosamente, o fascínio que temos pela neve que bate leve levemente não acaba quando emigramos para países onde ela é mais frequente. Um estudo com base numa científica análise de conteúdo que ontem fiz no Facebook prova-o.

A neve começou a cair de forma bem visível no Luxemburgo esta semana e acreditem que 70% dos “posts” dos emigrantes no Facebook eram fotografias de neve (30% eram de pessoas que dizem que vão votar num tipo racista e troglodita que se candidata este ano à Presidência da República).

Às publicações sobre a neve pode aplicar-se uma tipologia que nos permitirá compreender melhor o que vai na cabeça dos nossos compatriotas quando ela cai (quando aos posts sobre o tal candidato há uma tipologia de base: são alimentados por ódio, e assinados por portugueses mais racistas, antidemocratas e infrequentáveis do que o próprio candidato).

A neve inspira sobretudo fotografias tiradas desde o quentinho da sala de estar. Este tipo de posts é o mais frequente: olhem, está a nevar, que frio, brrrr. Habitualmente os autores deste tipo de fotografias nem sequer colocaram o nariz fora da janela, limitando-se a estimar a temperatura em função daquilo que a neve deixa adivinhar (o equivalente nos posts sobre o tal candidato é: os políticos são todos corruptos; já chega! É gente que ouve pedaços de ideias e fica a achar que concorda com o candidato, mas se alguém no país onde vivemos estivesse no poder, nós emigrantes estávamos feitos ao bife).

Outro tipo de “post” de neve é o dos pais babados. Vestem os filhos a rigor, levam-nos para o sítio com mais neve nas redondezas de casa e toca a tirar fotos aos rebentos com a legenda: os meus amores a divertirem-se na neve. Por vezes os miúdos estão a divertir-se mesmo, mas muitas dessas imagens revelam já um início de hipotermia, enquanto que a mãe escreve: o Pedrinho adora a neve e o Bobi também (o equivalente destas publicações relativas ao candidato de que falei antes é mais ou menos assim: não há político como o meu, ele defende as pessoas trabalhadoras e de bem e isso de ele não gostar de ciganos está muito bem que eu também não gosto... a não ser dos que marcam golos pela seleção).

As publicações com mais likes nas redes sociais costumam ser as pseudoartísticas. Hoje em dia, um telefone tira fotografias de fazer inveja a qualquer profissional. Muitos portugueses esperam o anoitecer, ou procuram desfocar uma parte da imagem para em seguida publicar meia dúzia de fotos numa galeria no Facebook com uma menção inspiradora: a neve, a noite, a minha cidade (o equivalente nos posts dos apoiantes do tal candidato que acha que já chega de não sei o quê, são excertos de frases que, tiradas do contexto, parecem inteligentes mas que, completas, revelam que o senhor se está a marimbar para a democracia, os direitos humanos e todas as conquistas que os países civilizados foram fazendo desde a segunda guerra).

Como podem ver pela análise de conteúdo cientificamente fundamentada aqui apresentada, os portugueses adoram neve e gostam imenso de publicar fotografias e vídeos com ela a bater leve levemente.

Mas também há os que se enervam com a neve, e – tenho a impressão – são os mesmos ressabiados que dizem votar no tal candidato. São gente que passa a vida a reclamar e que, quando neva, vêm logo dizer que não passou nenhum camião a espalhar sal ou que lá na rua deles há um vizinho que nunca limpa o passeio. Se eu fosse um político luxemburguês da mesma estirpe do tal candidato à Presidência que diz chega, respondia a esses portugueses: não gostas de neve? Então vai prá tua terra! 

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