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Bancos temem onda de falências
Luxemburgo 4 min. 21.05.2020

Bancos temem onda de falências

Bancos temem onda de falências

Foto: Pierre Matgé
Luxemburgo 4 min. 21.05.2020

Bancos temem onda de falências

Os banqueiros pedem ao Estado que intensifique os esforços para salvar as empresas em dificuldade.

Embora o país tenha contraído um empréstimo de 2,5 mil milhões de euros para fazer face à crise da covid-19 e garantir empréstimos do Estado para as empresas, o otimismo não está a alastrar entre os empresários. 

O setor bancário, principal interlocutor das empresas, solicita que as medidas de apoio sejam mantidas e reforçadas para evitar a multiplicação das liquidações. "Por enquanto, as empresas continuam cautelosas porque ninguém sabe realmente se já estamos no fim do túnel", explica Jeffrey Dentzer, chefe do Corporate & Institutional Banking do Banque Internationale à Luxembourg (BIL). 

Segundo ele, as grandes incógnitas permanecem porque a atividade económica caiu 25% no auge da crise e existem os riscos de "uma curva V ou W, o que significaria um abrandamento após uma breve recuperação". 

Para as empresas que acabam de retomar as suas atividades, a moratória concedida pelos bancos sobre o reembolso dos empréstimos concedidos antes de 18 de Março está a aliviar as tensões. No final de abril, tinham sido concedidas às empresas mais de 8 mil moratórias de pagamentos de seis meses, representando um valor acumulado de mais de 2,6 mil milhões de euros - inteiramente a cargo dos bancos. 

Apesar da taxa de aceitação dos pedidos ter sido de quase 98%, esta medida não garante a sobrevivência económica dos envolvidos. Herbert Eberhard, diretor-geral da Creditreform Luxembourg, não tenciona fazer quaisquer planos para o futuro, embora acredite que não haja grandes dúvidas de que em breve se irá observar uma onda de falências. 

Uma nova fase que se seguiria ao aumento de quase 6% do número de empresas em liquidação. De facto, em 2019, 1.263 empresas tinham encerrado, num total de 36 mil, de acordo com a Câmara de Comércio. Em média, desde 2010, cerca de mil empresas por ano foram à falência no Grão-Ducado. 

Devido ao aumento de incumprimento dos pagamentos aos bancos e para aliviar a pressão sobre o setor,  algumas exigências europeias foram reduzidas, como o adiamento por um ano do aumento de capital das instituições financeiras desejado por Bruxelas. 

 No entanto, com uma garantia estatal para 85% dos novos empréstimos concedidos às empresas, será que os bancos estão a beneficiar desta situação de crise? "Não há vencedores nesta crise", assegura Philippe Depoorter, membro do Comité Executivo do Banque de Luxembourg e chefe da Business & Entrepreneurs. E por uma boa razão. "A crise também está a afetar parcialmente os próprios bancos", salienta, referindo a queda da procura de crédito. 

"Muitos projetos foram suspensos devido à incerteza económica geral. Toda a gente está no nevoeiro", afirma, uma vez que Bruxelas prevê uma queda de 7,4% da produção económica este ano na UE, enquanto no Luxemburgo, segundo o Statec, é de apenas 5,4%. Isto não constitui de modo algum uma garantia de manutenção da actividade e sobrevivência das empresas que têm sido abaladas desde o início da crise sanitária. 

"Os auxílios concedidos, que têm uma duração máxima de seis anos, terão ainda de ser reembolsados pelas empresas", insiste Philippe Depoorter. "E se não tiveres coluna vertebral forte o suficiente, será impossível." A situação é também muito crítica para as pequenas empresas, nomeadamente nos domínios da gastronomia, do turismo e do comércio a retalho, como o demonstram os números publicados pelo Statec em abril. 

A este respeito, o impulso para o sector de 700 a 800 milhões de euros, anunciado na quarta-feira pelo primeiro-ministro Xavier Bettel (DP), parece ser uma boa notícia.

"Mas os empréstimos não existem para financiar custos fixos", diz o chefe do Banque de Luxembourg, que pede auxílios estatais diretos, "porque hoje em dia muitas empresas não têm capacidade para contrair e reembolsar grandes empréstimos". 

 Para Yves Biewer, membro da direcção executiva do Banque Raiffeisen, a grande incerteza que os bancos devem ter em conta é se uma segunda vaga de infecções irá rebentar e como será gerida. 

"Haverá um novo confinamento e como vai ser?" Nicolas Henckes, diretor da Confédération luxembourgeoise du commerce (CLC), confirma igualmente que as empresas que não têm rendimentos desde Março não se apressam a contrair novos empréstimos. 

"Este fator poderia ser mitigado se o governo aumentasse a sua garantia para 100%", afirma. "Não temos medo que as empresas estejam sobreendividadas, temos medo que elas vão à falência". 

"Com um empréstimo, a única questão é se você quer morrer hoje ou um pouco mais tarde". Segundo ele, são necessárias outras medidas: descontos em termos de renda, impostos ou contribuições para a segurança social. E mesmo as taxas de juro aplicadas pelos bancos "por vezes atingem 6%", em vez dos 2 ou 3% anunciados pelo Ministro das Finanças Pierre Gramegna (DP). 

Artigo publicado originalmente na edição francesa do Luxemburger Wort, de autoria de DH e Marco Meng. 

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