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Baião, a vila portuguesa que se mudou para Differdange
Luxemburgo 4 10 min. 01.08.2022
Imigração

Baião, a vila portuguesa que se mudou para Differdange

Tito Lima mostra o jornal da sua terra e a medalha que recebeu da autarquia de Baião em homenagem aos mais de 25 anos como emigrante.
Imigração

Baião, a vila portuguesa que se mudou para Differdange

Tito Lima mostra o jornal da sua terra e a medalha que recebeu da autarquia de Baião em homenagem aos mais de 25 anos como emigrante.
Foto: Guy Jallay/Luxemburger Wort
Luxemburgo 4 10 min. 01.08.2022
Imigração

Baião, a vila portuguesa que se mudou para Differdange

Tiago RODRIGUES
Tiago RODRIGUES
Foram chegando ao longo dos anos. Através de familiares e amigos, emigraram para o Luxemburgo à procura de uma vida melhor. Hoje, diferentes gerações de baionenses têm a sua aldeia nesta comuna.

Tito Lima é um verdadeiro embaixador de Baião no Luxemburgo. É fácil encontrá-lo a conversar com os vizinhos na rua onde vive, em Differdange, num dia de sol. Vai passeando de boné azul, com o jornal da sua terra debaixo do braço. É nas notícias d’O Comércio de Baião que vai matando as saudades da aldeia que deixou há 33 anos. Como ele, muitos outros baionenses emigraram para o Grão-Ducado. E quase todos foram parar à mesma comuna.

Naquela altura, todos queriam emigrar para trabalhar e pediam uns aos outros. Arranjaram para mim e eu arranjei para outros.

Manuel Araújo, imigrante português em Differdange

É difícil saber ao certo quantos habitantes de Baião se mudaram para Differdange ao longo dos anos, mas entre a comunidade daquela vila portuguesa que hoje vive na cidade luxemburguesa existe a ideia de que quase toda a aldeia emigrou. Quando Tito chegou ao Luxemburgo em 1989, com 24 anos, já cá estavam alguns conterrâneos. “Os primeiros vieram na década de 60. Muitos já morreram, outros voltaram para Baião”, recorda ele, hoje com 57 anos.

Na altura, a emigração “era completamente diferente”, explica Tito. “Nas férias, quando os mais velhos que já cá estavam iam à aldeia, nós perguntávamos se nos arranjavam trabalho. Trabalhava-se muito, mas ganhava-se muito dinheiro. Eu e muitos outros viemos para ter uma vida melhor”. Ele chegou ao Luxemburgo sozinho, para trabalhar na construção. Depois veio a mulher e o filho. Ela trabalhou nas limpezas. Hoje têm a sua casa em Differdange, onde vivem há 19 anos.

Mais de metade da minha aldeia veio para cá. Se vem um, vêm todos.

Tito Lima, imigrante português em Differdange

Tito conseguiu um contrato de trabalho no Grão-Ducado através de um amigo que já cá estava. A emigração acontecia no boca-a-boca. “Quando eu vim, éramos quatro ou cinco a chegar. Mais de metade da minha aldeia veio para cá. Se vem um, vêm todos. Vieram para o Luxemburgo, mas também para a Bélgica e Suíça”, conta. Ele é da freguesia de Teixeira, uma das 14 que compõem o território daquele município do Norte de Portugal, com cerca de 20 mil habitantes

Na comuna de Differdange, no Sul do Luxemburgo, há mais de 28 mil, sendo que mais de um terço são portugueses. Não é de estranhar por isso que, enquanto caminha até ao centro da cidade, Tito vai cumprimentando quase todas as pessoas por quem passa. Umas são de Baião, mas também há os vizinhos de Amarante ou do Marco de Canaveses. Ele conhece toda a gente, como se continuasse na aldeia, mas o convívio já não é o mesmo de antigamente. “Naquela altura tínhamos uma associação onde parávamos todos. Hoje é um café”.

É lá que agora encontra os amigos baionenses. Tito está reformado há cerca de dois meses, por invalidez, devido a um problema nas costas. Aproveita o tempo livre para estar com a família. Tem um filho com 35 anos e uma filha com 29, que já lhe deram duas netas, recém-nascidas. Vivem todos no Luxemburgo. Este ano, vão juntos de férias para Baião, o que já não acontecia há muito tempo, reflete, entusiasmado com a ideia. “Lá acabo por encontrar pessoas que não vejo aqui durante o ano. Mas agora é diferente, porque muitos já não ficam em Baião, vão para o Algarve ou outros sítios”.


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Em agosto, a Câmara de Baião organiza o encontro anual dos emigrantes, que este ano assinala a décima edição. Foi numa dessas festas que Tito recebeu a medalha que orgulhosamente guarda em casa. Era uma recordação para aqueles que estavam emigrados há mais 25 anos. A maior parte dos homenageados viviam no Luxemburgo. É por isso que ainda hoje a autarquia baionense tenta manter o contacto com a comunidade, enviando quinzenalmente o jornal da terra a cerca de 90 famílias no Grão-Ducado. Um número que não corresponde nem a metade das que realmente vivem no país, admite o município.

Encontro de gerações

Depois de atravessar a cidade a pé, durante 20 minutos, entre cumprimentos e passou-bens aos camaradas, Tito chega finalmente ao Café Pombalito, na Avenue de la Liberté. Agora que não existe a associação onde antigamente se reuniam os conterrâneos, é ali que reencontra algumas caras conhecidas. Como o amigo Manuel Araújo, que era seu vizinho na freguesia de Teixeira. Com 71 anos, é um dos baionenses mais antigos ainda a residir em Differdange.

Manuel faz parte de uma das primeiras gerações de emigrantes de Baião. “Estive na Guerra do Ultramar, entre 72 e 74. Depois voltei para Portugal e mais tarde, em 1979, vim para o Luxemburgo. Tinha 28 anos. Já cá estavam alguns, mas não eram muitos. Vinham à procura de uma vida melhor”, conta. Ele trabalhou nas obras. Depois veio a mulher, para trabalhar nas limpezas, e a filha. Uma história que se repetia entre os emigrantes ao longo dos anos. 

A gente vai e vem. Tenho aqui os filhos e os netos. Eu gosto muito daquilo e sinto-me bem quando vou lá. Encontramos os amigos todos. Mas aqui é quase como se estivesse lá. É um país impecável.

O veterano conseguiu trabalho no Grão-Ducado através de um compadre. “Na altura viemos três, de comboio. Éramos vizinhos. Depois de nós, vieram muitos mais. Ainda há cá alguns da minha geração. Mas os primeiros vieram nos anos 60. Conhecia-os quase todos. Estou cá há 43 anos, agora sou dos mais antigos”, reconhece, desvendando o fenómeno da emigração de Baião para o Luxemburgo. “Naquela altura, todos queriam emigrar para trabalhar e pediam uns aos outros. Arranjaram para mim e eu arranjei para outros. Há muitos baionenses espalhados por aí”.

Os irmãos de Manuel também se mudaram para Differdange. Ele é o mais velho de cinco. Dois ainda vivem na comuna. Os três filhos e os quatro netos também estão todos no Luxemburgo. Deixou de trabalhar há 20 anos, com uma pensão de invalidez. “Foi uma vida de muito trabalho, mas deu resultados. Agora passo o meu tempo aqui no café e a levar a neta à escola”, revela. A Baião vai duas a três vezes por ano, nas festas e em agosto. “É bom ir lá, mas depois de passar lá muito tempo, já queremos voltar para cá”.

Apesar de ter saudades de “quase tudo” da sua terra, é no Luxemburgo que pretende passar o resto da reforma. “A gente vai e vem. Tenho aqui os filhos e os netos. Eu gosto muito daquilo e sinto-me bem quando vou lá. Encontramos os amigos todos. Mas aqui é quase como se estivesse lá. É um país impecável”, admite, dando o exemplo das novas gerações de emigrantes que continuam a chegar ao Grão-Ducado, como as cozinheiras daquele café, que também são de Baião. 

Darcília Pinto, 34 anos, e Vera Venâncio, 27, fazem parte de uma nova vaga de emigração da sua terra. Uma é da freguesia de Gestaçô e a outra de Loivos do Monte. Não se conheciam antes de se cruzarem no Luxemburgo. Darcília chegou primeiro, há oito anos. “Fiquei desempregada e uma pessoa que já estava cá há alguns anos disse-me para vir. Dizia que era um país bom para se ganhar dinheiro. Só que quando cá cheguei não era bem aquilo que estava à espera”, confessa. Ela não conseguia arranjar trabalho. Começou nas limpezas e só mais tarde é que surgiu a oportunidade de trabalhar no café.

Darcília viveu sempre em Differdange. O marido estava na Bélgica, mas foi ter com ela. Têm três filhos. Não se imagina a voltar para Portugal, só lá vai uma vez por ano, nas férias de verão. “Reencontramos algumas pessoas que estão aqui e os familiares que ainda vivem lá”. Mas é ali naquela comuna luxemburguesa que está a sua nova aldeia. “Quase toda a gente se conhece. Muitos dos que já estavam cá acabaram por ir puxando outras pessoas, fossem família ou amigos”, explica.

Penso que daqui a quatro anos vou regressar, porque comprei lá casa. É uma mini quinta e quero trabalhar em turismo.

Vera Venâncio, imigrante portuguesa em Differdange

Voltar à terrinha

O caso de Vera foi diferente. Chegou ao Luxemburgo em 2016, com 21 anos, através de um dos três irmãos que já viviam em Differdange. No mesmo ano, seguiu-lhe a irmã e mais tarde veio outra. Ao todo são oito, os restantes estão em Portugal. Depois também veio o marido. O primeiro emprego foi naquele café, mas quando ficou grávida foi viver para Ettelbruck. Há um ano, regressou ao Pombalito. Vai a Baião sempre em agosto, para ver a família. É para lá que quer voltar. “Penso que daqui a quatro anos vou regressar, porque comprei lá casa. É uma mini quinta e quero trabalhar em turismo”, anuncia.

A tarde já vai longa e Tito despede-se do amigo Araújo e da malta do café para fazer a caminhada de volta até casa. À saída, faz uma paragem para observar os trabalhos de umas obras lá ao lado. Dentro da escavadora está outro conhecido de Baião, o Francisco da freguesia de Loivos do Monte. Enquanto ele termina os afazeres, Tito vai falando com os colegas, “que não são de Baião, mas podiam ser”, brinca. A mulher de Francisco, Ilda Gomes, 54 anos, espera pelo marido.

Ela chegou ao Luxemburgo em 1992, poucos meses depois do companheiro. Ele tinha vindo para trabalhar nas obras. “Ele veio através de um tio meu, que já cá estava. Nessa altura já havia muita gente de Baião em Differdange, mas foi aí que começaram a vir cada vez mais. Uns vinham através da família, outros por amigos ou conhecidos. E foram-se concentrando aqui”, lembra. Ilda e Francisco vivem em Niederkorn, que pertence à comuna, e têm dois filhos. “O meu marido também tem cá tios primos e irmãos, todos em Differdange”.


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Ilda começou por trabalhar numa peixaria, mas depois passou para as limpezas. O casal ainda trabalha e só vai a Baião duas vezes por ano, em agosto e no Natal. “Lá encontro mais facilmente as pessoas que não vejo aqui durante o ano. Há muita gente que vive cá e que vai para lá em agosto”, nota ela. Quando chegarem à reforma, devem voltar para Portugal. “O meu marido quer regressar definitivamente. Eu não tenho muita vontade. Mas gostamos da convivência lá. É uma aldeia, sentimos mais falta disso”.

Ainda hoje continuam a chegar algumas pessoas de Baião, mas o que havia para vir já veio. Agora vêm uns de longe a longe.

Tito Lima, imigrante português em Differdange

Ao contrário destes seus conterrâneos, Tito não pensa voltar de vez para o país de origem. Ele construiu lá uma casa, que começou ainda antes de emigrar para o Luxemburgo, mas é com a família que quer estar. “Posso ir lá nas férias em agosto, mais uma ou outra vez durante o ano. Mas tenho cá os filhos e as netas. É ir e vir. Adaptei-me bem a este país e tenho muitos mais anos cá do que lá”, afirma, garantindo que o seu destino de férias será sempre Baião. “Se vou a Portugal, vou para a minha terra. Gosto muito dos ares da serra, mais do que do mar. Sinto mais falta disso”.

O baionense tem orgulho nas suas raízes, mas encontrou em Differdange a sua nova aldeia. “Comecei a ganhar amizades. Já me sinto mais do Luxemburgo do que de Portugal. Quero ter a nacionalidade luxemburguesa, já era para ter pedido o ano passado”, confidencia. Está de volta a casa. Vai continuar a ler as notícias do jornal da terra. Sobre aqueles que lá ficaram e os que estão para vir. “Ainda hoje continuam a chegar algumas pessoas de Baião, mas o que havia para vir já veio. Agora vêm uns de longe a longe”.

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A investigadora luxemburguesa Aline Schiltz estuda a emigração portuguesa para o Luxemburgo desde 2003. A viver entre Lisboa e o Grão-Ducado, a geógrafa, de 35 anos, é autora de vários estudos sobre os portugueses, incluindo uma tese de doutoramento em que analisa a mobilidade entre os dois países. Diz que o Luxemburgo se “lusificou” e que a emigração portuguesa levou à criação de um “espaço transnacional” que podia servir de modelo para uma Europa sem fronteiras.