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Avenida da Liberdade: Ai Jesus!

Avenida da Liberdade: Ai Jesus!

Foto: Lusa
Editorial Luxemburgo 3 min. 23.05.2018

Avenida da Liberdade: Ai Jesus!

Sergio Ferreira Borges
Sergio Ferreira Borges
Ninguém, nem os mais pessimistas, conseguiam antecipar aquilo que se passou em Alcochete, nem o que se tem passado no universo do Sporting. Tudo por obra de um presidente com um estilo muito próprio, cuja escolha não se pode justificar.

Logo que ele chegou à presidência, eu, que não sou sportinguista, viu-o e ouvi-o na televisão e, de imediato, senti que a coisa ia acabar mal. Telefonei a um antigo vice-presidente do Sporting e perguntei-lhe onde tinham descoberto aquela peça. Disse-me que era muito inteligente, com uma enorme capacidade de trabalho e que estava ali o futuro do Sporting.

Não foi preciso muito tempo para que este meu amigo me confessasse a sua desilusão e os seus temores pelo que daqui podia vir. Estava tão dececionado que até abandonou o seu lugar cativo no Estádio de Alvalade.

Desde então, as coisas foram piorando, mas nem todos os sportinguistas se aperceberam de que a tragédia se aproximava. A recente revisão estatutária, imposta por Bruno de Carvalho, foi um sinal terrível, mais uma vez relevado por muita gente.

Tudo piorou depois da derrota do Sporting, em Braga, a 31 de março. O comportamento do presidente alterou-se, com ofensas constantes aos jogadores e à equipa técnica. A eliminação da Liga Europa pelo Atlético Madrid foi apenas um pretexto, preparado com muita antecedência. O terceiro lugar na Liga veio juntar mais gasolina à fogueira. A vontade de despedir Jorge Jesus tornou-se numa obsessão. Na reunião que teve com o treinador, na véspera dos trágicos acontecimentos de Alcochete, disse tudo e o seu contrário. Ameaçou-o de despedimento com justa causa por ter escalado para a equipa jogadores lesionados. Depois, ameaçou-o com um processo disciplinar e acabou por desistir das duas ameaças, adiando tudo para o dia seguinte.

Naquela terça-feira que os sportinguistas não vão esquecer tão depressa, um grupo de choque entrou na academia, com o objetivo único de “pregar um susto”, especialmente dirigido ao treinador, levando-o a demitir-se. Com isso, Bruno de Carvalho livrava-se de Jorge Jesus sem ter de lhe pagar qualquer indemnização. Segundo a imprensa, Jorge Jesus terá provas disto.

Mas quando o grupo de arruaceiros entrou no balneário, o holandês Bas Dost enfrentou-o e foi imediatamente agredido. A situação ficou fora de controlo.

Finalmente, os sportinguistas convenceram-se de que o homem não tem perfil para presidir a uma instituição com a dimensão, o prestígio e a História do Sporting. Mas foi preciso chegar até aqui. E ainda é ele quem tem a faca e o queijo na mão para decidir como tudo se vai passar.

As expetativas foram agora remetidas para depois da disputa da final da Taça de Portugal, perante o Desportivo das Aves. Há quem espere que, por estes dias, se verifiquem as demissões que faltam, na direção, para que Bruno de Carvalho seja obrigado a abandonar a presidência.

Certa parece ser a saída de Jorge Jesus que espera reunir-se, até quarta-feira, com a direção para solicitar a rescisão do seu contrato, alegando falta de condições de trabalho. E, de acordo com alguns jornais, ele teria provas do alegado envolvimento do presidente nos acontecimentos de Alcochete. Provas que poderia até exibir nessa reunião, caso as suas pretensões não fossem atendidas.

Resta a mais importante questão. Depois disto, os jogadores, sobretudo aqueles com mais cotação no mercado, podem pedir a rescisão dos respetivos contratos com justa causa e sair do Sporting sem que o clube receba um único tostão. E basta que seis jogadores o façam para que o clube perca qualquer coisa entre os 200 e os 300 milhões de euros.

Será esse o preço de uma aventura populista que pode transformar o Sporting num clube banal, sem dinheiro e sem uma equipa que possa lutar por títulos. E, se quiser suavizar esta desgraça, terá de gastar muitos milhões em tribunais. Podemos estar ainda no princípio de uma comédia negra, de final infeliz, com um Bruno no papel principal.


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