Atropelamentos: Há uma guerra na estrada e os peões estão a perdê-la

Atropelamentos: Há uma guerra na estrada e os peões estão a perdê-la

Foto: Shuterstock
Luxemburgo 8 min.07.02.2018

Atropelamentos: Há uma guerra na estrada e os peões estão a perdê-la

Alvaro Antonio Silva Da Cruz
Alvaro Antonio Silva Da Cruz

O ano começou com números assustadores para quem anda a pé no Luxemburgo. Em janeiro houve pelo menos 24 atropelamentos, quase um acidente por dia envolvendo peões. O problema divide opiniões.

Isabel Gorgulho nem sequer estava na estrada quando foi atropelada. A portuguesa aguardava no passeio que o sinal ficasse verde para atravessar na passadeira, na route d’Esch, na capital, quando foi atingida pelo retrovisor de uma carrinha. “Eu estava a olhar para o semáforo, estava a chuviscar, tinha capuz e não vi nada”, conta. Isabel Gorgulho é um peso-pluma, com pouco mais de 50 quilos. Com o impacto, foi projetada e deu “uma volta de 360° graus”. Na queda, fraturou o pé direito, abriu o lábio e ficou com “nódoas negras e dores musculares”. E um receio instintivo quando está no passeio. “É suposto estarmos no passeio e sentirmo-nos em segurança, mas as estradas no Luxemburgo não estão preparadas para a dimensão dos carros, são demasiado estreitas”, critica.

A portuguesa estranha até que não haja mais acidentes como o que lhe aconteceu, em outubro. “Depois do acidente, já várias pessoas me disseram que quase foram atingidas por autocarros. A mim também já me aconteceu ter de me desviar do autocarro, e às vezes o motorista ainda começa a barafustar, como se a culpa fosse das pessoas”. Para Isabel, o problema é claro: “Eles [os autocarros] são grandes e as estradas são pequenas. Não há margem, e os carros são obrigados a andar junto ao passeio”.

É suposto estarmos no passeio e sentirmo-nos em segurança, mas as estradas no Luxemburgo não estão preparadas para a dimensão dos carros, são demasiado estreitas.

Números são alarmantes

Isabel Gorgulho foi atropelada em outubro, no mês em que arrancou a campanha “Gitt siichtbar” (“Torne-se Visível”, em luxemburguês), da Segurança Rodoviária, com conselhos para reforçar a segurança dos peões. Apesar disso, todos os meses o número de atropelamentos tem aumentado. Em dezembro foram duas dezenas de acidentes com peões (dois morreram mais tarde), com a contagem a subir para 24 pessoas atropeladas no mês de janeiro, a que acrescem ainda dois ciclistas (ver mapa na página ao lado). “É uma catástrofe, um número alarmante”, lamenta o presidente da Segurança Rodoviária, Paul Hammelman. Pelo menos cinco dos atropelamentos registados em janeiro aconteceram na passadeira, levando a associação a propor a introdução de passadeiras tridimensionais (3D). “O sistema foi inventado na Islândia e tem-se revelado eficaz em vários países”, aponta. Mas o Governo luxemburguês recusou a proposta, alegando dificuldades estruturais. “O governo invoca razões que têm a ver com a estrutura do piso das nossas estradas, mas eu questiono-me: se até a Índia tem passadeiras tridimensionais, por que é que o Luxemburgo não pode ter?”. Outra das propostas é colocar sistemas de iluminação nas passadeiras, que seriam ativados pelos peões. “Os automobilistas seriam alertados com maior antecedência para o perigo”, explica o responsável.

Quase 200 atropelamentos por ano

O Luxemburgo regista anualmente quase duas centenas de atropelamentos, segundo dados do Statec. Em 2016 (o ano mais recente nas estatísticas luxemburguesas) houve 182 atropelamentos, com oito vítimas mortais e 174 feridos.

Os acidentes com peões têm vindo a aumentar nos últimos anos. Em 2000 foram 119 atropelamentos, subindo para 161 em 2010, 169 em 2011 e 200 em 2012. Em 2013, o número caiu para 154, sensivelmente o mesmo de 2014 (156). Em 2015 os acidentes envolvendo peões voltaram a subir para 170.

As causas apontadas são múltiplas: excesso de velocidade, passadeiras em locais inadequados e fraca visibilidade, num país em que os dias são curtos e o clima não ajuda. A atestá-lo, estão os atropelamentos registados no inverno. Nos últimos cinco anos, 65% aconteceram no escuro, segundo dados oficiais. E em janeiro, a maioria das colisões com peões também ocorreu ao final do dia ou de manhã muito cedo (ver mapa). “A luminosidade, no inverno, é ainda mais fraca do que habitualmente, e muitas pessoas vestem-se em tons mais escuros, o que pode dificultar as coisas”, aponta Paul Hammelman.

A velocidade e a falta de luz aumentam a distância de paragem. Segundo a Segurança Rodoviária, um carro que circule a 50 quilómetros demora 15 metros a travar e mais 12,5 metros a parar. Contas feitas, até o veículo ficar completamente imobilizado são precisos mais de 27 metros – uma distância que pode aumentar com fraca visibilidade ou se o estado do piso for mau (com chuva, por exemplo). É o dobro da distância necessária quando o carro circula a 30 km/hora. Por esta razão, a Segurança Rodoviária reclama a redução da velocidade em algumas zonas para 30 e até 20 km/hora. O ministro dos Transportes, o ecologista François Bausch, diz “estar a estudar” a proposta, mas o Governo não parece ter pressa em implementá-la. Em vez disso, em 27 de janeiro a campanha “Gitt Siichtbar – Réfléchissez” foi reforçada, distribuindo braçadeiras refletoras aos peões. A mensagem é clara: cabe aos peões zelar pela sua própria segurança.

A parte mais fraca

Mas para Jean Schmit, ativista dos direitos dos ciclistas e peões, pôr a tónica das campanhas nos peões, “a parte mais vulnerável”, é falsear o debate sobre a segurança nas estradas. Jean Schmit é um pseudónimo: o ciclista, que vive na capital e prefere os transportes públicos ao automóvel, usa o Twitter para divulgar informações para outros adeptos das duas rodas, na conta @luxembourgize. Descontente por as campanhas visarem sistematicamente os peões, Schmit decidiu agir. “No final de 2017, questionei-me: será que esta campanha ['Torne-se visível'] está a dar resposta ao problema? Para tentar perceber, pensei que seria útil começar a mapear sistematicamente todos os acidentes com peões noticiados na imprensa”, contou ao Contacto. O resultado foi um mapa interativo, disponível na internet. Graças aos esforços de Schmit, é possível identificar locais onde os atropelamentos se repetem – caso de Niederfeulen, onde houve dois só em janeiro e mais um em dezembro.

Schmit quis dar visibilidade às vítimas dos atropelamentos, praticamente ignoradas na imprensa. “Tenho realmente a impressão que as vítimas mais vulneráveis da estrada não estão a receber a atenção necessária para realmente abanar as pessoas”, lamenta. “Às vezes há pouco mais do que uma frase”.

Para o ciclista, a culpa é posta sistematicamente nos peões, e a campanha “Torne-se visível” não ajuda. “A impressão óbvia, ao ler as recomendações oficiais, é que os conselhos para os peões parecem ser mais extensos do que os conselhos para os condutores. Nem uma palavra para os condutores distraídos ou outros comportamentos ilegais”, diz. “Só depois de alguma polémica nas redes sociais é que a narrativa oficial foi adaptada e começaram até a recordar aos automobilistas que são obrigados a parar na passadeira”. Com pelo menos cinco atropelamentos em passagens para peões, durante o mês de janeiro, Schmit acha que os condutores têm “um sentimento de impunidade”. “Culpam-se as vítimas. Se não usam ’gadgets’ [para aumentar a visibilidade], a culpa é do peão, ou o peão estava distraído com headphones, ou tinha um capuz, ou o que quer que encontrem para culpar a vítima. Na cabeça de muitos automobilistas, as boas intenções iniciais da campanha converteram-se numa desculpa para justificar o seu mau comportamento”.

O ciclista defende que o problema está no trânsito e no comportamento dos motoristas. “Os condutores estão simplesmente a conduzir depressa demais nestas circunstâncias. São eles a parte mais forte e a responsabilidade é claramente deles, segundo o Código da Estrada. Olhem com atenção e travem sempre que necessário! Abrandem!”. Em vez disso, “temos condutores dentro das cidades a conduzir de forma perigosa só para ganhar alguns segundos, ou estão completamente distraídos e não prestam atenção aos peões. Alguns nem se atrevem a travar, porque têm medo que um condutor distraído ou agressivo lhes bata por trás”.

Um problema crónico

Desde que chegou ao Luxemburgo, Màxim Serranos Soler já foi atropelado duas vezes. A primeira foi em dezembro de 2012, a atravessar uma passadeira na Côte d’Eich, na capital. Um carro parou para lhe dar passagem mas um jipe, na faixa contrária, atropelou-o. “Era uma portuguesa e ficou mais nervosa do que eu, não parava de repetir ’Je ne vous ai pas vu’ [’não o vi’]”, conta o catalão, tradutor no Parlamento Europeu. Màxim partiu o pé esquerdo e acha que teve sorte. “Se tem sido dez centímetros mais perto, podia ter morrido”.

Todos têm de ter cuidado, nós e os carros, mas nós não somos perigosos, e os carros sim!

O segundo acidente aconteceu há um ano, em janeiro de 2017, quando atravessava a antiga ponte azul de bicicleta. Era ao final do dia, “a hora maldita”, mas levava tantos refletores “que parecia uma árvore de Natal”. Dessa vez, o responsável foi outro ciclista, a conduzir uma bicicleta de serviço Vélo. “De repente este tipo veio para cima de mim”, conta Màxim, que ainda não recuperou do acidente. Partiu a tíbia e o perónio, foi operado duas vezes e esteve vários meses em fisioterapia.

Para o tradutor, é preciso fazer mais para garantir a segurança de ciclistas e peões. "Todos têm de ter cuidado, nós e os carros, mas nós não somos perigosos, e os carros sim!"

A solução é a mesma defendida por Jean Schmit. Em vez de obrigar os peões a usar braçadeiras refletoras, é preciso reduzir o limite de velocidade e punir de forma mais severa os automobilistas que não páram nas passadeiras. Tudo medidas impopulares junto dos automobilistas.

Álvaro Cruz e Paula Telo Alves

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