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Associação mais antiga de portugueses no Luxemburgo elimina Portugal do nome
Luxemburgo 3 min. 26.02.2019 Do nosso arquivo online

Associação mais antiga de portugueses no Luxemburgo elimina Portugal do nome

Guy Reger é presidente da Amizade Portugal-Luxemburgo desde 2004 (na foto, em 2005).

Associação mais antiga de portugueses no Luxemburgo elimina Portugal do nome

Guy Reger é presidente da Amizade Portugal-Luxemburgo desde 2004 (na foto, em 2005).
Foto: Arquivos Contacto
Luxemburgo 3 min. 26.02.2019 Do nosso arquivo online

Associação mais antiga de portugueses no Luxemburgo elimina Portugal do nome

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
A mudança coincide com o 50° aniversário da Amizade Portugal-Luxemburgo, várias vezes condecorada pelo Estado português.

A Amizade Portugal-Luxemburgo vai passar a chamar-se "Amitié Plurielle Luxembourg" (Amizade Plural Luxemburgo). A mudança tem como objetivo "dar um nome que responda às atuais atividades" da associação, disse hoje ao Contacto o presidente, Guy Reger. "A realidade é que temos membros e gente de todas as nacionalidades e culturas", explica o luxemburguês, que chegou à APL em 1996, é presidente desde 2004, e foi condecorado por Portugal pelos serviços prestados pela associação aos portugueses, em 2010.

A mudança, que coincide com o 50° aniversário da associação, ainda tem de ser aprovada em assembleia-geral, mas já figura no novo logo que a ex-Amizade Portugal-Luxemburgo vai apresentar esta quinta-feira, na véspera do Festival das Migrações. “Não tivemos tempo de organizar a assembleia-geral, que deve realizar-se em abril, mas só temos uma ou duas pessoas que talvez façam oposição”, explica Guy Reger.

O presidente admite no entanto que a alteração possa chocar alguns membros. "A primeira pergunta que nos fazem é: 'Vão abandonar os portugueses?'". A resposta, garante o dirigente associativo, é negativa. "Abrir-se aos outros não é esquecer os portugueses”, defende. “Temos uma longa experiência de 50 anos [com a comunidade portuguesa], e a situação é muito diferente de quando a associação começou. Em 1969, quando os primeiros portugueses chegaram ao Luxemburgo, eram muito pobres, tinham muito pouco, e era preciso dar-lhes apoio material e ajuda para encontrar alojamento”, explica. “A imigração portuguesa também mudou. Antes era sobretudo composta por operários, mas agora chegam cada vez mais pessoas de zonas urbanas, com diplomas, e vemo-los em todos os setores da sociedade luxemburguesa”.

O presidente da associação, Guy Reger, que foi condecorado pelo Estado português em 2010, diz que o novo nome elimina “barreiras” no acesso a financiamento.
O presidente da associação, Guy Reger, que foi condecorado pelo Estado português em 2010, diz que o novo nome elimina “barreiras” no acesso a financiamento.
Foto: Steve Eastwood

O presidente também admite que o nome original é uma barreira para obter apoios, e diz que a associação chegou a ver projetos recusados, por alegadamente se destinaram “apenas aos portugueses”. “Infelizmente, ouvimos muito isso. Há quem ouça o nome Portugal e feche a porta”, lamenta. E recorda um caso que se passou há uns anos. “Propusemos à autarquia da cidade do Luxemburgo abrirmos uma sala de internet para jovens, e recebemos como resposta: ’não podemos criar um ’internetstuff’ só para portugueses’. E não era só para portugueses”, recorda. “Isso, sem dúvida, teve um papel nesta evolução”.

Com o novo nome, defende, a situação é clara.“Dizemos claramente que não nos fechamos à imigração portuguesa, mas abrimo-nos a outros”. Do novo logo também saíram as bandeiras de Portugal e do Luxemburgo. A sigla (APL) é que fica a mesma. "A APL converte-se em APL", diz o título do comunicado que deverá ser divulgado na quinta-feira.

As restantes secções da associação, situadas em Esch, Dudelange, Echternach e Wiltz, deverão no entanto continuar a usar o nome com que a organização foi batizada pelos fundadores, em 1969. "A condição foi que as secções mantenham o seu nome", explicou Guy Reger. 


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Fundada em fevereiro de 1969 por um luxemburguês, Lucien Huss, e pelo português Carlos de Pina, falecido em 1986, a "Amitié Portugal-Luxembourg" é a mais antiga associação de imigrantes portugueses no país. A organização foi responsável por alguns dos marcos históricos da presença portuguesa no Grão-Ducado. Em 1970, criou o jornal Contacto, que passaria em 1987 para as mãos do grupo editorial Saint-Paul, editor do Luxemburger Wort. Foi também a APL que iniciou a peregrinação dos portugueses ao santuário de Fátima em Wiltz, nos anos 1970, uma romaria que atrai todos os anos milhares de imigrantes e em que Marcelo Rebelo de Sousa participou em 2017. O Estado português distinguiu vários membros da associação com medalhas de mérito pelos serviços prestados aos imigrantes no país, incluindo Heroína de Pina, viúva de um dos fundadores, em 2009, e Guy Reger, em 2010.

Em 2006, a associação criou o Centro de Formação Lucien Huss, que dá cursos de línguas a cerca de 3.700 alunos por ano, incluindo francês, português e luxemburguês. A associação tem projetos em curso para apoiar refugiados, como uma biblioteca em Wiltz, e presta ainda apoio psicológico e assistência a pessoas de todas as nacionalidades.

Paula Telo Alves


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