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Associação de extrema-direita apresenta queixa-crime contra Serge Tonnar
Luxemburgo 1 5 min. 02.04.2019 Do nosso arquivo online

Associação de extrema-direita apresenta queixa-crime contra Serge Tonnar

Associação de extrema-direita apresenta queixa-crime contra Serge Tonnar

Luxemburgo 1 5 min. 02.04.2019 Do nosso arquivo online

Associação de extrema-direita apresenta queixa-crime contra Serge Tonnar

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
Para o músico luxemburguês, a queixa-crime apresentada pelos "Lëtzebuerger Patrioten" põe em causa a liberdade de expressão.

Artigo publicado originalmente em 9 de maio de 2012, na edição imprensa do Contacto.

Quando Serge Tonnar publicou uma imagem da grã-duquesa Charlotte no Facebook, fê-lo para recordar que até a antiga soberana luxemburguesa teve de pedir asilo durante a ocupação nazi. Uma forma de alertar para as dificuldades que os refugiados enfrentam hoje em dia no Luxemburgo. O músico luxemburguês estava longe de imaginar o que se seguiria. A associação "Lëtzebuerger Patrioten", conotada com a extrema-direita, apresentou queixa-crime contra o músico por "difamação e assédio da família grã-ducal". Um caso que põe em causa a liberdade de expressão no Grão-Ducado.

O músico é conhecido pelo humor ácido das suas letras e pela defesa dos direitos dos imigrantes. Na canção "Kosovomoss" ("A rapariga do Kosovo"), uma música editada em 2004, no auge da vaga de refugiados vindos dos Balcãs, Serge Tonnar apontava o dedo às más condições do Foyer Don Bosco, um centro de acolhimento de requerentes de asilo situado em Limpertsberg. A música apontava o contraste entre a riqueza dos bancos e das elites que vivem naquele bairro da capital e "o gueto nada elitista" que acolhe os refugiados. "Seis metros quadrados por família e casas de banho no corredor / Pois, não há aqui muito espaço, desculpa pelo fedor", criticava o músico na canção, que teve direito a um vídeo realizado pelo irmão, o realizador luxemburguês Yann Tonnar.

Os vídeos 360 não têm suporte aqui. Ver o vídeo na aplicação Youtube.

Quase uma década depois, o músico acompanha com preocupação os sinais crescentes de xenofobia no país e as dificuldades enfrentadas pelos requerentes de asilo. "Há uns tempos, pus o vídeo da canção 'Kosovomoss', que saiu há quase dez anos mas continua a ser actual, na minha página do Facebook. E fiquei chocado com a quantidade de comentários xenófobos e nacionalistas que recebi. Vi que entre os meus 'amigos' – tenho quatro mil amigos no Facebook – havia pessoas que pensavam assim. Comecei a reagir, a responder-lhes, e foi então que decidi publicar a imagem com a grã-duquesa Charlotte", contou ao Contacto.

Esta é uma das imagens publicadas pelo músico luxemburguês no Facebook que levaram à apresentação da queixa-crime: a grã-duquesa Charlotte com a legenda "Asylant" ("requerente de asilo").
Esta é uma das imagens publicadas pelo músico luxemburguês no Facebook que levaram à apresentação da queixa-crime: a grã-duquesa Charlotte com a legenda "Asylant" ("requerente de asilo").

Na imagem, vê-se a grã-duquesa com a legenda "Asylant" ("requerente de asilo"). Uma forma de recordar que a antiga soberana luxemburguesa também foi obrigada a pedir asilo durante a Segunda Guerra Mundial. A neta do rei português D. Miguel conseguiu em 1940 o visto para entrar em Portugal, tendo depois seguido para Inglaterra, Canadá e Estados Unidos, onde permaneceu a maior parte do exílio. "A grã-duquesa Charlotte é um símbolo nacional, e eu quis mostrar que toda a gente se pode encontrar nesta situação e ter de pedir asilo, até a grã-duquesa. Era pedagógico: provocador, certamente, mas pedagógico", explica o músico.

Queixa "põe em causa liberdade de expressão"

A fotografia da antiga grã-duquesa é uma das duas imagens que serve de base à queixa-crime apresentada contra o músico pela associação "Lëtzebuerger Patrioten" ("Patriotas Luxemburgueses"). Na queixa que deu entrada no Tribunal de Diekirch em 6 de Abril [de 2012], a associação acusa Tonnar de difamação e assédio da família grã-ducal. E ameaça processar igualmente outros utilizadores do Facebook, incluindo a página de luta contra a xenofobia "Pierre Peters, nee merci" ("Pierre Peters, não obrigado"). Uma página criada inicialmente para denunciar o nacionalista luxemburguês Pierre Peters, e que depois se converteu num instrumento de luta contra o racismo.

A associação acusa também Serge Tonnar de publicar a imagem de uma obra de arte polémica do artista belga Steve Jacobs. No quadro, intitulado "Disneylândia", a família grã-ducal é retratada com as orelhas do rato Mickey. Uma obra controversa censurada em 2009 pelo embaixador do Luxemburgo na Bélgica, que recusou exibir a tela, encomendada para uma exposição na Casa do Luxemburgo em Bruxelas.

Serge Tonnar ficou chocado com a censura do quadro e decidiu comprá-lo. "Tenho-o na minha cozinha", conta o músico. "É uma obra de arte belíssima, e que me inspirou uma música chamada Disneylândia. É um pouco essa a imagem que as pessoas têm do Luxemburgo: um país fantástico, rico, com uma família real, o que vai sendo raro na Europa... Mas por detrás dessa fachada, há sempre coisas menos 'limpas'", acusa.

O quadro "Disneylândia", do artista belga Steve Jacobs, foi censurado em 2009 pelo embaixador do Luxemburgo na Bélgica. Agora volta a provocar polémica.
O quadro "Disneylândia", do artista belga Steve Jacobs, foi censurado em 2009 pelo embaixador do Luxemburgo na Bélgica. Agora volta a provocar polémica.


A começar pelo aumento da xenofobia no país, de que este episódio é mais um sinal, denuncia o músico. Por detrás da queixa-crime de que é alvo, está a associação "Lëtzebuerger Patrioten", criada em Agosto do ano passado. Uma associação que tem como líderes Francis Soumer e Daniel Schmitz, que assinam vários comentários xenófobos no Facebook.

Em Dezembro, a RTL identificou o director da associação, Francis Soumer, como um dos quatro administradores de uma página no Facebook com comentários xenófobos e insultos contra os requerentes de asilo. Mas nos estatutos da associação, publicados a 2 de Dezembro do ano passado no "Mémorial", o diário oficial do Luxemburgo, diz-se apenas que a associação tem por fim "ajudar os cidadãos em dificuldades, os idosos e os deficientes".

"É evidente que se trata de pessoas de extrema-direita", acusa Tonnar. "Eu desconhecia a existência desta associação até receber a queixa-crime, de contrário teria pedido para ser membro, porque eu também sou patriota", ironiza. "Para mim, o termo 'patriota' não é negativo, estas pessoas é que dão mau nome ao patriotismo. Mas ser patriota, amar o seu país e as pessoas que o compõem, não é um insulto. Eu não tenho nada contra o grão-duque nem contra a família grã-ducal", diz o músico, que frisa que em nenhum momento a família grã-ducal se queixou das imagens que publicou no Facebook. "Também não tenho nada contra o meu país, pelo contrário. Mas é preciso ser crítico. E é isso que eu sou, um patriota crítico, como todos os patriotas deviam ser", diz.

Para já, o músico desvaloriza a queixa, e espera que esta seja arquivada. "Isto é ridículo, mas se a justiça der seguimento a esta queixa, é a liberdade de expressão que está em perigo. Mas acho que a justiça tem mais que fazer", diz. O que o preocupa é o aumento do racismo e da xenofobia na Europa, um fenómeno a que o Luxemburgo não é estranho. "Estamos em crise, e é fácil encontrar bodes expiatórios. E os estrangeiros e os refugiados são um alvo fácil", alerta.

O Contacto tentou até ao fecho desta edição ouvir a associação "Lëtzebuerger Patrioten", sem sucesso.


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