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Ascensão e queda de Daniel da Mota
Luxemburgo 5 min. 30.09.2020

Ascensão e queda de Daniel da Mota

Ascensão e queda de Daniel da Mota

Foto: Yann Hellers
Luxemburgo 5 min. 30.09.2020

Ascensão e queda de Daniel da Mota

Álvaro CRUZ
Álvaro CRUZ
O futebolista lusodescendente internacional pelo Luxemburgo está a contas com a justiça. Indiciado por "abuso de fraqueza" para com uma idosa de quem recebeu quantias avultadas de dinheiro, incorre numa pena de prisão de três anos. A sentença será conhecida a 29 de outubro.

Daniel da Mota passou do céu ao inferno em pouco tempo. Em janeiro de 2019, o português mais conhecido do futebol grão-ducal foi indiciado por um juiz de instrução pelo delito de "abuso de fraqueza", suspeito de se ter aproveitado de uma idosa de quem teria recebido avultadas quantias de dinheiro (167 mil euros), através de transferências bancárias, e uso de cartão de crédito, entre 2016 e 2018. Na altura, soube-se que a denúncia foi feita por uma entidade bancária e não pela alegada vítima.

Uma notícia que chocou o país e sobretudo a família e os amigos. "Não acredito. O 'Dan0 não era capaz de uma coisa dessas. É um tipo impecável. Conheço-o desde miúdo... não, essa história está muito mal contada" defende um amigo que preferiu manter o anonimato.

No entanto, parece que as coisas apontam noutra direção. Segundo consta do processo, Daniel da Mota teve problemas de dinheiro, tendo perdido cerca de 100 mil euros no póquer online. No início do ano passado, o lusodescendente foi alvo de buscas e chegou a ficar em prisão preventiva, mas foi solto semanas depois. Mas o jogador reclamou, sempre, a sua inocência. Sobre a idosa, agora com 91 anos, diz-se que tinha uma relação de amizade próxima com o jogador, que a considerava como uma avó, embora não tenham quaisquer laços de sangue.

A ascenção no futebol

Filho de imigrantes portugueses de Celorico de Basto, Daniel Alves da Mota nasceu no Luxemburgo há 35 anos, a 11 de setembro de 1985. Tem três irmãos e é um dos nomes mais conhecidos do futebol grão-ducal. Iniciou a carreira no Etzella onde fez a formação e chegou à equipa principal. Passou pelas equipas jovens da seleção nacional luxemburguesa e foi ganhando notoriedade até chegar à 'A'. Em 2008, transferiu-se para o F91 Dudelange, onde ficou até 2017, e depois mudou-se para o Racing Luxembourg. Conta no currículo com mais de 400 jogos entre Liga BGL, Taça do Luxemburgo e competições europeias e ultrapassou a fasquia dos 170 golos. Mas foi ao serviço da seleção luxemburguesa que ganhou maior notoriedade, nomeadamente quando em 2012 marcou um grande golo contra a seleção portuguesa que a equipa das 'quinas' venceu por 2-1 no Josy Barthel.

De leão vermelho ao peito, Daniel disputou 99 jogos pelo Grão-Ducado e marcou sete golos. No seu currículo como jogador, soma seis títulos de campeão nacional, todos pelo F91 Dudelange, e cinco taças do Luxemburgo, quatro pelo F91 e uma pelo Racing. Nunca cumpriu o desejo de se tornar profissional, embora tenha recebido uma ou outra proposta, mas tornou-se numa referência do futebol no país.

A entrada na política

Tornou-se conhecido graças ao futebol e foi conquistando o respeito da sociedade no Grão-Ducado. À parte do futebol, trabalhou numa instituição bancária, esteve ligado ao comércio de artigos desportivos e tornou-se sócio de uma agência imobiliária no Luxemburgo.

Foi convidado para integrar o Partido Reformista da Alternativa Democrática (ADR) – que tem assumido posições contra os direitos dos estrangeiros – e em outubro de 2018 candidatou-se por esse mesmo partido ao Parlamento nas legislativas luxemburguesas, mas não conseguiu ser eleito.

Numa entrevistaao Contacto chegou a dizer que o partido a que aderiu não é racista: "Muitos vêem o ADR como um partido de racismo, mas não o é. A vontade deles é que os estrangeiros que vêm para o país se integrem bem, dando a possibilidade aos filhos de ter melhor educação e melhores diplomas que os seus pais. Se fosse um partido racista, eu não faria parte dele."

A queda

Desde as eleições que não apareceu na vida política e, segundo fonte do partido, "enquanto não apresentar a demissão, continua a ser membro. Ultimamente não tem pago as quotas e neste momento nem temos a sua atual morada, mas continua no ADR", garantiu.

No capítulo desportivo, as coisas também parecem não correr de feição ao jogador do Racing. Afastado da equipa da capital desde o início da época, continua sem jogar. "É uma pena porque ele faz-nos falta", avançou ao Contacto um dos jogadores do Racing. Uns dizem que foi por motivos desportivos, outros por razões particulares, a que não perece alheia a presidente do clube, Karine Reuter, mulher de Roy Reding, deputado do ADR.

Outro dos colegas diz que não percebe bem porque Daniel continua afastado. "É um tipo porreiro e bom jogador. Talvez seja por causa dos problemas com a justiça. Neste momento, especula-se muito, vamos ver o que isto dá", desabafa.

Entretanto, na última vez que compareceu no tribunal, na capital, o Ministério Publico pediu três anos de prisão para o jogador, uma parte com pena suspensa, juntamente com reembolso do dinheiro à vítima e mais uma multa.

Apesar de várias tentativas, o Contacto não conseguiu qualquer declaração da parte do advogado de Daniel da Mota, Pierre-Marc Knaff, que em vários meios de comunicação social contesta as acusações de "abuso de fraqueza”, sublinhando que a vítima agiu de livre vontade. Agora, resta esperar pela sentença que será conhecida a 29 de outubro. 

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