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As três lusodescendentes que querem parar o aquecimento global no Grão-Ducado
Luxemburgo 4 min. 06.03.2019

As três lusodescendentes que querem parar o aquecimento global no Grão-Ducado

Sara, Joana e Sílvia

As três lusodescendentes que querem parar o aquecimento global no Grão-Ducado

Sara, Joana e Sílvia
Foto: Sibila Lind
Luxemburgo 4 min. 06.03.2019

As três lusodescendentes que querem parar o aquecimento global no Grão-Ducado

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Desde há um ano que os jovens do mundo estão mais inquietos. Perceberam que o mundo que as anteriores gerações lhe pretendem deixar arrisca-se a ser um escombro em forma de planeta. O Contacto foi conhecer três organizadoras da greve global do clima de 15 de março no Luxemburgo.

Às vezes basta um pequeno gesto para criar um rutura. A história é velha como a humanidade. Numa das tragédias clássicas do teatro grego, “Antígona” opõe-se às leis da cidade que a impedem de enterrar o irmão. Para ela as leis não estão acima do dever. O seu sofrimento vai derrubar a tirania.

A 1 de dezembro de 1955, uma costureira de 42 anos sentou-se no autocarro nos lugares disponíveis para “gente de cor”. Na cidade de Montgomery, no estado do Alabama, a lei dizia explicitamente que, quando os brancos não tivessem lugares sentados, podiam obrigar os negros a levantar-se e se o veículo estivesse muito cheio os negros podiam ser despejados para a rua.

Nesse dia vários brancos entraram no autocarro e muitos negros levantaram-se dos seus lugares. Mas não todos. Rosa Parks recusou fazê-lo. “Estou cansada de ser tratada como uma pessoa de segunda classe”, disse ao condutor.

Rosa recusou levantar-se do banco do autocarro para dar lugar aos brancos. Foi presa, mas a sua recusa atiçou a revolta pelos direitos iguais. As coisas nunca mais foram as mesmas. Um gesto que mudou a história.

Em 20 de agosto de 2018, a jovem Greta Thunberg estava no nono ano, tinha 15 anos e decidiu fazer greve às aulas, por causa do ambiente, até às eleições gerais de 2018 na Suécia. Todos os dias sentava-se à porta do parlamento com um cartaz com os dizeres “Skolstrejk för klimatet” (greve escolar por causa do clima) para exigir que os políticos do seu país cumprissem a redução das emissões de carbono a que se tinham comprometido nos Acordos de Paris.

Como uma fagulha, o seu exemplo espalhou-se entre outros jovens que nas sextas-feiras começaram a parar as suas cidades na Holanda, França, Alemanha, Finlândia, Bélgica, Dinamarca ou Austrália. E cada dia somam-se mais vozes a dizer: “Quando eu for grande quero estar viva”, como rezava um cartaz em Paris.

No seu discurso no Fórum Económico de Davos, em janeiro passado, a jovem sueca olhou as pessoas da sala nos olhos e cobrou-lhes a inação: “Algumas pessoas, algumas empresas, os que decidem em particular, sabem exatamente o que estão a sacrificar para continuar a ganhar quantias inimagináveis de dinheiro. E eu penso que muitos de vocês, aqui presentes, pertencem a esse grupo de pessoas”. E concluiu: “Estamos a ficar sem desculpas e sem tempo. Viemos aqui para que vocês saibam que a mudança está a chegar quer vocês gostem ou não. O poder é do povo. Obrigada”, lembrou Greta.

Em Schifflange, o Contacto foi conhecer as jovens que convocam a greve global ambiental de 15 de março no Luxemburgo: Joana Coimbra Marques, 16 anos, Sílvia Almeida, 18 anos, e Sara Sousa, 18 anos, são três das pessoas que dedicam o seu tempo a conseguir mobilizar os luxemburgueses para conseguirem ajudar a parar esta autêntica corrida rumo ao precipício. Segundo o o mais recente relatório do Painel Intergovernamental de Especialistas sobre a Evolução do Clima temos menos de 12 anos para salvar o planeta, evitando que as temperaturas subam mais de 1,5 graus acima dos valores pré-industriais, sem o qual poderão morrer milhões de pessoas e ser destruídos ecossistemas inteiros.

Joana Marques conta que as três foram a uma manifestação ambiental no Luxemburgo e foi aí que decidiram “juntar um grupo de jovens para organizar a greve ambiental”.

Para elas, as alterações climáticas foram-se tornando evidentes e decidiram meter

mãos à obra: “Líamos as notícias, começámos a ler sobre o assunto, mesmo a sentir que o clima no Luxemburgo estava a mudar. Tínhamos de fazer qualquer coisa”, explica Sílvia Almeida.

Esta sensibilidade de uma geração, contra muitos adultos que não acreditam que o aquecimento global existe, muito poderosos a quem a poluição dá lucro, é sublinhada pelas três: “Na minha opinião os políticos sempre souberam do problema mas nunca quiseram agir, porque isso põe muita coisa em causa. Eles não querem mudar por causa do dinheiro”, argumenta Sara Sousa.

Sílvia – que neste momento está a ler um livro da ativista canadiana Naomi Klein – concorda que defender o planeta exige uma mudança de sistema político e económico, e não apenas melhorar o comportamento individual.

Quando se lhes pergunta se acham que será fácil convencer o governo luxemburguês a regular o capitalismo, as três riem, mas matizam: “O nosso objetivo inicial é consciencializar e mobilizar as pessoas”, diz Joana. “E é preciso entender que a economia são as pessoas, e se as pessoas mudarem a economia tem de mudar para aquilo que as pessoas fazem”, precisa Sara.

Os colegas têm-se dividido em relação ao ativismo das três lusodescendentes, a maioria ajuda e quer participar, mas alguns brincam com esta urgência ambientalista. “Tenho amigos que avisam quando eu chego: ’guardem as garrafas de plástico que vem aí a Joana’”, conta a mais nova.

Mais de 40 pessoas trabalham pela greve do clima no próximo dia 15 de março no Grão-Ducado. Nesse dia está previsto que as escolas param, os alunos concentram-se à porta do seu estabelecimento de ensino e depois juntam-se todos numa grande manifestação na cidade do Luxemburgo. No fim, todos poderão falar e decidir o que continuar a fazer para conseguir ajudar a salvar o planeta. 

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